Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

Memória e História na Cidade do São Salvador

O momento em que Salvador me impediu de ser indiferente.


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“Que é isto aqui?”, pergunto ao avistar uma velha construção a caminho da Ribeira.

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Novo trem no subúrbio de Salvador (foto de Ayaan Yaritssa)

Uma das coisas que mais me atraem na comunicação oral é a imprevisibilidade. Nos seus becos, vielas, meandros, caminhos tortuosos, gritos no escuro e arco-íris, sinto que a linguagem se realiza com amplitude muito maior do que nas cordilheiras altivas das gramáticas. Choco este meu ponto de vista com a inevitável infiltração do pensamento racionalista - o responsável pela visão positivista das coisas que criou o ocidente- que nos faz abominar o acaso de todas as formas possíveis. Explicá-lo. Pô-lo em estatísticas. Probabilizá-lo. Qualquer coisa desse tipo me assombra: sinto que as coisas existem desta forma que vemos por mero acaso, ora, quer saibamos explicá-lo a posteriori ou não: teremos que lidar com isso como lidamos com um sonho enquanto estamos nele; todo resto é dissimulação. Enfim, a comunicação oral nos prova este ponto nos repentes, nos congressos sobre a explicabilidade das coisas e nas perguntas do turista em sua terra natal, sem embargo e felizmente.

“É uma estação de trens antiga, mas note as redes nas janelas dos vagões dos trens”, reponde meu interlocutor.

Sendo o imprevisível um dos reis destronados da vida, a pergunta sobre a velha construção me deu quase nenhuma informação que eu esperava. Nem para onde vai a linha férrea, nem em qual ano a estação foi construída, tampouco se ela ainda funciona. Meu interlocutor se limitou me contar que aquilo era uma estação, e que as pessoas têm o hábito de jogar pedras gratuitamente nas janelas das composições e que, por isso, elas têm telas. Este é o acaso. Naquele momento, meu interlocutor achou a explicação sobre as telas nas janelas um dado mais relevante do que qualquer informação que compõe os volumes de prováveis e empoeiradas enciclopédias, e foi esta imagem que fixou-se em minha mente de forma mais duradoura e me levou a escrever estas palavras.

A memória é feita de imagens, não de fatos ou datas. Imagens que se amalgamam e dissolvem umas as outras, formando-nos indefinivelmente, sem ponto final

Expulso da escola pela segunda vez, A.V. mora com a mãe, diarista, num barraco em um subúrbio de Salvador. Não há pai, e de nada importa a biologia neste caso. –Não sei o que vou fazer com você. A.V. fumou pela primeira vez aos 12 anos, quando um tio sem parentesco algum ofereceu-lhe um cigarro. Desde então, A.V. conheceu que raros caminhos são retilíneos vivendo sua rotina entre palafitas, fumaça, gargalhadas e pequenos furtos. Há também aquilo que A.V. chama de “chá da tarde”, segundo nos conta, por causa do hábito inglês que uma professora lhe ensinou na escola. Pontualmente às 18h, quase todos os jovens e alguns adultos do bairro se encontram às margens da linha-do-trem e, aos poucos, vão se posicionando no matagal para aguardar o momento tão escasso. Lá vem ele. Dez quinze vinte e três trinta e duas jamais contadas pedras voam contra as janelas do trem, para espanto dos que dormem e dos que querem dormir. “Tinha mais graça sem as telas”, afirma o menor.

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E na época da minha viagem a Salvador, me recordo de estar lendo Don Quixote.

Suponho que sequer Jorge Luis Borges ou a melhor literatura regionalista tenham algum relato sobre trens que interrompem sua viagem por causa de pedradas. Por que, então, atirar pedras em trens? Se eu pudesse me contentar comigo, diria que o fato de a história do homem que investe contra moinhos ser lida por mim mais de três séculos depois já é o bastante para entender o que ouvi em Salvador. Desta forma, se imagino agora o trajeto das pedras até as janelas, eu respondo a mim mesmo de alguma maneira, nesta minha intenção de escrever. Mas há um problema: a literatura ensina que eu não posso me contentar comigo mesmo. A pergunta então resiste: Por que, afinal, atirar pedras contra trens?

E me lembro de ter revisto também Memórias do Subdesenvolvimento, filme cubano, durante minha viagem.

Às vezes, um trem não é apenas um trem. É algo que surge como um efeito colateral da civilização. Não, da Civilização. Salvador cresceu com a permissão das colinas e encostas, e isso é claro a qualquer um que queira andar pela escarpada, estreita e côncava cidade. Salvador recusa todos os dias a Civilização e a Cultura como bases fundidas da vida cotidiana, utiliza-as apenas como “pala, prato suculento”, diria Gil. Simplistamente, então, se afirmaria que este caso rochoso reflete o quão Salvador está imersa no subdesenvolvimento, na pouca reflexão dos atos, na recusa a qualquer geometria; mas há mais assim que se ultrapassa a fronteira da frivolidade. No gesto que lança a pedra ao trem há também a tradução deste ato de recusa, ainda que inconsciente, deste ato que vem desde a geografia da cidade e à forma como ela se ergueu: abrindo mão da plena imersão no tempo presente para ganhar, por isso, o seu entendimento secular. O trem só pode andar em insondáveis retas, sem possibilidade de parar, indiferentemente. Eis que o hálito de contradição da terra é também o hálito de contradição dos homens.

E quão belo se mostra o mar nas costas de Salvador, em Monte Serrat.

Entrar em Salvador pela rodovia te traz algo além de uma experiência contemplativa, além da imagem cristalizada de uma cidade turística pronta para te servir. Deixar-se engolir pela monstruosidade favelária que a cidade não renega, mas ostenta em toda sua extensão, começar a perceber que nesta capital a pobreza é matéria viva. Em Salvador, não há lugar para ser rico. Se perto da costa, entre hotéis alados e alvos carnavais, a cidade reponta como óbvia joia, o ar soteropolitano denso de história carrega até nossos narizes a verdade novamente. Somos pobres. Homens pobres entre favelas onde moram meninos pretos que tocam tambores pretos no lugar onde se surravam os pretos. Somos pobres porque em Salvador entendemos que a pobreza está, em qualquer lugar no mundo, em um movimento histórico, entre espaço físico e imposição psíquica, dialeticamente. Assim, é somente a partir do momento em que aceitamos a nossa condição humana aqui embaixo que, enfim, podemos perceber quão rica a vida é por estas bandas, e quão pobre é a beleza do ouro: olhando o mar. É assim que podemos entrar nesta anti-lógica dos cordelistas, dos feirantes, dos pescadores, dos terreiros, dos negros alforriados, da prosódia morena.

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“Mulher, eu te admiro” li em muro da Lapa.

Por isso, há um grande sentido no que os versos replicam. Salvador não te deixará em paz em canto algum do mundo, em Paris, em Pequim, no Congo. Como num poema de Kaváfis ou de Waly, a cidade baiana provará a sua verdade pelo contraste, evidenciará as tentativas de esconder sob pilhas de jornais a infinitude da história e deste legítimo carnaval em que ela surge feita de mulheres, homens, favelas, massacres, banhos de mar, ônibus lotados, eventos que não aconteceram e todas essas coisas que confluem para um rio de cor indefinível. De um tom que podemos chamar, impotentes, de acaso.

E creio que, sem perceber, entendi o porquê das pedras-meninos-trens.


Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia.
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