toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

Frozen, uma pequena vitória do feminismo

Contrário aos contos de princesas de outrora, Frozen é um dos poucos que possui uma mensagem realmente digna de ser assimilada pelo seu público alvo, as crianças, meninas, principalmente.


*Possui alguns spoilers

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Sim, Frozen é mais um daqueles contos de fadas da Disney, "feito para meninas", com mais personagens masculinas do que femininas, todas brancas, magras, adequadas ao padrão eurocêntrico de beleza, heterossexuais e cisgênero. Até aí, tudo bem, nada além do esperado. Mas, então, o que faz com que Frozen seja diferente da grande maioria das animações já lançadas pela Disney?

Bom, antes de mais nada, é preciso explicar do que se trata a estória.

Frozen narra o drama de Elsa, uma princesa do reino nórdico de Arendelle, que nasceu com o poder da criocinese. Quando pequena, em uma brincadeira, Elsa acidentalmente atinge sua irmã, a princesa Anna, com seus poderes. Desde então, Elsa é instruída a esconder sua magia (que aumenta conforme ela vai ficando mais velha), para que não cause mal a mais ninguém. Os portões do castelo da família real são fechados e as princesas são separadas. No entanto, após a morte de seus pais em um naufrágio, Elsa se vê obrigada a aparecer em público para sua coroação como rainha de Arendelle. É na ocasião que, mais uma vez acidentalmente, após alguns acontecimentos, Elsa mostra seus poderes, causando grande alarde entre o povo de Arendelle. Diante disso, a nova rainha foge de seu reino, deixando-o em um intenso inverno, e sua irmã, Anna, começa uma jornada para encontrá-la e fazer com que a magia seja desfeita.

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É interessante notar que as duas princesas são a representação do papel das meninas na sociedade. Elsa representa a verdadeira condição das meninas: é oprimida, obrigada a resguardar-se, a esconder quem realmente é. "Encobrir, não sentir, não deixar saber" é o lema que o pai das princesas faz com que Elsa carregue em sua vida. Enquanto Anna é a menina que a sociedade determina e deseja: ingênua e sonhadora, vive à espera de um príncipe encantado, um homem para amá-la.

Exatamente por isso, Elsa é uma das melhores princesas já feitas pela Disney. Ao passo em que Anna procura em um príncipe encantado sua felicidade (como espera-se que toda menina o faça), Elsa preocupa-se em resolver sua própria angústia, iniciada quando a princesa foi obrigada a separar-se de sua irmã, com quem mantinha um relacionamento muito próximo. Seu drama não gira em torno de um homem, mas sim dela própria e de sua relação com a família. Elsa é uma personagem complexa, cujo dilema é encontrar a autoaceitação, para que, assim, consiga deter total controle sobre seus poderes. Daí sua fuga, seu isolamento, que nada mais são do que a incapacidade de Elsa em aceitar-se tal como ela o é.

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Imagino que nenhuma menina que lê esse texto tenha o poder da criocinese, mas acredito que a maioria encaixa-se no dilema de Elsa, sendo obrigada a esconder-se dentro de uma imposição social oposta à sua realidade. Corpo, roupas, brinquedos, profissão, esportes, sexualidade. Cada mínimo aspecto de nossas vidas, enquanto meninas/mulheres, é impregnado de estereótipos, os quais crescemos sendo compelidas a aceitar e a seguir, resignadamente.

Eis aí o grande trunfo de Frozen: mostrar ao seu público alvo, as meninas, que, antes de tudo e qualquer coisa, a verdadeira aceitação deve ser pessoal, não importando o que a sociedade diga e espere em relação a isso. Ao contrário de outros filmes de princesas, Frozen mostra o emponderamento da própria protagonista, que detém em sua autoaceitação a resolução dos problemas e não em uma submissão a um príncipe salvador. Tanto que Elsa nem ao menos tem um pretendente. Porque a personagem não precisa disso. Seu final feliz reside na descoberta da possibilidade de controlar seus próprios poderes, na autoaceitação.

Outro ponto importante abordado em Frozen é a desconstrução dos estereótipos de amor tão difundidos em contos de fadas. Aqui, ao contrário de tantas outras famosas animações de princesas, onde familiares são vilões e o amor só pode ser encontrado em um príncipe encantado, Frozen mostra, desde o começo, o amor entre duas irmãs e o sofrimento advindo pela quebra de um relacionamento familiar. A mensagem passada é a de que não é preciso esperar um príncipe encantado, o homem perfeito, para encontrar o amor verdadeiro. Diferentemente do que pregam a maioria dos contos de fadas, em Frozen o príncipe é malvado e o amor que salva existe entre irmãs.

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Como já dito, Frozen não é um filme perfeito. Ainda transmite a imagem de princesas inseridas no atual padrão de beleza, brancas e magras, possui apenas duas personagens femininas ao longo do filme todo, que são exatamente Elsa e Anna (cuja mãe aparece durante poucos minutos), tendo as personagens secundárias todas masculinas e a demonstração única dos padrões aceitos socialmente de orientação sexual e identidade de gênero. No entanto, Frozen mostra, às crianças às quais se destina, o protagonismo das mulheres, seu emponderamento e a não submissão ao homem. Por isso tanta repercussão. Porque Frozen é um dos poucos filmes de princesas que realmente contém uma mensagem propícia à formação das crianças.

É um grande avanço ver filmes como esse sendo lançados e fazendo sucesso entre as próprias crianças, que passaram décadas sendo inundadas por besteiras que apenas reforçavam estereótipos e colocavam as meninas em papel de submissão ao homem salvador. Que esse seja apenas o primeiro passo e que os filmes infantis procurem, cada vez mais, quebrar estereótipos e transmitir mensagens que contribuam para a formação de uma sociedade mais igualitária, tolerante e menos moralista e preconceituosa.


Lia Bianchini

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