Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

O Oásis de Carina Castro

Uma pequena análise da poesia de Carina Castro, em seu Caravana (2013).


O poeta busca refúgio no sono, no inconsciente, na vida íntima, pois não ignora a crise da civilização.

Viviana Bosi


Abertura

O silêncio se retira com o pedido dos pássaros
Ainda há orvalho sobre os olhos que sonham
A cidade está distante deste chão coberto por tapetes e poeira
que ainda não pisaram neste dia
Espera-se o quanto pode pelo aroma do café
Se esquece o que foi noite corpo adentro

Publicado em 2013, Caravana é o livro de estreia de Carina Castro no meio poético. Este dado, que poderia ser mero cabeçalho de artigo, aqui torna-se essencial para a contextualização do livro: desde já, os versos de Carina lidam com as bases técnicas da poesia com maturidade e personalidade. Ao bater pela primeira vez os olhos nas linhas de De Onde Venho, primeiro grande poema do livro, qualquer leitor perceberá que há algo sólido ali. E aqui cabe um elogio à publicação feita pela Editora Patuá, que percebeu a verve de Carina: um acerto tremendo dentro da qualidade oscilante de seus autores.

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A poeta Carina Castro

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Quase simples: em Caravana, Carina Castro se propõe a participar da vida coletiva através de uma expressão lírica. Ela não quer se esconder na persona do escritor, não quer falar apenas sobre sua impressão sobre mundo, não se resume a uma poesia de sentido imediato. Mesmo que a matéria do livro seja majoritariamente o mais pessoal espaço interior, o efeito que consegue a poeta é o de participação, de busca por uma verdade que seja de todos, da realização da forma lírica de uma anamnese (memória profunda) de si e do mundo social. Este espaço interior transforma-se, assim, em um espaço mítico, por onde caminha sua caravana, em imenso deserto, dentro do furo de uma agulha. Um cadinho de experiências. A poesia de Carina funda-se nesta complexíssima dialética, que tentaremos tangenciar dentro das restrições da plataforma.

Todos conhecemos o movimento de ruptura que tem havido entre poeta e sociedade (hoje não se citarão teóricos alemães): há, cada vez mais, a necessidade de um “eu” na poesia e do recolhimento a ele, já que o mundo exterior não é mais o natural e carece de matéria de reflexão lírica. Aqui, neste Caravana, temos a afirmação deste eu, mas que guarda em si algo a mais. Todos os percursos do livro partem do sujeito, pois funda Carina seu espaço mítico dentro de si, o que fica claro sobretudo nas duas primeiras partes do livro: nós temos algo como a fotografia do amorfo de um inconsciente, há ali em fronteiras indistinguíveis a infância, a experiência afetiva, a experiência poética, a vivência pessoal, o referente social (note a profundidade deste amálgama em um poema como máscara ou movimento de pássaros). Mas este eu afirmado não pretende findar em si. Este auto-mergulho visa extrair do eu-lírico aquilo que ele tem de mais humano, aquilo que é matéria inerente no convívio e na vida.

Em um tempo onde falar em imagens do inconsciente coletivo já se torna quase uma repetição de palavras, dado que hoje elas são conscientemente formuladas por atores hierarquicamente superiores na sociedade (com exceções que já tentei em outros artigos discutir), Carina Castro parece encontrar a solução lírica para este dilema, para fazer uma poesia que participe da vida: encontrar o âmago, flertar com o seu próprio inconsciente e expressá-lo de forma tão humana que aos nossos olhos ele se torna uma espécie de ontologia, em sua forma indefinível. Mesmo sendo uma expressão de imagens rigorosamente pessoais, a forma como se dá aqui a apuração verbal encontra um espelho em qualquer um que se dispuser a adentrar neste espaço onírico.

Com este posicionamento aplicado às coisas materiais, para onde os olhos do mundo moderno estão voltados, a poeta também consegue abrir uma porta. Nas coisas e em suas histórias próprias, ela procura os homens com êxito. Um par de tênis pendurado em fio telefônico transforma-se numa reflexão profunda sobre onde se encaixam a história e a cultura em frente ao labirinto da subjetividade (Passo Comum), em que lugar ou ponto é a história escrita por sujeitos. Esta poesia, portanto, ao mesmo tempo em que evidencia a coragem de uma procura por algo maior, também retrata (e é esta a palavra) a dimensão de uma ruptura: incomensurável.

