toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

Revolução Sexual?

Responda rápido: qual é o principal método de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis?


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Responda rápido: qual é o principal método de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis? Provavelmente, a resposta foi: camisinha masculina.

De fato, esse é o método de prevenção sexual mais divulgado e que possui a maior facilidade de acesso, tendo distribuição irrestrita em postos de saúde por todo o Brasil.

No entanto, a camisinha masculina não atende às necessidades da totalidade da população. Às mulheres* lésbicas e bissexuais, por exemplo, não existe, atualmente, no Brasil, nenhum método específico de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis. Ou seja, uma importante parcela da população brasileira simplesmente não possui métodos oficiais e específicos para praticar sua sexualidade de maneira segura.

“Quando se fala de lésbicas ou de mulheres bissexuais, percebe-se que essa parcela da população fica totalmente invisibilizada. Existe um processo de invisibilização da sexualidade da mulher, que a torna mais vulnerável em relação a suas práticas sexuais”, explica Marcelle Esteves, vice-presidente do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, do Rio de Janeiro.

Tal processo de invisibilização reflete-se na falta de consciência das próprias mulheres lésbicas e bissexuais sobre o fator de risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Segundo a pesquisa “Lesbianidade, Bissexualidade e Comportamento Sexual”, feita pelo Grupo Arco-Íris em 2007, 44% das entrevistadas não consideravam suas práticas sexuais como potencialmente perigosas. Outro dado importante levantado pela pesquisa diz respeito à desinformação sobre as formas de contágio e de prevenção: “73% da amostra declarou nunca ter recebido nenhum material de prevenção, materiais informativos sobre DST ou informações sobre práticas sexuais mais seguras entre mulheres”.

Para Jussara Oliveira, participante do grupo de coordenação do blog Blogueiras Feministas e edição do blog Bi-sides, o preconceito e a heteronormatividade são fatores de principal influência na falta de iniciativa para divulgação de formas específicas de prevenção para mulheres lésbicas e bissexuais. “Além da falta de divulgação de materiais focados ao público LBT, ainda sofremos com um atendimento preventivo extremamente limitado. Presume-se, no atendimento à saúde, que somos heterossexuais e estamos em um relacionamento monogâmico estável com um homem ou, no máximo, em oposição a isso, que estamos sem nos relacionarmos com ninguém. O atendimento preventivo padrão não leva em conta nem sequer a possibilidade de nos relacionarmos com mulheres”, diz.

Corrobora com a afirmação, a pesquisa “Atendimento Ginecológico Diante de Práticas Lésbicas e Bissexuais”, também realizada pelo Grupo Arco-Íris, em 2011, que mostra que 30,6% das mulheres lésbicas e bissexuais foram indicadas por ginecologistas a usar métodos anticoncepcionais e que 19,4% delas receberam indicação de uso de preservativo masculino (supondo relações heterossexuais). A pesquisa demonstra, ainda, que a iniciativa de abordar a questão da orientação sexual no ato da consulta parte, em sua grande maioria (88,6%), das próprias pacientes.

Segundo Marcelle Esteves, a visão que o profissional ginecologista tem perante a paciente já se inicia problemática. “Quando a mulher lésbica ou bissexual chega ao consultório, é vista como uma heterossexual que está ali para engravidar ou para não engravidar. Ela é vista como uma reprodutora. Os médicos são formados para trabalhar a questão do aparelho reprodutor, em suma. Então, muitos não sabem como orientar essa paciente”, declara. Como se prevenir?

Ainda que cercada por preconceito e invisibilização, a prática sexual de mulheres lésbicas e bissexuais existe e não é imune a doenças sexualmente transmissíveis.

No entanto, como não há, atualmente, em produção e distribuição no Brasil um método de prevenção voltado especificamente para mulheres lésbicas e bissexuais, é preciso utilizar os métodos existentes de maneira adaptada. Instrui-se cortar a camisinha masculina ou feminina (que, ao contrário da primeira, não possui distribuição irrestrita, sendo de difícil acesso) para uso no sexo oral. Utilizar camisinha em brinquedos sexuais e não compartilhá-los. Ter cuidado especial com a higiene, principalmente das mãos e unhas, e estar atenta a lesões, inflamações ou infecções na boca e na vulva. Além disso, é fundamental consultar um ginecologista ao menos uma vez por ano, manter as vacinas em dia e fazer exames de sangue para detectar doenças sexualmente transmissíveis.

