Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

Os Clássicos, hoje.

Em nosso tempo voraz, que demanda inventividade e criação constantes, haverá lugar ainda para os livros clássicos? O que significa hoje ler um clássico, afinal?


Nosso período é de desconstrução constante, contínua e até, por vezes, irresponsável de certas tradições que perduraram por anos na arte. O contexto, hoje, é complexo: a busca pela vanguarda parece resultar ineficaz, mas persiste, ao passo que pensar em uma volta às Escolas é visto como abominável e anacrônico. Em um momento onde tudo na arte parece confluir para a representação tecnológica do mundo e para o predomínio da representação da vida cotidiana, haverá lugar para os livros clássicos, com suas realidades distantes e seus temas hoje pouco prováveis?

Neste texto, com base no ensaio Por que ler os Clássicos? de Ítalo Calvino, escritor ítalo-cubano, será discutida a posição do livro clássico na atualidade dentro de diversas, mas não todas, é claro, perspectivas.

calvino.jpg

O escritor Ítalo Calvino

Muito brevemente, o que são os clássicos?

Clássicos são livros sempre lidos. E livros que, ao serem lidos, se justificam imediatamente como clássicos.

Um clássico pode se formar pela qualidade, pelo vanguardismo, pela posição histórica ou pelo reconhecimento da análise literária. Ou por nada disso: a priori, um clássico se forma no momento em que é lido, seja pela primeira ou pela quinta vez. Ele é, portanto, um livro cujo conteúdo é infindável, pois representa diversas respostas, enquanto engendra diversas perguntas ao mesmo tempo.

Além disso, um clássico carrega em si todas suas leituras anteriores, com teorias, ensaios e críticas sobre seu conteúdo. Contudo, é uma capacidade do clássico desvencilhar-se sempre daquilo que foi dito sobre si, ser sempre novo e rico por si só. Quando te dizem que um livro é um clássico e este livro não ecoa em nada para você ao lê-lo, tenha certeza de que as abordagens de ensaios sobre tal livro têm prevalecido à leitura da própria obra: a leitura consciente precede a análise crítica.

Em suma, o clássico é uma obra emblemática, atemporal e sempre novíssima: tem a capacidade de ser um universo-em-si.

Por que ler um clássico, afinal?

1- Perspectiva da História

Certamente você já ouviu a frase “conhecer o passado para entender o presente” à discussão do porquê de se estudar história ou solucionar questões mal resolvidas do passado. Em literatura, o mesmo é válido.
A literatura apresenta uma perspectiva histórica privilegiada em relação às outras ciências humanas: a possibilidade de se ter a fotografia de um tempo passado pelos olhos de um homem comum, de alguém que está no seio dos acontecimentos e que consegue, a partir deles, transformar fato em conteúdo e forma; não se tem uma constatação de acontecimentos passados, mas a própria visão de mundo e as formas como tais fatos se refletiam na vida.

homero.jpg

Busto a guisa de Homero

Um exemplo usual é o das obras de Homero (com o entrave de não se saber ao certo quem foi seu autor ou quando foi feita sua obra exatamente). Odisseia é uma verdadeira obra sobre costumes gregos, além de todo o aspecto mitológico que também representa. Aborda hábitos como o da hospitalidade, aos olhos do visitante e do anfitrião, e a forma de relação entre os tipos humanos no período; aborda também aspectos sobre festividades e o papel da própria poesia na época: é, pois, uma fotografia que tem aspectos que vão além do que se conceberia em um registro histórico factual.

Assim sendo, um clássico pode representar um complemento ou uma fonte inegável à própria História, em sua ciência, com as devidas ressalvas. Àqueles que pretendem analisar certo período histórico, a arte, e não só a literatura, já se mostrou capaz de dizer muita coisa, dentro da história de um povo, de um período ou da própria genealogia criativa.

Em outro ponto, a leitura de livros que, aos olhos da crítica de seu período, foram considerados inferiores ou fora de certos padrões estéticos da época pode gerar surpresas e “criar” clássicos de senso comum: seria isso a correção de injustiças históricas ao nível literário. Um exemplo recente é o de Sousândrade, colocado em notas de rodapé por nomes como Silvio Romero e Antonio Candido, mas redescoberto pelos poetas concretos: sua inventividade transcendia, em muito, características românticas e o fez ser relegado a um segundo plano por mais de cem anos. Ao lume, contudo, seu brilho pode reverberar.

sousa.JPG

O poeta maranhense Sousandrade

2- Perspectiva da construção literária

Ao vivermos sempre em certo meio, é normal que pensemos que as coisas naturalmente se colocaram nas suas posições e formas atuais. Ler os clássicos significa provar por si próprio que não.

Nem sempre houve o verso livre, nem sempre se falou de temas profanos, nem sempre se retratou o mundo sem maiores pretensões: ler um livro clássico é atestar a qualidade de escritores por seus méritos e mentes com grande capacidade criativa; é saber “quem é quem” na história da literatura e conseguir traçar, desta forma, os caminhos trilhados por esta arte até os dias atuais.

Assim sendo, ler um livro que guarda marcas próprias (como vocabulário, visão de mundo e sintaxe) é entender o porquê de terem sido feitas certas escolhas em algum momento no tempo e, assim, penetrá-las mais a fundo: entender é usar, conhecer é saber. O contraste entre o tempo presente o passado guia a leitura dos clássicos, naturalmente, e é por ela que vemos o desenvolvimento e queda de certos tipos de escrita e escolhas literárias.

