toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

Love: para homens que odeiam mulheres

Nova série de Judd Apatow é uma típica comédia romântica sexista revestida por uma roupagem moderna


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No dicionário Michaelis de português, a palavra “amor” tem 25 definições. No entanto, “amor” talvez seja a palavra menos compreendida na história da humanidade, não importa a língua em que seja dita.

“O que é o amor?”, é a pergunta que tem movido décadas de produções no ramo do entretenimento.

Na última sexta (19), estreou a nova série original da Netflix: “Love” (palavra inglesa para "amor"), criada por Judd Apatow (“O Virgem de 40 anos” e “Girls”), Paul Rust (“Arrested Development”) e Lesley Arfin (“Brooklyn Nine-Nine”).

No primeiro teaser lançado pela Netflix para promover a série, a descrição era: “Ela é cínica e urbana, ele é um nerd tímido. Quem sabe eles sejam a combinação certa para entender esse sentimento chamado amor”. Já o trailer, trazia a seguinte frase para descrever a série: “Gus e Mickey descobrem as emoções e humilhações da intimidade, do compromisso, e de outros sentimentos que estavam tentando evitar”.

Gus é o “nerd tímido”, vivido por Paul Rust, e Mickey é a “cínica urbana”, vivida por Gillian Jacobs (conhecida pela série “Community”). “Love” é uma típica comédia “boy meets girl”, com o nada inovador estilo Judd Apatow de ver o mundo e transcrevê-lo para a ficção. São dez episódios regulares e bem escritos, que podem tirar algumas poucas risadas da espectadora e do espectador, com sua pegada levemente melancólica e pessimista.

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Em contraposição ao título, o que menos se vê na série toda é “amor” ou qualquer alusão ao sentimento. Ainda que tente, “Love” não mostra como essa geração de 30 e poucos anos lida com o amor ou com relacionamentos. A série mostra como a nova indústria de massa norte-americana lida com o amor e representa-o em suas produções.

As personagens são estereotipadas, naquele que parece ser o novo padrão da sociedade norte-americana: o cara geek, que tem um trabalho medíocre, mas sonha em ser bem sucedido profissionalmente, encontra uma mulher segura e independente, que se torna seu objeto de desejo.

O Gus de Paul Rust pode ser encontrado em qualquer outra “comédia romântica indie adolescente” produzida nos Estados Unidos na última década. É um homem inseguro, imaturo e egocêntrico, que, ao menos nessa primeira temporada, não enxerga nas mulheres nada além de objetos úteis apenas para preencher pequenos espaços providenciais em sua vida e em seu trabalho.

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É interessante notar como essa geração de roteiristas e produtores que contam histórias de “homens nerds” tentam imprimir uma roupagem moderna à produção, mas nada mais fazem do que reafirmar os clássicos estereótipos de gênero, com o nada moderno sexismo. É sempre a mesma história batida do geek fracassado que tem de enfrentar o “grande problema” de namorar uma mulher que ele julgava ser inalcançável.

“Love” não só cai no senso comum das comédias do gênero, como menospreza as mulheres. Todas as personagens femininas que aparecem na vida de Gus têm um leve tom de descontrole emocional. A protagonista, Mickey (apesar de ser a personagem melhor construída em toda a série), começa como uma mulher independente e segura de si, mas vai caminhando em sentido completamente oposto. É como se todas as mulheres, milagrosamente, perdessem a sanidade após terem suas vidas cruzadas com a de Gus.

Importante atentar também para a falta de representatividade na série. “Love” é mais uma dessas comédias extremamente preocupadas em não padronizar os corpos masculinos (os homens da série são gordos ou muito magros, baixos, narigudos, míopes, calvos), mas também extremamente preocupadas em padronizar os corpos femininos (não tem uma só personagem feminina que fuja ao padrão eurocêntrico de beleza). Além disso, a esmagadora maioria do elenco é branca, com exceção de duas personagens negras.

Por mais comum que seja, o “amor” é sempre um tema atrativo e vendável para o público. Mas “Love” é uma comédia romântica para esses homens da nova geração que tentam passar a imagem de sensíveis e desconstruídos, mas que, lá no fundo, escondem a velha carcaça do predador machista.


Lia Bianchini

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