toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

O homem das multidões

A solidão do século retrasado ambientada aos dias atuais.


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“Esta grande infelicidade, a de não estar só”. Edgar Allan Poe utiliza tais palavras, do ensaísta francês Jean de La Bruyère, como introdução a “O homem da multidão”, conto no qual se inspira o novo filme de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, “O homem das multidões”.

Poe narra a história de um homem que, sentado em um café em Londres, simplesmente aproveita o dia observando a vida à sua volta. Entre descrições sobre determinados tipos de indivíduos que caminhavam pelas ruas, entre a multidão, o homem depara-se com um senhor que lhe chama a atenção em especial. “Um velho decrépito, de uns sessenta e cinco anos de idade”¹, o tal homem da multidão. Imaginando a fantástica história que poderia haver atrás do semblante de tal velho, o homem, então, persegue-o até sanar sua súbita curiosidade.

Assim como o conto, o filme “O homem das multidões” vale-se da tríade observador/perseguidor, perseguido e multidão para dissecar um dos aspectos mais pulsantes da vida humana: a solidão.

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O longa narra a história de Juvenal (vivido por Paulo André), um maquinista de metrô que preenche seus dias entre os deveres da profissão e as horas vagas que passa sozinho, em seu apartamento, em Belo Horizonte, Minas Gerais. O fator entrópico na vida de Juvenal é Margô (interpretada por Sílvia Lourenço), sua colega de trabalho, que, prestes a se casar, convida Juvenal para ser seu padrinho de casamento, iniciando, assim, uma suposta amizade.

Remontando a tríade de Poe, as personagens principais do filme, Juvenal e Margô, fazem o papel do perseguido; a multidão, por sua vez, está a todo instante presente, nos passageiros do trem comandado por Juvenal e nas ruas por onde ele passa; a grande sacada dos diretores é fazer de nós, espectadores, parte da história: o observador/perseguidor somos nós, como claramente pode-se perceber através da câmera encoberta utilizada durante todo o filme, reduzindo a perspectiva a uma visão individual, angustiante e quase claustrofóbica.

Ainda que inspirado em um conto do século retrasado, o filme explicita exatamente as aflições existenciais pelas quais passamos nos dias de hoje, colocando em xeque uma das principais dualidades dos nossos tempos: a solidão voluntária desejada e a solidão imposta pela multidão.

Juvenal poderia ser eu ou você. É uma personagem típica e comum na sociedade. Um homem que se dedica ao seu trabalho e tão somente a isso. Vive sozinho, sem amigos, vagando entre pessoas desconhecidas ao caminho de seu dever diário. Seu único momento de autoexpressão é sozinho, em casa.

O elemento adicional do filme, sobre o qual Poe dificilmente pensaria em escrever, é Margô, também uma personagem solitária, porém alguém do século XXI, onde a solidão é encoberta por contatos virtuais. Margô está prestes a se casar com um homem que conheceu na internet e vê nesse vasto mundo online o único modo de preencher seu vazio interior.

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“O homem das multidões” pode ser compreendido, assim, como um manifesto de todo e qualquer indivíduo deste século, que tem de lidar com a terrível realidade de ser só em uma multidão amorfa de indivíduos. O filme escancara a infelicidade que é viver sob o confronto diário entre o “querer estar só” e o “ter de estar só”. O mundo explicitado no longa é cruel (tal como a realidade em que vivemos), onde os desejos não correspondem aos fatos, e a maior dificuldade é compreender e aceitar sua própria existência.

Afinal, quando foi que não estivemos sós? Quando, em séculos de humanidade, não tivemos que lidar com nossos próprios problemas, individualmente?

“O homem das multidões” só reitera o fato de que nós, seres humanos, nascemos sozinhos e assim viveremos e morreremos. O problema reside em aceitar, sem grandes crises, a verdade inevitável de que estamos sós, por mais que tentemos mascarar tal fato. A multidão nada nos diz respeito.

Como lidaremos com isso? Essa é uma resposta única e individual...

¹Os melhores contos de Edgar Allan Poe, pág. 134.


Lia Bianchini

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