Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

Quase duas questões sobre ver uma obra

Duas, ou quase duas, obviedades sobre analisar e entender uma obra de arte.


(Este texto não diz respeito a questões de gênero ou política, sequer se aproxima disso. Caso se aproximasse de algo nesse sentido, é bem sabido, seria ilegítimo e completamente tolo. O assunto deste texto é outro, sem suceder às dicotomias que regem contemporâneas visões de mundo.)


michelangelo.jpg

Quase tudo o que temos certeza sobre Michelangelo.

1- A conduta e opiniões pessoais de um artista devem reger a aceitação de sua obra?

Recentemente, e reincidentemente, vi elencados em diversos meios e por meio de diversas pessoas uma lista com artistas que poderiam ser considerados machistas ou que já teriam passagens comprovadas de misoginia e afins. Até então, nada mais legítimo: o machismo e a opressão contra a mulher são pontos sobre os quais se sustentou a civilização ocidental durante centenas de anos; hoje, no entanto, ao termos consciência do que significam estes pontos e de suas implicações sociais, toda a tentativa de combate e repressão a tais práticas mostra-se válida e deve ser disseminada. O problema destas listas que vi é o que as encerra, portanto: um aconselhamento ao completo abandono da obra de tais pessoas.

Nos séculos XVIII e XIX, sobretudo, boa parte da crítica de arte buscava na vida dos autores explicações para os sentidos de suas obras e para seus motivos. Antonio Candido, em introdução ao seu Formação da Literatura Brasileira, já delineia o quão desmesurado isso soa em arte:

“Houve um tempo em que o crítico cedeu lugar ao sociólogo, ao político, ao médico, ao psicanalista.” sendo isso algo que “compromete sua autonomia (a da crítica) e tende, no limite, a destruí-la”.

Assim, afirma Antonio Candido, a consideração de aspectos que dizem respeito àquilo que é estritamente não-arte como fatores determinantes à análise de uma obra é algo que simplesmente acaba com o sentido artístico da análise: é política, talvez. Se for, contudo, cumpre seu papel. Mas qual seria o interesse em elencar artistas apenas para difamar sua obra tendo como base...algo que não é a obra? O inverso mostra como esta relação tem pouco sentido: basta pensar em alguém que considera como inimigo mortal um pintor que não lhe agrada.

candido.jpg

O crítico Antonio Candido.

Outro nome do peso de Theodor Adorno, em sua Palestra sobre Lírica e Sociedade afirmou que:

“a interpretação da lírica, como aliás de todas as obras de arte, não pode portanto ter em mira, sem mediação, a assim chamada posição social ou a inserção social dos interesses das obras e de seus autores. Tem de estabelecer como o todo de uma sociedade, tomada como unidade em si mesma contraditória, aparece na obra de arte”. E ainda: “conceitos sociais não devem ser trazidos de fora às composições líricas, mas sim devem surgir da rigorosa intuição delas mesmas.”

Ou seja, não está em jogo, quando se fala em arte, o autor da obra e seus interesses pessoais, mas como a sociedade (com todos os seus dilemas) surge na obra, implícita ou explicitamente. E, vale repetir: na obra. Desta forma, é absolutamente legítimo buscar na obra aspectos que tendam à apologia ao racismo ou preconceito e, a partir disso, deslegitimar o objeto artístico para uma concepção atual: é um movimento inverso e, sem dúvidas, hoje em dia, necessário para que não se propaguem valores retrógrados. Tão retrógrados quando não dissociar arte e vida do autor.

Traçar um paralelo entre a obra de um autor e seu tempo pode ser necessário para um entendimento superior ou mais completo, como ocorre, por exemplo, em A Rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade; e este salto para uma dimensão mais pessoal é feito sem abrir mão de seu objeto; antes, é feito pondo o objeto artístico como fruto de observação e análise que se pretendem mais acuradas e profundas.

Continuando nesta linha de raciocínio, pode-se dizer que o fato de um artista ter uma obra que tem um sentido misógino (atenhamo-nos às tais listas que motivaram este texto, à guisa de exemplo) também não pode interferir na análise de outras obras deste mesmo autor, se quisermos nos ater a valores artísticos que engendram visões políticas e sociais. Cada obra é um organismo-em-si.

masculin feminin.jpg

Jean-Pierre Léaud e Chantal Goyá em Masculino Feminino, de Jean-Luc Godard.

Por exemplo, pode-se ver (como eu consigo observar em muitas pessoas que conheço) que é possível gostar da obra de Jean-Luc Godard e, paralelamente, repugnar um filme como Masculino e Feminino, que tem certo teor misógino para muitos. O fato deste filme depreciar de alguma forma a mulher, segundo certas análises, não anula o caráter crítico de um outro filme como A Chinesa; tampouco relativiza a beleza inquestionvel com que o diretor retrata o sexo feminino em Viver a Vida. Ou ainda, o fato Nabokov ter feito o que fez em Lolita não anula a preciosidade que é seu Curso de Literatura Russa, já que em nada uma obra remete à outra.