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Fotografia da própria autora

Está claro que aqui a poeta se desprende de diversas tendências da lírica contemporânea que se mostraram pouco frutíferas em suas veredas. O fato de Carina abordar também as coisas materiais (os objetos triviais, os atos triviais) não está aqui para legitimar uma experiência pós-moderna que sabemos pobre à vida em sua mínima poesia, mas para contestá-la sutilmente em sua esterilidade e situar ali o seu sujeito: há um homem que vê as coisas, mas que não se define pelo que faz ou tem, ou que sequer se define, já que há sempre a maré a levar (Cartográfica). Se ela usa por vezes a ancoragem - tão comum em poemas de hoje e derivando sobretudo da poesia de Bandeira, no Brasil -. Carina o faz com mãos de ourives e para nos lembrar que há um mundo exterior e que ele se interioriza. Basta que se note um poema como crinas onde surge esta escolha como pontual fator de contraste e de situação de atores aparentemente distantes em uma simultaneidade.

A maleabilidade do olhar em um mesmo poema mostra-se como uma das melhores opções da autora, também dentro de escolhas comuns à lírica do nosso tempo. O que em mãos pouco cuidadosas, como em Alice Sant’anna, torna-se um fator de imprecisão e de indefinição temática (que se tenta justificar como pluralidade de leituras), em Carina Castro é fonte poética e densidade de significação. Em um mesmo poema (Caravana, Cartográfica, Passo Comum), consegue a poeta passar do micro ao macro, do eu ao ele e depois ao nós, do mim ao mundo com a naturalidade de uma sinapse: esta passagem não está solta, há um fio e nele se realiza o mais significativo do poema, aquilo que o torna a expressão de algo maior. Carina assume-se como nosso guia nesta viagem através do seu olhar incansável para o mundo, e são estes saltos do seu olhar que criam versos dos mais belos feitos recentemente em nossa língua (nem sempre você se depara com um poema como E uma, Evocação, Olhos Bélicos e Litoral).

Ademais, algo que em Caravana choca desde o primeiro olhar é a naturalidade que a autora tem ao lidar com a sonoridade - a melopeia - este que é o lado mais social do poema. Faz parte de sua busca pela humanidade. Note, por exemplo, a sonoridade aguçada de versos como:

um ninho tecido de vozes anódinas (um jambo seguido de três anapestos, mas sobretudo o som que isto tem)

ou

é mais fatídica a dormência que a dor

ou ainda

encontraste a carta, mas não entendeste a letra

É, pois, uma apuração melódica que não precisa de métrica ou estrofes com versos contados (apesar de Carina também beber desta fonte), mas que abusa da rima interna, da paranomásia, da regularidade de acentos e da aliteração na busca por um ritmo e por uma sonoridade expressiva.

Outros arcabouços a poeta mostra ao longo do livro. Por exemplo, que dizer do efeito causado nesta combinação entre uma oxítona e uma proparoxítona ao fim dos dois versos, a guisa de um Sousândrade?

De lá estão a prover a manhã
Por na mesa o que enche o âmago.

Além, claro, das belíssimas construções de imagens que, justapostas, dão a maior força da poesia de Carina, como:

Dizer até molhar a boca um mantra chuvoso

e

As beiradas roídas do perene

Caravana é, assim, um livro necessita de poucas ressalvas, que nos pega em cheio porque lida com algumas das principais questões do nosso tempo, não fugindo dessa responsabilidade que sempre teve a lírica por estas bandas: Carina nos fala do papel do sujeito na formação da cultura (e o fluxo reverso), da palavra como realização do ser no mundo (e também do fluxo reverso!), das aporias da incomunicabilidade, das formas de manifestação do divino no trivial, do inconsciente e de seus labirintos que condensam na autora diversos mundos, transformados nos poemas em figuras. Desprezando-se o excesso de citações e algumas contestáveis e oscilantes escolhas estéticas (Mineração, Olhos da Infância, Fantasia na Praia) que causam certa confusão no leitor, o que Carina Castro nos apresenta é um espaço mítico pleno e sincero que se realiza dentro de um tempo mítico. Caravana é uma peça emblemática na poética contemporânea e, o que nos cabe aqui é, simplesmente, difundir.

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Favela com Tintureiro, de Heitor dos Prazeres

** Uma breve leitura **


Cartográfica

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduzem a lancinante latitude
do teu entendimento


envias de volta um papel em branco


O que chama atenção em Cartográfica desde o primeiro resvalar é a total ausência de pontuação ou letras maiúsculas: o poema inteiro, à exceção do último verso, se dá numa única estrofe composta por uma única frase com hipotaxes e parataxes, marcados por vezes por enjambements. Dentro desta única oração, contudo, há algumas armadilhas deixadas pela autora, como o verso “entre soluços de bêbado e pranto” completar o sentido dos versos anterior e posterior simultaneamente. Em Cartográfica, abre mão a autora da rima mais convencional (persistindo a toante), sem abrir mão da cadência rítmica.

