Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

Sousândrade 150 anos depois

Uma homenagem a um dos maiores poetas de todos os tempos.


O sol fendeu-me o dorso, como açoite/ Da Providência, e amei p’ra sempre o sol

“Carrega certo preciosismo, geralmente do pior efeito, com um pendor para termos difíceis que roça o mau gosto”. Desta forma definiu a poesia de Sousândrade o crítico literário mais notório do Brasil, Antonio Candido, em seu livro Formação da Literatura Brasileira, de meados de 1950. Aproximando-o da 2ª Geração do Romantismo brasileiro, porém colocando-o no subcapítulo “Os Menores”, Candido fez uma única ressalva acerca do autor das Harpas Selvagens, inspirada no também crítico Silvio Romero: “Decerto o mais inventivo destes poetas”.

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Sousândrade pode, enfim, ter seu lugar entre os grandes nomes de sua arte na história

Joaquim de Sousa Andrade nasceu no Maranhão, em 1832, e teve uma vida lotada de inquietudes: entre estudos na França, viagens pela América equatorial e América do Norte, o abandono pela esposa e pela filha e sua morte, foram anos de incompreensão artística e poética, que pareciam ter fadado a poesia do maranhense a uma procura infindável e, por fim, ao fracasso total. As leituras da obra do poeta em sua época eram carregadas de espanto e estranhamento, a começar já por seu nome artístico: Sousândrade, nome esdrúxulo e de pronúncia rara e pesada. Este estranhamento, seja na crítica ou no leitor comum, levava a avaliação do poeta ao lugar-comum da ininteligibilidade, que perdurou por anos sem se alterar.

Sousândrade é autor de três grandes poemas (além de Harpas de Ouro, posteriormente descoberto): Harpas Selvagens, O Guesa e Novo Éden. O primeiro apresenta um momento de apogeu do Romantismo brasileiro, e veio antes até das publicações de Casimiro de Abreu; os dois últimos transcendem qualquer rótulo que se possa dar, seja pela linguagem, seja pela estética, seja pela temática: sua poesia localiza-se entre o Romantismo, o Simbolismo e até o Modernismo. Considerando que Sousândrade morreu em 1902, é possível notar o grau de inventividade do seu produto poético.

Uma das provas da consciência do poeta acerca de sua condição “marginal” (muito distante do sentido que este termo tem hoje, mas talvez o parindo) está expressa justamente em seu maior poema, qualitativa e quantitativamente: O Guesa, que mostra a trajetória de um condenado ao flagelo (segundo uma lenda inca retirada de Humboldt) ao redor das Américas, sendo este a personificação do próprio autor, por lógica associação. Na introdução de um de seus cantos (edição de 1877), vê-se que, de fato, o poeta tinha lucidez sobre o cenário das artes em seu período, e sabia o que isso implicaria a ele:

Ouvi dizer já por duas vezes que ‘o Guesa Errante será lido cinquenta anos depois’. – Entristeci. Decepção de quem escreve cinquenta anos antes.

Sousândrade, de fato, morreu no ostracismo. Sua obra, contudo, ao lume do olhar moderno, demonstra uma força e um grau de novidade poucas vezes vistos na literatura mundial, antecipando a linha simbólica da independência da nossa poesia para meados de 1870. Este cenário, contudo, de junção da crítica aberta à poesia do maranhense, levou quase um século para ficar pronto, sobretudo graças aos esforços dos irmãos Campos.

E na obra, pois, nos deteremos doravante, principalmente no imenso poema O Guesa.

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O explorador Alexander von Humboldt, que relatou o mito do Guesa

O Guesa Errante

Dividido em XIII cantos, mas inacabado, O Guesa foi durante 20 anos e apresenta a fase mais inventivo-apoteótica do poeta oitocentista, seja em suas temáticas, seja na sua forma. Nesta imensa obra se fundem fatores épicos, líricos e dramáticos em busca da melhor expressão do tema.

Como já dito, trata-se de um poema que retrata a viagem transamericana desta figura descrita por pelo explorador alemão Humboldt como “o Guesa “: um homem da tribo muísca (vertente dos incas) que era arrancado da casa paterna ainda jovem e condenado a vagar por cinco anos, segundo a lenda, até que, aos quinze, retornaria à sua aldeia natal para ser imolado em praça pública numa festa imensa; desta forma a aldeia poderia ter prosperidade por mais 185 luas, quando se elegeria um novo Guesa ao termo.

Sousândrade, pois, na lenda descrita parece ter encontrado a metáfora ideal para sua própria história: basta ver como as viagens traçadas no poema refletem as viagens reais feitas pelo poeta, que conheceu diversas tribos indígenas e morou nos EUA, por exemplo; ou como o maranhense passou toda sua vida como um legítimo condenado ao flagelo, sempre subentendido e a vagar. Neste caso, pode-se notar, são indissociáveis vida e obra.