Métodos específicos

Diante do negligenciamento do cuidado com a saúde sexual especificamente de mulheres lésbicas e bissexuais, é necessário haver pesquisas para introdução de métodos preventivos para tal público.

Após a pesquisa “Lesbianidade, Bissexualidade e Comportamento Sexual”, o Grupo Arco-Íris desenvolveu o método chamado de “sainha”: um lençol de látex para ser usado tanto no sexo oral como no tribadismo. A produção e distribuição desse método, no entanto, ocorreu entre 2011 e o início de 2014, pois o financiamento (obtido de uma fundação holandesa) possuía tempo limitado. Após isso, nenhum órgão governamental brasileiro ou instituição de iniciativa privada manifestou interesse em continuar produzindo e distribuindo tal método.

“O Ministério da Saúde não comprou a ideia porque considera a prática sexual de mulheres lésbicas e bissexuais como não sendo potencialmente de risco. Porém, considera isso apenas para HIV/AIDS. Reconhece que existe algum risco para outras doenças sexualmente transmissíveis, mas não reconhece que existe risco para o HIV/AIDS”, explica a vice-presidente do Grupo Arco-Íris.

Para Jussara Oliveira, as formas atuais de prevenção para mulheres lésbicas e bissexuais são insuficientes. “Os números de contágio mostram que ainda é preciso desenvolver métodos de prevenção mais amplos, práticos e eficientes. E, infelizmente, projetos de divulgação de material de prevenção de AIDS e DST ao público LGBT não avançam por conta do preconceito e do esforço contrário à divulgação desse tipo de material. Não é fácil encontrar materiais informativos na internet (mesmo nos portais do ministério da saúde ou da Organização Mundial da Saúde) ou nos postos de saúde”, declara.

Um problema estrutural

As raízes da invisibilização de mulheres lésbicas e bissexuais, segundo Marcelle e Jussara, estão no machismo em que se pauta a sociedade. Mulheres cuja vida não é baseada no órgão sexual masculino são excluídas da sociedade, sendo a elas negados direitos básicos. “Em uma sociedade ainda pautada no machismo e na invisibilidade da mulher, as lésbicas e bissexuais realmente ficam alijadas de todo e qualquer direcionamento de uma política pública específica voltada para a prevenção”, diz Marcelle Esteves.

Além da sociedade, tomada de modo geral, esse mesmo problema apresenta-se em espaços onde as pautas das mulheres lésbicas e bissexuais deveriam ser de grande relevância, como, por exemplo, dentro do próprio movimento LGBT. Segundo Jussara Oliveira, nem mesmo esses movimentos estão livres da predominância do pensamento machista. “O machismo é um problema estrutural, que não deixa de se apresentar dentro do movimento LGBT. A falta de representatividade e ascensão política deixa nós, mulheres, vulneráveis a decisões de homens [cis] que dificilmente vão priorizar nossas demandas. Por isso é importante que mulheres lésbicas e bissexuais se organizem independente dos grupos que dizem abranger demandas de toda a comunidade LGBT”, pondera.

É preciso lembrar, também, que a falta de incentivo à pesquisa, produção e distribuição de métodos de prevenção específicos para mulheres lésbicas e bissexuais interfere no direito desses indivíduos ao controle e cuidado da própria saúde. São milhares de corpos excluídos, cujas vozes tem sido constantemente silenciadas.

Se uma parcela da população pode se valer dos frutos da revolução sexual, outra parte pergunta-se: revolução para quem?

*A palavra “mulher” foi usada nesse texto referindo-se a pessoas cisgênero. Porém, não com o objetivo de silenciar a população trans ou ignorar suas lutas nessa mesma questão da prevenção sexual, que são incontestáveis e necessárias.


Lia Bianchini

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