Estas escolhas estéticas de Carina já são justificadas pelos primeiros versos do poema: a poeta inicia descrevendo o espaço em que seu interior se inaugura, dentre sonhos. Os sonhos são a matéria prima de sua existência, delimitam a amplitude de seu espaço interior, criam e recriam a imagem do sujeito para si próprio. Logo em seguida, no entanto, nos é apresentado o mundo exterior do eu-lírico, que é antípoda da velocidade de seu pensamento (realçada pela repetição imediata da palavra). O pensamento, aqui, mostra-se como incompatível a uma existência que se pretenda natural, ele pertence ao espaço interior, mas não ao “interior do interior”. O corpo e a expressão estão entregues a um ritmo natural, mesmo que assim não queira o próprio pensar, o que pode também estar na raiz da incomunicabilidade.

E de pronto, apresenta-nos o poema uma garrafa, na típica imagem cinematográfica da mensagem do náufrago. Pode-se induzir que esta garrafa é a metáfora para a própria mensagem poética que se pleiteia, para o vagar desta mensagem que também flui em um ritmo natural, assim como este sujeito inominado que recebe a mensagem e a responde esboça-se como o próprio leitor do poema. Subitamente, o poema mudou a direção de sua visão: este o efeito da sintaxe escolhida pela autora, naturalizar esta mudança de curso, como que dada pelo movimento das águas do mar agindo nas palavras, como que dada pelas ligações que a mente faz por conta própria neste jorrar lírico ininterrupto.

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Ilustração de Deborah Erê feita para o livro de Carina Castro

Surgem então justapostas numerosas imagens da incomunicabilidade: primeiro, do eu consigo, já que não há mapas para a memória; depois, do eu com sua expressão, pois este eu, ainda que doa fundo seu garrancho, está sempre submetido a um idioma e jamais será plenamente sincero com sua mensagem (o famoso dilema de Caeiro...!); em seguida, do eu com o seu leitor, que não verá a constelação da mesma forma que o eu-lírico, tampouco o mesmo significado nas linhas de suas mãos.

O poema, ainda assim, apresenta-se como um ato de insistência. Atira no escuro. Busca o leme do outrem (note o interessante jogo entre leme e leem, no embaralho do entendimento), o seu sentido, mesmo que sem jamais supor o quanto será entendido e em qual latitude, sem jamais conseguir comunicar a mensagem completa.

O verso final coroa o ímpeto de comunicação que mesmo apesar de já surgir falho, persiste. A garrafa é recebida mas sua mensagem é impossível de se entender. Uma outra mensagem é enviada em resposta à primeira, mas o eu-lírico a receberá como um papel em branco. (Não soa irônico, pois, o intuito deste texto que escrevo?). A forma como a autora utiliza o espaço em branco no poema em contraste com a continuidade de toda a primeira estrofe é, assim, escolha estética acertadíssima, que amplifica o sentido.

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Ilustração de Carybé

Ao termo, temos elencados cinco principais movimentos: a construção do espaço interno, a construção do espaço externo, as impossibilidades comunicativas, as tentativas persistentes e a resposta incompleta. O que une estas imagens é justamente aquilo que está no título: o espaço, dado pela analogia com o mapa. Note a quantidade de referências ao posicionamento (distâncias traçadas, profundidade, latitude, longitude, mapas, constelação, leme). Este espaço, contudo, não se define tão facilmente, como está explícito na ausência de mapas da memória. É, pois, um espaço mítico, irretratável em suas minúcias, transcendendo o sujeito e aquilo que ele pode conceber. Sequer o próprio eu-lírico consegue mensurar o tamanho do lancinante oceano que percorreu a garrafa através do ritmo da vida, tampouco mensura a dimensão do seu espaço interior (que além de tudo é cambiante) ou a profundidade a que alcançará no entendimento a mensagem contida na garrafa. O que pleiteia Carina Castro é registrar a dimensão absurda da mais simples experiência comunicativa, mesmo sabendo que todo o esforço neste sentido será debalde. O que nunca impediu que o homem continuasse pelos séculos a se expressar.

O trunfo do poema, assim, é transitar entre espaços com naturalidade, em prol de um fio poético, que é a experiência da comunicação: ao longo do poema passamos pela imensidão do interior, pela mínima garrafa, pelo infindável mar, pela distância da constelação, pela palma da mão e, novamente, pelo mar. Cartograficamente.

E como na lição poundiana, todo o resto virá de sua própria leitura, seja do poema, seja de toda a obra. Por hora, é bom que saiba apenas que estamos vivos, e que grande parte da vida é fazer viver.


Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia.
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