Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

Mário de Andrade desce aos Infernos

Quando um dos maiores artistas brasileiros se debruça sobre sua própria obra.


marioandrade-450x507.jpeg

O Prefácio Interessantíssimo (doravante Prefácio) abre Pauliceia Desvairada, primeiro grande livro de poemas de Mário de Andrade, que tem dedicatória datada de dezembro de 1921, quando o poeta tinha 28 anos. Tal livro representou um momento de apoteose lírica do autor que, há anos, procurava uma expressão estética adequada à bagagem conceitual que carregava e à realidade da província-metropolitana que era São Paulo. Para ele, já não cabia mais o parnasianismo ou o simbolismo ante o bonde lotado ou ante a vanguarda europeia, como se nota na auto-confissão da escritura de “um soneto de forma parnasianíssima” à obra da modernista Anita Malfatti, e toda a incoerência que isso guardava.

O Movimento Modernista (doravante O Movimento) é o penúltimo texto de Aspectos da Literatura Brasileira, livro de ensaios de Mário de Andrade lançado em 1943, quando o poeta beirava 50 anos e tinha consolidada carreira entre a poesia, o Patrimônio Histórico, a musicologia e a etnografia. O livro é uma coletânea de estudos acerca dos mais diversos assuntos, como Castro Alves, Machado de Assis e a cena literária pernambucana; mas aquele a ser destacado neste artigo é o da dolorosa e madura reflexão de Mário sobre o próprio modernismo e sobre a semana de Arte Moderna de 22. O livro foi lançado dois anos antes de sua morte.

O intuito deste artigo é, portanto, colocar lado-a-lado o prefácio – literalmente - do momento inicial da carreira de Mário de Andrade e a leitura deste momento feita duas décadas depois, em ensaio, pouco antes do fim da carreira do autor. Nossa leitura, claro, será parcial e incipiente em função de sua plataforma e da inabilidade deste que escreve.

Mario de Andrade aspectos.jpg

I

“Não acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de Procusto para que obtenham, em ritmo convencional, número convencional de sílabas. [...] Nesta questão de metros não sou aliado; sou como a Argentina: enriqueço-me”. “Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal da palavra em liberdade.” – Prefácio 1921

Nestes trechos do prefácio de Pauliceia Desvairada, Mário de Andrade mostra desveladamente o intuito de se fazer um livro com o metro livre, com associações aparentemente impensáveis entre imagens, com o flerte consciente com o símbolo: a produção de um significado que fosse amplo e atualizado, como uma necessidade artística no Brasil. Nota-se pelo próprio texto, além disso, que nesta época próxima da Semana de Arte Moderna, a renovação da forma lírica era defendida como uma militância, como um terreno valioso que foi conquistado. E que ela não era simplesmente uma “ignorância do passado”, mas o seu entendimento e superação dialética, como toda a boa poesia moderna mundial.

Por isso tudo é valido notar, e é assim que ocorre em todo o Prefácio, a forma como Mário parece expressar apenas convicções sepulcrais ao falar sobre sua poesia. A linguagem tem um forte peso, punge e visa tirar da zona de conforto o leitor do texto, muitas vezes sendo o próprio leitor o interlocutor do Prefácio. Esta ferocidade se justifica por aquilo que Mário diz, já em 1943, sobre o que se enfrentou na Semana de Arte Moderna:

“Como pude fazer uma conferência sobre artes plásticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?”. “A vaia acesa, o insulto público, a carta anônima, a perseguição financeira...mas recordar é exigir simpatia e estou a mil léguas disso” – O Movimento 1943

Assim, era quase literalmente uma luta o que os modernistas travaram para poder fazer sua arte, uma luta que era artística mas que, neste período, se transformava em política, como tudo o que se pretendesse fazer no Brasil. Por isso, Mário justifica uma adoção da nova arte pela velha aristocracia, cujo espaço político vinha definhando, e uma repugnância do movimento pela nova burguesia (já) conservadora da época, que “nunca soube perder e, por isso, perde”. Essa luta, portanto, se dava no Prefácio nessa fluidez feroz, nesse fluxo de ideias que tinham que vir como certeza, como verdade; em Macunaíma, por exemplo, a batalha foi léxica, temática e sintática. Todas duríssimas batalhas, mas braços da maior delas, que foi a da busca da própria liberdade do ser moderno.

Pauliceia.jpg

Mas ainda havia as batalhas pessoais de Mário envolvidas neste caráter bélico de sua escrita. Em saborosíssimo relato, descreve o paulista o episódio em que adquiriu uma obra de Brecheret - denominada “Cabeça de Cristo”- por quantia absurda.