O personagem de Sousândrade parte da Colômbia, seguindo rumo à Patagônia e, depois, indo até os Estados Unidos. Há ainda um canto incompleto onde se esboçou uma escala na África. Nota-se sobre esta diversidade de espaços sua utilização primorosa pelo poeta: as paisagens são destrinchadas, as pessoas são caracterizadas, as lendas são expostas, o vocabulário é alterado a depender do contexto. Não há, portanto, uma gratuidade em absolutamente nada neste imenso poema, o que evidencia sua inestimável qualidade.

Sob o pano da viagem, a obra ainda flerta com diversos outros temas, sobretudo com críticas às mais provincianas forças que atuavam no Brasil, demonstrando a insatisfação do maranhense com o país: diversas críticas ao escravismo, à exploração dos indígenas, ao catolicismo colonizador, à monarquia, ao capitalismo voraz, aos poetas de salão que formavam “o coro dos contentes”, e, sobretudo, a Dom Pedro II permeiam o Guesa. Este último, inclusive, é referido, por vezes, como “tatu”, assim como toda a nobreza:

Compra-tit’lo azeiteiro/ Conde-acende tatu:/ Todos ‘stão com inveja/ Da vieja/ Luiza-C’reca-Fi-Fu!
(O Guesa, Canto II, estrofe 34)

Neste trecho, uma clara crítica àqueles que compravam títulos de nobreza, “conde-a(s)cendendo” desta forma. Já nota-se neste pequeno excerto a linguagem inacreditavelmente inventiva do poeta, principalmente se comparado aos Românticos de seu período.

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Haroldo e Augusto de Campos: Revisão de um processo de olvido

O Tatuturema e o Inferno de Wall Street

A linguagem mais inventiva e coloquial, contudo, não é o tom predominante no poema, mas aparece sobretudo nos trechos denominados O Tatuturema (canto II) e O Inferno de Wall Street (Canto X), nos quais nos deteremos. Não se pode falar em oscilação, no entanto: nada mais natural que, cercado pelo cânone Romântico, esta linguagem fosse a base de trabalho não só de Sousândrade, mas de qualquer poeta do período. O maranhense, contudo, foi o único a conseguir alterar sua dicção quando julgou mais oportuno. Assim, há momentos onde se lê:

Como é doce ao luar a nossa amante/ Que entre outras vem, que passam e vão rindo!/ Ouve-se o som da voz, aura fragrante/ Da flor das laranjeiras desparzindo
.
(Canto VII – excertos)

Mas em outros se encontra:

-Que indefeso caia o estrangeiro,/
Que a usura não paga, o pagão!/
= Orelha ursos tragam,/
Se afagam,/
Mammumma, mammumma, Mammão

(Canto X – estrofe 176)

Mas mesmo o mais Romântico em Sousândrade é destacável, pois os jogos de rima e som encontraram raros mestres de tanta destreza na nossa poesia. Hoje, inclusive, há ensaios apenas acerca da sonoridade n’O Guesa, assim como outros só sobre seus neologismos.

Os dois cantos aos quais já nos referimos aqui (II e X) apresentam uma espécie de apogeu estético do Guesa, por isso merecem mais atenção nesta brevíssima introdução. Que se veja o porquê.

O canto II, também chamado de Tatuturema, refere-se a uma festa inimaginável envolvendo indígenas, religiosos, nobres, poetas e outras personalidades, como até mesmo Pátroclo, da Ilíada de Homero. Uma espécie de ritual indígena, pois, mas que neste caso ganha um evidente caráter satírico com estes personagens envolvidos. Para caracterizar esta orgia, o poeta faz uso das mais diversas ferramentas: encurta o verso, acelera o ritmo, utiliza o tom irônico, encurta as estrofes, modifica o vocabulário, faz uso de mais rimas. Assim, pode-se ver, por exemplo:

(Vates sumos)/ -Há-de o mundo curvar-se/ Ante a trina razão:/ Sol dos Incas pras palmas/ Pras almas/ Jesus-Cristo e Platão.
(Tatuturema, estrofe 75)

Já no canto X, O Inferno de Wall Street, a sátira ganha outros contornos. O Guesa chega aos Estados Unidos e desce ao seu mais eminente inferno: a bolsa de valores. Neste cenário há a possibilidade de encontro das mais diversas figuras históricas (o uso de um glossário é imprescindível em obra tão complexa) em uma farândola de acusações, crimes, absolvições e críticas. Novas pedras são atiradas sutilmente ao governo de Dom Pedro II neste canto. Desta forma, por exemplo:

-Agora o Brasil é república;/
O Trono no Hevilius caiu.../
But we picked it up!/
-Em farrapo/
‘Bandeira Estrelada’ se viu.

