Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

A palavra como forma de opressão

Para quem a conhece, a palavra passa despercebida, é instrumento, forma e conteúdo. No entanto, para aquele que não teve a mesma oportunidade, é um desafio diário. Como modificar a relação do brasileiro com a palavra? Por onde começar?


[...]meti-me na soletração, guiado por Mocinha. [...]Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta, elas se reuniam, formavam sentenças graves, atravessadas, que me atordoavam.[...]Eu não lia direito, mas, arfando penosamente, conseguia mastigar conceitos sisudos: “A preguiça é a chave da pobreza – Quem não ouve conselhos raras vezes acerta- Fala pouco e ter-te-ão por alguém.”

Esse Terteão, para mim, era um homem, e não pude saber que fazia ele na carta.[...]

-Mocinha, quem é Terteão?

Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão era homem. Talvez fosse.[...]

-Mocinha, que quer dizer isso?

Ela me confessou honestamente que não conhecia Terteão. E eu fiquei triste, remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas decepções.

O trecho acima faz parte de uma das obras mais viscerais do escritor Graciliano Ramos: Infância, publicado em 1945; no entanto, o mesmo trecho poderia compor algum relato real de criança em pleno ano de 2014, sem maiores modificações. Terteão é um sujeito histórico, metódico e catedrático, mas que ainda é um dos grandes adversários em nossa educação escolar, sintomaticamente.

Infância é um livro de formação. Escrito em primeira pessoa e de forma extremamente sensível, conta as desventuras de um menino (possivelmente o próprio Graciliano) a partir das memórias do narrador. O livro trata de diversos episódios distintos em diversos momentos e lugares, mas com um ponto em comum: a palavra. É ela quem fomenta curiosidade, define o lugar-comum, marca a vida do personagem principal. Mesmo assim, ao chegar à escola, o meio como o “Mundo Letrado formal” se mostra ao menino acaba limitando suas perspectivas, como se nota no episódio acima transcrito.

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O escritor alagoano Graciliano Ramos

Quando pequenos, os seres humanos tem uma capacidade, única em sua vida, para aprender idiomas rapidamente, isso sem sequer pensar que há uma gramática como base em cada um deles. O meio em que vivemos oferece estímulos para que aprendamos esta ou aquela língua, desta ou daquela forma. A princípio, isso ocorre de maneira harmoniosa e até inconsciente; no entanto, à medida que crescemos, começam entraves inevitáveis: correção de pronúncia, problemas com silogismos e afins; mas este é um momento necessário e construtivo, desde que não seja constituído com arbitrariedade. De todo modo, é a língua a primeira forma de opressão pela qual passamos na vida, portanto.

Depois do contato incipiente, da familiarização de vocabulário básico e das primeiras articulações de frases, vem a escola a ensinar que o idioma não é feito para ser maleável. A escrita, a pronúncia, a caligrafia, mais vocabulário, a ortografia, a redação, a morfologia, a gramática, a estilística...enfim, edificam-se dois idiomas ao longo de mais de 14 anos de aulas de português: o da vida e o da escola. Este é um problema estrutural da nossa educação, muito mais grave do que aparenta, e que recentemente voltou à pauta dos grandes meios de informação. Seria ele indissolúvel? Em quais circunstâncias ele existe?

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Professor Pasquale: o estigma do "falar correto"

De autoria de Heloísa Ramos, o livro Por Uma Vida Melhor foi adotado pelo MEC como material didático do EJA (ensino de jovens e adultos). Neste livro, a autora apresenta uma posição vanguardista em relação à dicotomia português-da-escola e português-do-cotidiano ao defender que não é necessário falar a norma “culta” em todas as circunstâncias da vida, senão naquelas em que isto é exigido, como em textos acadêmicos ou meios formais. O livro e, mais ainda, a posição favorável do MEC causou celeuma, despertou posições apaixonadas e irresponsáveis por parte de jornalistas (como Carlos Alberto Sardenberg e Dora Kramer) e fomentou disputas políticas que pouco teriam a acrescentar na questão. Não é tão difícil discernir que há uma diferença entre evitar o preconceito linguístico com a eliminação de barreiras do idioma e não ensinar mais gramática na escola, como se afirmou de forma suspeita.

