toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

Carol: o livro, o filme e a política

De Patricia Highsmith a Todd Haynes, qual a importância de se contar uma história de amor?


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Em algum momento entre 1940 e 1950, uma jovem mulher norte-americana, aspirante à escritora, conseguia dinheiro para sobreviver trabalhando em uma loja de departamentos na época do Natal. Em um dia, a palidez da rotina foi colorida por uma figura misteriosa. Era uma mulher, nas palavras da jovem escritora, “meio loura e parecia emanar luz”.

Isso foi tudo que aconteceu naquele dia, mas a tal mulher misteriosa continuou a latejar na cabeça da jovem, tanto que foi o ponto de partida para aquele que seria um dos livros mais comentados de sua carreira como escritora. A jovem, hoje sabemos, é Patricia Highsmith. O romance: The price of salt (em tradução livre, “o preço do sal”), lançado no Brasil com o título “Carol”.

Talvez, até o início de 2014 ou 2015, você não conhecesse “Carol”. O livro, que causou alvoroço entre os círculos sociais dos Estados Unidos da década de 50, não foi um grande sucesso de vendas no Brasil. Hoje, é muito provável que você conheça a história ou, ao menos, saiba que ela existe, em função de sua adaptação cinematográfica, lançada neste ano, também com o título “Carol”.

A história é muito simples: uma jovem se apaixona por uma mulher mais velha, que está em processo de divórcio e brigando pela guarda de sua filha. A problemática se desenvolve no tempo, já que a história se passa na década de 50, quando a homossexualidade era vista como um distúrbio mental, passível de tratamento médico.

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No livro, Therese Belivet é uma jovem de 19 anos, que sonha em ser cenógrafa, mas passa seus dias trabalhando em uma loja de departamentos. Na época de Natal, conhece Carol Aird na loja, quando esta vai comprar um presente para a filha.

O romance de Highsmith é contado sob o ponto de vista de Therese e se desenvolve principalmente no elemento psicológico das personagens: Therese e a descoberta de uma sexualidade patologizada, sem qualquer referencial que pudesse lhe explicar seus sentimentos; e Carol, uma mulher beirando os 40 anos, consciente de sua sexualidade, mas atormentada pela complexa escolha entre seguir seus desejos ou ignorá-los para não perder a guarda completa de sua filha.

A adaptação para o cinema, dirigida por Todd Haynes, tem mudanças sensíveis e substanciais. O grande trunfo do filme, que consegue dar o tom à toda obra, é seu roteiro, brilhantemente adaptado por Phyllis Nagy.

No livro, Therese tem uma relação quase obsessiva com Carol, enquanto Carol, sabendo da inexperiência de Therese, manipula displicentemente os sentimentos da jovem. No filme, a Therese de Rooney Mara é tão ingênua quanto a do livro, mas parece ter um equilíbrio mais perfeito entre seus sentimentos e como eles se projetam e são refletidos por Carol. Já a Carol do filme é vivida por uma Cate Blanchett que parece se entregar a cada cena, é uma personagem dividida entre duas paixões (Therese e a filha) e entregue a ambas. É uma Carol mais sensível, mais humana.

Obviamente, um filme tem elementos muito mais diversos do que um livro para delinear a história. Patricia Highsmith construiu uma narrativa densa com palavras. A adaptação cinematográfica constrói uma narrativa densa com palavras, som, imagem.

A sensibilidade do roteiro é complementada pela trilha sonora de Carter Burwell, que parece desenhar uma linha de ações própria. (Fica o exercício, aliás, para quem já assistiu ao filme: ouça apenas a trilha, você vai descobrir como a música pode contar histórias). A obsessividade da relação, do ponto de vista de Therese é retratada em fotografias (a Therese do filme sonha em ser fotógrafa), mas, além disso, fica a cargo dos planos escolhidos por Todd Haynes (o jogo de câmeras que brinca com os pontos de vista de Therese e de Carol, os closes em partes do corpo, o plano aberto focando os cenários mais que as personagens). Tudo envolto pela aura de mistério e desejo que a palheta de cores quentes confere. É uma bela obra para estudantes de cinema. Mas não só isso.

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À época de seu lançamento, o livro foi um marco na história da ficção LGBT por ser o primeiro a não dar um fim trágico a suas personagens. Já o filme, ao menos pelo que dizem o diretor e as atrizes protagonistas, parece se propor a ser um marco por não representar nada político. Todd Haynes, Rooney Mara e Cate Blanchett, nas entrevistas para divulgação do filme, costumavam ter um discurso único: “o diferencial do filme é não ter uma agenda política. É ser simplesmente uma história de amor”.

O que parece ser um total contrassenso ou uma falta de compreensão sobre o que é “ser político”. Quantas histórias de amor já foram contadas no vasto mundo da produção cinematográfica? Inúmeras.

Mas quantas histórias LGBTs? Quantas histórias de casais lésbicos?

Quantas histórias de casais lésbicos já foram contadas na vasta história da produção cinematográfica com a sensibilidade de retratar apenas duas pessoas que se apaixonam?

Talvez os dedos das suas mãos deem conta de responder à última pergunta.

Em um cenário de sub-representatividade, o que é ser político?

“Carol” é um dos poucos filmes já produzidos que conseguem retratar uma relação lésbica sem contornos hiperssexualizados ou fetichizados. Ainda que se possa questionar o esteriótipo dos corpos retratados condizentes a um padrão eurocêntrico de beleza, o tino político do filme reside justamente em retratar uma relação homossexual do mesmo modo que retrataria qualquer outro tipo de relacionamento.

Ou seja, é como fazer política sem reivindicar-se político. Não é não levantar bandeiras. Pelo contrário, as bandeiras estão levantadas. Mas elas clamam pela igualdade. O que “Carol” faz é deslocar o sentido político para o espectro comum do cotidiano. Algo ainda pouco retratado na mídia, que insiste em estereotipar cada personagem LGBT e fazer de sua sexualidade ou gênero sua simples essência, tornando-a rasa.

Em determinado momento do livro, Patricia Highsmith escreve, sobre os sentimentos de Therese por Carol: “emoções que Therese jamais conhecera antes, consequentemente, emoções em si mesmas revolucionárias”. Essa, acredito, é a frase que define toda a história, tanto no livro quanto no filme.

A revolução está nas entrelinhas. Está em fazer com que um público conservador vá ao cinema e acredite na história a qual assiste. Está em fazer com que aquela menina em plena descoberta de sua sexualidade saiba que não existe nada de errado em gostar de alguém do mesmo gênero.

A revolução do movimento LGBT nunca se pretendeu ser por sangue. Mas sim por amor. E se existe amor retratado no filme, e ele é palpável, então é o que basta para ser político.


Lia Bianchini

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