Por fim, nos lembremos que o poder da arte todos os dias se mostra a nós: hoje, ao ler Homero ou ver uma obra de Michelangelo, pensamos que a arte, quando lida com o mais profundo significado, consegue ultrapassar políticas, modas e eras. Consegue tornar eternos estes homens sobre os quais pouquíssimo sabemos ou poderemos saber. Minha dúvida é: será que uma informação sórdida que, eventualmente, surgisse em um empoeirado pergaminho teria o poder para anular a amplitude daquilo que se mostrou, por meio da arte, profundamente humano e belo?

Pra encerrar tal ponto, é válido lembrar: esta visão e estes argumentos não são aplicados aqui apenas para questões de gênero, mas para política e religião, como exemplos da amplitude de juízos deste tipo. Não se enquadra de forma nenhuma em uma crítica ao movimento feminista ou a qualquer outro, é válido ratificar.

viver a vida.jpg

Inesquecível Anna Karina em Viver a Vida.

- 1.8 - O objeto deve condicionar o olhar ou o olhar deve condicionar o objeto?

Recordei-me, ao escrever todas as obviedades anteriores, de um episódio que me ocorreu recentemente. Coincidentemente, diz respeito a uma opinião que é similar à anterior (o que pode gerar um mau entendimento, ao parecer que este texto é uma cruzada contra um grupo social específico, aliado ao próprio “grupo social” deste autor: não é nada disso, visivelmente) e que me desencadeou outra visão que, irrequieta, pediu para ser alinhada em palavra. Primeiro descrevo.

Certa feita, certa feira, fui com uma grande amiga a uma mostra de cinema japonês. Sinceramente não me recordo dos pormenores desta efeméride, apenas que o filme era Pai e Filha do cineasta Yasujiru Ozu. Filme visto e olhos marejados, à saída noto em minha acompanhante uma grande fleuma, talvez até irritação: natural, pois o ritmo da obra é lento e a exibição apresentou grandes defeitos de imagem e som: os gostos distinguem, felizmente. Mesmo assim, insisto em perguntar as razões daquele sobrolho carregado; ela me responde algo como: não gostei do filme porque ele é machista.

Late Spring.jpg

Noriko, personagem de Setsuko Hara em Pai e Filha

De fato, Pai e Filha é um filme machista. Se tomarmos como base a concepção de machismo e misoginia que temos hoje e que temos em nossa sociedade. Se um filme como esse fosse feito hoje no Brasil, sua aceitação seria nula e assim justificadamente: em nada condiz com os valores que pregamos para uma melhoria social coletiva. No entanto, Pai e Filha é um filme japonês. E um filme japonês de 1949. O que isso significa?

A arte possibilita um contato muito mais profundo, visceral com outras culturas. Na arte, pode-se ver aquilo que os livros de história não conseguem dar conta: a forma como o social recai no sujeito e a forma como o sujeito refuta ou afirma ou anula aquilo que é social: o sujeito está no seio da vida pública e arte fala de lá de dentro. Ainda que, em certas obras, este fator seja dispensável para análise; em outros, como em nosso exemplo, é absolutamente relevante. A obra de arte não pode ser vista a-historicamente, pois uma visão como essas pode causar enormes equívocos de avaliação.

Ao se ver uma película como a de Ozu, por exemplo, é uma atitude segura pensar que o cineasta está falando do seio da sociedade japonesa, diametralmente oposta à nossa, sobretudo no começo do século XX. Os valores do filme são outros, o “correto” é um conceito absolutamente condicionável pela experiência social. Para nós, hoje, por exemplo, o casamento pode significar uma formalidade, talvez até um arcaísmo com a emancipação da mulher. Para Ozu, na época e no local onde atua, o casamento significa uma fundação social milenar e jamais caberia a nós desdenhá-la ou subjugá-la a nossos próprios valores. Ozu mostra a mulher como uma expressão de força e de responsabilidade, como uma das forças motrizes do Japão. A questão é, portanto, entender que ele lida com a sociedade de seu tempo a com as possibilidades que ela engendra.

ozu.jpg

Yasujiro Ozu: a mulher como heroína e as rupturas sociais suaves.

Este exemplo, de novo, poderia ser expandido para outras culturas, como a árabe ou a grega; e em outros recortes temporais, mas o sentido é um só: não se pode julgar a arte de um povo com os olhos de nossa própria cultura, caso contrário, perderemos tudo aquilo que é significado na obra em questão. É necessário que dispamos nossos olhos cotidianos para que apliquemos, ou tentemos aplicar, um outro, que não é nosso, mas que, por alguns instantes, serve para que tenhamos uma experiência única em outra cultura. Uma espécie de auto-anulação, de fato. Nosso juízo pode buscar na obra a sua relevância atual e contextualizada? Sim, sem dúvidas pode; mas deve, antes de tudo, buscar sua relevância histórica, e neste histórico, o social.

Notemos que lidar com o produto cultural de uma realidade diferente da nossa necessita de mãos-de-veludo e mente aberta. Tão aberta como a que usamos para notar nossas faltas, ausências e necessidades sociais cotidianas.

E que caiba o surgimento, no seio de cada povo, de sua própria revolução cultural ou de valores se assim for necessário, como ocorre, hoje em dia, inclusive, no Japão de Ozu.


Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Vitor
Site Meter