toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

Ninfomaníaca: o veredicto

Do marketing pré volume I à última cena do volume II, "Ninfomaníaca" escancara o conservadorismo, a hipocrisia e o machismo com que tratamos o ato sexual.


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Se, no primeiro volume de “Ninfomaníaca”, Lars Von Trier nos ensina, da maneira mais didática possível, que o ato sexual nada mais é que um fazer natural do ser humano, neste recente segundo volume o diretor esfrega em nossas caras o quão hipócritas e machistas somos quando o assunto é sexo.

Na segunda parte do longa, acompanhamos a história de Joe (inicialmente ainda na pele de Stacy Martin) a partir do momento em que ela perde a capacidade de sentir prazer em uma relação sexual. Sua progressão se dá em um lugar comum imposto a todas as mulheres: o papel de esposa e mãe de família. O cerne da questão e o ponto introdutório à crítica social é o fato de que Joe (passando a ser vivida por Charlotte Gainsbourg) não é uma esposa e mãe de família qualquer, tal qual estipulada e aceita pelos padrões sociais, mas sim uma ninfomaníaca, alguém que não consegue satisfazer-se sexualmente com uma única pessoa.

Assim, a partir da insatisfação sexual de Joe, Von Trier percorre os meandros das hipocrisias sociais. A relação de posse advinda com a monogamia imposta culturalmente, o racismo, o sadomasoquismo, a relação homoafetiva, são todos captados, reservando-se os pudores da versão com cortes, pelas lentes do diretor dinamarquês que, de forma mais que inteligente, escolheu uma das maiores vítimas da opressão social para tratar de tais assuntos: a mulher, cujos estigmas já vinham sendo representados na filmografia do diretor.

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É, no entanto, em “Ninfomaníaca” que Von Trier dedica-se não só a permear o assunto, mas a explicitá-lo. Daí o marketing pesado desde o primeiro volume, a divisão do filme em duas partes e o didatismo quase pedante escolhido para narrar as experiências de Joe. Tudo arquitetado para nos mostrar que a sociedade em que vivemos não aceita o fato de que uma mulher pode exercitar livremente sua sexualidade.

Com a segunda parte de “Ninfomaníaca”, o dinamarquês fecha brilhantemente o arco narrativo iniciado nas campanhas publicitárias do filme, que, com o alvoroço causado, já demonstravam como o sexo em si ainda é um grande tabu social. Desde então, Von Trier havia começado seus questionamentos, os quais perduram e culminam ao fim do volume II.

Imaginemos que a personagem principal fosse um homem. Será que a repercussão seria a mesma ou o filme estaria fadado ao fracasso antes mesmo de estrear? A história de um homem viciado em sexo seria tão impactante quanto a de uma mulher? Quais são os papéis sociais designados às mulheres e aos homens? E, talvez a mais importante questão de todas: por que aceitamos de modo diferente a livre expressão sexual feminina?

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São perguntas que não precisam de respostas prontas e imediatas, mas sim de uma grande reflexão individual sobre o modo como encaramos cada uma delas. “Ninfomaníaca”, analisado em seus dois volumes, foi mais uma mostra do brilhantismo de Von Trier, onde o diretor diz nada além do óbvio, mas algo que nem todas as pessoas conseguem enxergar.

Assim, aos que ainda veem com maus olhos as mulheres que vivem livre e despudoradamente sua sexualidade, “Ninfomaníaca” é imprescindível, é um filme de formação. Agora, àqueles que já perceberam que, sim, as mulheres possuem vontades sexuais e têm o direito de exercitá-las, resta sentar em frente à tela, apreciar mais uma obra-prima de Lars Von Trier e rir, junto ao diretor, do conservadorismo alheio.

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Lia Bianchini

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