Sintomaticamente, o livro Por Uma Vida Melhor tem respaldo quase unânime entre gramáticos não “puristas” e linguistas brasileiros; na verdade, além disso, pois o livro de Heloísa Ramos é só parte de um grande trabalho feito por linguistas como Ataliba de Castilho, Maria José Foltran e José Luiz Fiorin para desmarginalizar o português do dia-a-dia. Toda a variedade interna do idioma começa a ser estudada e não é mais considerada “certa” ou “errada”, pois a língua cumpre sua função quando comunica o que pretende. Além disso, a língua transforma-se de acordo com seu uso; desta forma, dizer que “Nós pega o peixe” ou que a pratica de “gerundismos” sejam distorções no Português é afirmar que as normas sempre existiram, e mais, que sempre existiu a língua da mesma forma. O latim prova o contrário.

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Heloísa Ramos, autora de Por Uma Vida Melhor

A polêmica envolvendo o livro didático é só um exemplo de como a opressão pela palavra permanece e ganha novos contornos depois da infância. O analfabeto não tem acesso a serviços mínimos e é socialmente excluído; o aluno que não aprendeu a utilizar a gramática dificilmente consegue acesso a universidades de qualidade: uma má formação no entendimento do idioma acarreta diversas e, praticamente, irreversíveis dificuldades. Para um estudante com as possibilidades de seu idioma mal resolvidas, a opressão relacionada à língua cresce gradativamente.

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José Luiz Fiorin, um dos maiores linguistas brasileiros

A forma como a língua é ensinada não ajuda a incluir mais pessoas socialmente, no entanto. A Língua Portuguesa das escolas é o idioma dos catedráticos, dos livros clássicos, dos puristas, ensinada de forma jesuítica. Não é de se espantar que, ao notar uma disparidade indissolúvel entre o idioma ensinado e o idioma falado, o aluno se desinteresse por aquela que é uma língua que ele não entende como ou quando utilizar. Na vida, a gramática fará falta ao estudante; na escola, a vida faz falta dentro da sala de aula.

(Certas questões tornam-se inevitáveis: Por que, afinal, ensina-se, ou melhor, prescreve-se apenas a forma culta do idioma? O objetivo de se ensinar português na escola é apenas formar fazedores de provas ou potenciais funcionários? Uma pessoa que tem o idioma como aliado não seria um cidadão muito mais presente? Um grande número de pessoas conscientes seria algo interessante para todas as instituições?).

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O linguista e gramático Ataliba de Castilho

Mas esta situação claramente não é irreversível. Apesar de passar por muitos meandros como a falta de motivação de professores (por motivos evidentes), a falta de interesse em uma reforma educacional (ABL e o ex-ministro da Educação Cristovam Buarque se manifestaram contra o livro Por Uma Vida Melhor, por exemplo) e o sucateamento da estrutura pública; há uma certa esperança neste momento. O trabalho dos linguistas brasileiros é notável e só tende a crescer com publicações como a primeira gramática de português brasileiro, de Ataliba de Castilho. Além disso, o número de jovens que se mostram interessados e dispostos a revigorar o sistema educacional brasileiro só tem crescido, seja participando ativamente, seja a par da situação e acrescentando ao debate e às manifestações acerca.

Em Infância, o livro de Graciliano Ramos, o menino que antes sofria para entender suas leituras se torna um leitor voraz e, em seguida, um escritor apaixonado. Batalhemos, pois, para que haja outros finais como este, mas desta vez perante os nossos olhos e ao alcance de nossas palavras.


Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia.
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