Explícito republicano, Sousândrade ironiza Dom Pedro II em um episódio ocorrido no navio Hevilius, que levava o imperador aos Estados Unidos: certo dia durante a viagem, o líder brasileiro caiu pateticamente de sua cadeira. O poeta maranhense não perdeu a deixa para associar esta queda a uma real “queda do trono”, ou seja, a República. Vale notar a mistura de idiomas nesta estrofe, algo raríssimo para a época, mas recorrente em Sousândrade.

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Edição londrina d'O Guesa

Por que ler Sousândrade hoje?

Uma grande obra, ao ser lida, explica-se por si só no prazer que gera ao seu leitor. É o caso da obra deste poeta oitocentista. No entanto, há sempre algo a mais a se destacar.

O nosso olhar leitor-moderno tem uma dívida histórica com Sousândrade, e somente ele pode enfim destrinchar todos os méritos do poeta, consagrando-o como um dos maiores mestres de sua arte na história, sem ressalva alguma. Na obra do maranhense, por exemplo, há aspectos que só foram postos em pauta nas vanguardas do século XX:

- O equilíbrio em forma e conteúdo críticos/revolucionários, sempre postos como essenciais para Maiakóvski.

- O diálogo entre diversas línguas e tradições buscado por Ezra Pound ao longo dos seus Os Cantos, juntamente com o estilo “ideogrâmico” e sintético de poesia.
- Um envolvimento dialético entre tradição e último-presente digno da poesia concreta dos anos 50. Este diálogo também ocorre no âmbito centro-periferia que, no século XX, foi essencial para o surgimento da vanguarda no Brasil.

- A presença da América espanhola em uma obra nacional. Ou, ainda, uma obra que vê a América como um todo, assim como o Canto General de Pablo Neruda consagrou.

-O aparecimento do índio não como idealizado herói-cavaleiro, mas como ser real e ameaçado por pressões sociais, religiosas e econômicas. A própria história do Brasil.

- Em alguns momentos, a persona do Guesa é caracterizada como um anti-herói, como alguém que age independentemente de certo “caráter” bom. Este representação só aparece em Mário de Andrade no seu Macunaíma posteriormente.

Além de todo este valor estético e poético, O Guesa também apresenta um panorama muito amplo sobre as condições políticas do seu período, em relação ao Brasil e ao mundo desenvolvido. Aliás, este panorama sobre o mundo desenvolvido é gerado a partir de uma perspectiva oriunda do nosso subdesenvolvimento, algo raríssimo de ser encontrado neste período.

Sempre se deve ressaltar que suas obras têm um valor em-si e um valor extratextual, sendo que um amplifica e completa o outro: basta pensar que o Brasil onde vivia o poeta e os cânones em voga no seu período em nada favoreciam o nascimento de uma inventividade como esta.

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Da visita de Dom Pedro II aos Estados Unidos em 1876


Em suma,

Um dos grandes legados da obra de Sousândrade, sem dúvidas, é uma prova do que significa afinal ser moderno. Em um tempo onde parece não haver saídas e onde a vanguarda soa impossível, o poeta oitocentista nos mostra que a modernidade vai muito além de versos livres, frases impudicas e linguagem coloquial, como querem nos empurrar hoje. Ser moderno é usar com destreza as ferramentas que o presente nos entrega em prol de um sentindo, fugindo do lugar-comum, do convencionalismo. Ser moderno é, sobretudo, sempre buscar ser autêntico,ainda que isso cause o pouco entendimento e o ostracismo: à obra visionária, apenas o futuro dá respostas. Sousândrade edificou o moderno usando o metro e a rima: mais nada sobra ao atual mas eterno coro-dos-contentes que quer delimitar a forma da modernidade.


Música de Caetano Veloso baseada em verso de Sousândrade.

Talvez Antonio Candido tivesse razão em colocar Sousândrade como um Romântico menor: felizmente o era, afinal raramente se via a obra do maranhense neste lugar-comum. A obra do poeta sempre esteve além, muito além disso, seja rumo à ontologia ou ao sentido íntimo de seu tempo e dos tempos futuros.

E de 1850 vêm algumas das imagens mais lúcidas da modernidade, há de se reverenciar:

(General Grant e Dom Pedro:)/
- ‘É causa o esférico da terra,/
De o mais alto cada um se crer’;/
Quem liberaliza,/
Escraviza.../
=Regicidas reis querem ser.

(Este artigo não significa absolutamente nada perto da leitura de estudos mais apurados ou, principalmente, da própria obra do poeta: imprescindível, é sempre bom lembrar)

-Imagens e vídeo compartilhados publicamente na internet


Vitor

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