Além disso, para aqueles que pretendem criar obras, os livros clássicos podem servir de grande ajuda, fazendo com que a própria pessoa situe sua criação na genealogia literária. O que isso significa? Poder mostrar que sua produção é inovadora ou que avança no sentido do desenvolvimento de uma tradição iniciada há séculos, ou até, precedendo a própria produção, poder fazer com que se realize a escrita nesta intenção e conscientemente.

Se fosse necessário reduzir a leitura dos clássicos a uma palavra nesta seção, ela seria: construção.

joyce_2464804b.jpg

James Joyce, autor de Ulysses

3- Perspectiva da desconstrução e reconstrução literárias

Falar em métrica assume hoje, para certos poetas, um absurdo, um anacronismo imperdoável. Celebra-se então a poesia como uma festa desregrada, e o verso livre e sem rimas como um salto irreversível na história desta arte. E isso apenas ao plano da poesia, pois há na prosa características igualmente abominadas. Quando se convencionou, afinal, que o passado serve apenas para ser esquecido?

A verdade é que o pós-modernismo, em suas poucas ou múltiplas possibilidades, é a fase da desconstrução total; mas mesmo que um artista assuma seu ideal como sendo apenas o de desconstruir, é necessário que ele saiba o que está desconstruindo. Para que retirem tijolos de um muro, é necessário que o muro...exista! Para que se difame a métrica, é necessário que se saiba o que significa contar pés poéticos e o porquê disso; e então, se saberá, por conseguinte, o que quer dizer não fazê-lo.

Ao limite disso, o trabalho de James Joyce é um exemplo perfeito (como em Finnegans Wake, mas principalmente em Ulysses, duas obras que contribuíram muito para o que hoje se considera “moderno”). Joyce mergulhou profundamente na obra de Homero para que pudesse desconstruí-la com propriedade, apropriando-se, seja em significado, seja esteticamente, daquilo que convinha à concepção de seu Ulysses. Um microcosmo ideal para este porquê de se ler os clássicos.

Aspectos utilizados classicamente podem ser amplamente adaptados em realidades contemporâneas, entre o estético, o sentido e o significado. Assim como um autor tem liberdade para desconstruir, tem ele liberdade para reconstruir, a partir daquilo que julgar necessário à sua obra. O livro clássico tem a característica de ser adaptável a todo contexto.

Por fim, é bom que seja dito: Quando alguém disser que “a métrica é coisa do passado”, por exemplo, convém pensar no porquê de se fazer literatura. Cada livro tem a função de reinventar sua arte desde o princípio?

Décio Pignatari 10.jpg

O poeta Décio Pignatari, assim como todos os concretos, via a leitura construtiva dos clássicos

4- Perspectiva da visão de mundo

É notório que uma obra de arte, principalmente literária, para que tenha ampla aceitação, deve flertar com os temas do tempo presente ou dizer algo que faça sentido contemporaneamente. Isso não significa, porém, dizer as coisas da forma como são pensadas no dia-a-dia. Na verdade, é exatamente o oposto: uma grande obra de arte é aquela que, consensualmente, ignora o lugar-comum. É aí que entram os clássicos.

A realidade de certo tempo engendra uma concepção; as realidades mudam, de forma que as concepções acompanham este fluxo. Ler um clássico é, pois, alcançar uma visão de mundo diferente, ainda que sobre um mesmo objeto. Hoje vemos que nosso tempo e vida urbana, com todo seu pragmatismo, tendem a nos conduzir a uma visão imediatista e cotidianesca das coisas; ao ler um clássico, no entanto, podemos ter contato com muitos outros pontos de vista sobre a própria vida: do ontológico ao puramente religioso, nunca em termos amplamente expressos. E esse ponto de vista, em um clássico, pode ser plenamente adaptado a uma realidade posterior, como a nossa: aí está sua qualidade, em sua infinita capacidade de reflexão.

O âmago deste ponto, por exemplo, passa por encarar o mundo com os olhos de alguém que carrega uma ingenuidade que, para nós, é irrecuperável em certos aspectos: certas experiências históricas levaram o homem moderno a muitos tipos de ceticismo, sendo que certos pontos de vista só podem ser concebidos ao lume daqueles que lidavam com naturalidade com algo que hoje inexiste.

Em outro lado, vemos que o clássico é plurianalizável: um livro que lidou plenamente com os temas de seu tempo ou outro que quis dar um salto estético e temático têm o mesmo valor para nós, hoje. Assim, se uma obra tentou transgredir os padrões de seu tempo, temos contato com o extremo daquilo que significava “transgredir” naquele período; diferentemente de uma obra que visava seguir a tradição, que era a representação fiel de algo presente. Ambas, contudo, são mapas inestimáveis.

Por fim nota-se que, em um clássico, o que se vê em termos da visão de mundo é sua reverberação incessante e que, até que o lêssemos, passava despercebida. É neste instante, então, que percebemos como foi que a cultura se estruturou ao redor e sobre grandes obras pontuais: nenhum clássico recebe esta alcunha à toa.

italo.jpg

Novamente, o autor de Por que ler os Clássicos?

5- Perspectiva do porque sim.

Por que ler um clássico? Porque ler é bom, e porque clássicos são livros bons consagrados por bons leitores. E isso basta àquele que deseja apenas e por gosto conhecer algo.

Encerro este texto com a belíssima frase do poeta Caio Nunes sobre os clássicos antigos:

Por que não ler um espelho do humano que já é velho o bastante para ser considerado puro?

A pergunta torna-se, então: por que não ler um clássico, afinal?


Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Vitor