“E a parentada, que morava pegado, invadiu a casa pra ver. E pra brigar. Berravam, berravam. Aquilo era pecado mortal! [...] Onde já se viu Cristo de trancinha!” – O Movimento 1943

Portanto, o caráter desafiador do princípio da obra de Mário de Andrade funda-se em seu momento social e político, na vida pessoal do autor, mas também pela própria razão-de-ser modernista , porque desafiadora de uma ordem cristalizada, seja em arte, seja na vida social; e abraçando a influência europeia quando se poderia pensar – burramente - que isso seria abandonar a experiência brasileira. Se o primeiro momento do modernismo foi de certa adoção desarrazoada de estéticas, como no expressionismo tardio de Anita Malfatti, esse foi essencial para iniciar a dissolução de arcaísmos e adornos. Nas próprias palavras do poeta, o primeiro momento do modernismo foi essencialmente destrutivo.

“O modernismo, no Brasil, foi uma ruptura, foi um abandono de princípios e técnicas consequentes, foi uma revolta contra a inteligência nacional. É muito mais exato que o estado de guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de guerra, eminentemente destruidor.” – O Movimento 1943

Mas, até hoje, há críticas quanto aos limites dessa invenção modernista, por isso é bom que se destaque: os modernistas não botaram o ovo, apenas o puseram de pé. E sabiam disso, como se deixa transparecer pelo próprio Mário de Andrade em O Movimento Modernista e no próprio Prefácio Interessantíssimo.

“ (Bilac) Descobriu, para a língua brasileira, a harmonia poética, antes dele empregada raramente. (Gonçalves Dias, genialmente, na cena da luta, Y-Juca-Pirama)” – Prefácio 1921

O modernismo foi heroico, mas não feito por heróis predestinados. Tampouco foi algo sem precedente algum no Brasil, pois houve invenção formal em consciência nacional “num Gregório de Matos, num Castro Alves, num Carlos Gomes e até mesmo num Almeida Júnior”. O mérito deste momento, segundo Mário de Andrade é, portanto, tornar a busca pela invenção consciente um movimento conjunto, muito antes de fatos históricos isolados. O que importa, para o paulista, é o fato heroico muito antes de seus heróis, já que o autor em sua maturidade considera que o próprio modernismo era – apenas - inevitável.

Mário-de-Andrade-1893-1945.jpg

II

“O que caracteriza esta verdade é, ao meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: O direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência criadora nacional”. – O Movimento – 1943

Nesta parte do artigo supracitado, Mário de Andrade faz um balanço conciso e consciente sobre as possíveis conquistas do modernismo. É válido notar que, em 1943, já havia à disposição do público uma série de poetas que utilizavam o espaço duramente adentrado pela Primeira Geração e que já eram encarados com certa maturidade: um Augusto Frederico Schmidt, um Carlos Drummond de Andrade, um Murilo Mendes. Pelo momento em que o artigo foi escrito, assim, poderia se dizer que a arte moderna já havia “dado certo” no Brasil. E Oswald de Andrade chorou perante Niemayer.

Mário caracteriza estes três pontos ao longo do ensaio, apesar de não assumi-los plenamente consolidados ou sendo um final definitivo para qualquer desenvolvimento artístico. Este é, na verdade, o começo. No Prefácio encontram-se trechos onde se pode notar no jovem poeta que estes objetivos, ainda que não elencados ou delimitados teoricamente, eram compreendidos desde o começo do modernismo:

“O apogeu já é decadência”. “O passado é lição para se meditar, não para se reproduzir”. “Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só”. “Toda canção de liberdade vem do cárcere (via Gorch Fock)”. – Prefácio 1921

- O fato do apogeu já ser considerado decadência (umas das vertentes do “onde existe mestre, não existe mais arte”) evidencia que, no mundo moderno, a arte provém não do academicismo, mas da constante instabilidade da vida contemporânea, que demanda constantes revoluções. Para o poeta, há apenas um precedente deste ímpeto revolucionário no Brasil: o Romantismo.

-A arte tem que se “atualizar” constantemente para não ser atingida por um bonde ou, no instante seguinte, por um automóvel. Essa atualização se dá em temática e meio, mas, para Mário e sobretudo neste momento, se dá em forma: daí provém a pesquisa estética: é o veículo mais adequado para uma arte que se propuser nova. Na obra de Mário, isto é também a busca pela língua brasileira.

-A consciência criadora nacional, aqui já abordada, provém justamente desta meditação sobre o passado (e sobre o presente) (por isso fica claro que o modernismo não é mera destruição) e é filha, enquanto também mãe, da cena artística brasileira. Além disso, é fonte estética diversificada e infindável. Isto se reflete na descentralização artística nacional, para o poeta.

Está claro que, sempre, para Mário de Andrade, a canção terá que ser de liberdade, pois, estabilizar-se e acomodar-se seria o fim de uma procura que, em arte, é infindável. O poeta acomodado é vencido pela escola, pelo mestre e pela província simultaneamente. Mas, mesmo assim e sintomaticamente, o poeta maduro não isenta a si próprio, jovem, e sua obra de uma espécie de conformismo e de falhas inapeláveis.

modernistas-montagem.jpg

III

“Ora, como atualização da inteligência artística é que o movimento modernista representou papel contraditório e muitas vezes gravemente precário.” “Eu desconfio do meu passado.” – O Movimento 1943
“Canto da minha maneira. Que me importa si me não entendem? Não tenho forças bastantes para me universalizar? Paciência.” – Prefácio 1921

No momento em que Mário de Andrade escreve sobre aquilo que o modernismo foi incapaz de fazer, parece inegável que ele mesmo tenha construído uma ponte especificamente entre o Prefácio e sua visão de homem de cincoenta anos. Pode-se notar, e o próprio paulista diz, que esta trajetória reflexiva é estritamente pessoal, até porque não se nota na vida de Oswald, por exemplo, alguma ideia neste sentido. Assim, é absolutamente válido adentrar à auto-crítica do autor, privilegiada visão sobre a obra.

O poeta descreve a atualização da inteligência artística como a forma como arte lida com o seu tempo, participa dele, se atrela a ele. Mário de Andrade critica a todo momento a não participação do modernismo às questões de seu tempo: um tempo de partido, de homens partidos. Sobretudo no Brasil. Mas isso não significa que queria o poeta ser político, antes disso, que desejava que sua arte saísse da redoma elitizante dos salões, das viagens ao interior em busca do Brasil, das batalhas que se restringiam ao campo das ideias artísticas.

O viés aristocrático da primeira arte modernista pesa em Mário como uma sina. Ele a encara como uma manifestação dos mais individualistas e egoístas vieses, porque flertou muito antes com abstrações, com formulações estéticas. Está ausente “a dor mais viril da vida”, a tentativa de “amilhoramento político e social do homem”, a questão mais densa do tempo. É, possivelmente, notada esta limitação da concepção modernista no próprio Prefácio, em partes onde o poeta faz questão de ressaltar como seu canto é solitário e incompreendido. E como assim ele foi concebido.

Mas esta solidão ao olhar cauteloso mostra-se, como efeito, a confissão da dureza do combate. Por isso, é antes de uma prova de individualismo, uma noção do isolamento artístico inicial das ideias modernistas, em inevitável sensação.

(Permito-me, aqui, defender e absolver Mário de Andrade das acusações de Mário de Andrade por dois motivos: o bom autor, ao se debruçar sobre aquilo que produziu, tende a ser exageradamente crítico, assim como expos T.S. Eliot sobre o valor da crítica; estes pontos sobre os quais o poeta refletiu caem no colo deste tempo em que hoje vivemos.)

A questão desta não participação social da arte, desta “luta contra lençóis superficiais de fantasmas” que foi o modernismo brasileiro, não está restrita ao que foi feito a partir de 1922 no Brasil, mas é sim o maior dilema da arte mundial até os dias atuais. Mostra-se, neste momento, a visão privilegiada que o grande artista tem sobre as questões de seu trabalho e de seu mundo, pois hoje, pleno 2014, é exatamente assim que temos a liberdade entre nós: “como uma sanção”. Hoje, pode-se dizer que é praticamente impossível atrelar-se a algo, como é cada vez mais difícil conceber o ser social ou “participar ativamente da marcha” (há marchas?) por qualquer maneira. O poeta tinha razão a acusar esta falha no seu modernismo, mas não tinha em culpar-se por um fenômeno muito mais amplo, que é o da própria modernidade.

mário.jpg

IV

Mas o ceticismo de Mário está restrito à sua obra. Ao fim do ensaio da década de 40, o poeta nos mostra o que há de melhor em todo grande artista: esperança. E esperança que, mesmo que as próprias ações resultem inúteis, prevalece sobre qualquer ímpeto de destruição.

“O Homo Imbecilis acabará entregando os pontos à grandeza de seu destino.” “A vida humana é que é alguma coisa a mais que artes, ciências e profissões”– O Movimento 1946

E eis que, no apogeu da maturidade, ao fim de um dos mais lúcidos e céticos ensaios do poeta, poucos anos antes de sua morte, quem aparece é o Mário de Andrade mais libertador, mais ativo, mais vivo; o Mário de Andrade do Prefácio Interessantíssimo, da Pauliceia Desvairada, da Cabeça de Cristo, da sua própria genealogia. O Mário de Andrade que sempre será na verdade um só: o poeta luminoso, desafiador e, inevitavelmente, jovem.

“Minhas reivindicações? Liberdade.”

(Título inconsciente e graciosamente cedido por Carlos Drummond de Andrade)


Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia.
Saiba como escrever na obvious.
version 8/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Vitor