Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia

Por que eu gosto de Guimarães Rosa

Do que aprendi com Guimarães Rosa e do que ainda hei de aprender.


(Adaptado do texto vencedor do prêmio Alceu Amoroso Lima, da ABL, em 2014)

É a bem-verdade, e digo sem medo de desvergonha de palavra, que há certo tempo, dormindo na estante baixa da sala, havia um exemplar de Sagarana, capa preta e olhos baixos, carcaça de rês entre os móveis alheios, um corpo-estranho que o menino da casa teimava em estranhar: “Esse livro é de quem?”, e a resposta comprovava a desexistência daquilo que era e não era livro e que era e não era da gente: “Não sei”. Para mim, um exemplar raro de algo sempiterno.

Assumo agora com dissabor que Rodapião e Nhô Augusto só se tornaram seres-possíveis após sete anos de esporádico folheamento e inevitável estranhação daquele idioma que expandia e delimitava o mundo do Burro Pedrês; e eu, como um cavaleiro que põe botas e couros e ajoelha em prece-e-perdão, durante este tempo me preparei para adentrar as veredas de Guimarães e daqueles que ele nos mostra. Só então li e digo que não só li e além-digo que não só li uma obra ou uma vez, isso tudo a título de inevitável e conseguinte.

É também a bem-verdade, e eu digo porque descobri e sem repensar, que as obras de Rosa não servem para ser lidas, mas para ser embrenhadas e exploradas, como é a mata e o sertão que nos conta. Nada debalde. Na verdade, o magnetismo que liga o sertão ao sertanejo é o mesmo que liga o leitor a Guimarães Rosa. As peripécias da mata e da palavra são naturais e só podem ser naturais pela forma como ocorrem: simplesmente. Descobri-las.

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O que rege as leituras e as re-le-leituras das obras de Rosa é uma pergunta: o que é o tal sertão? A cada história, Rosa parece ter partido não de um fato, mas de um pensamento ou sensação; e tudo cabe no sertão, e tudo é o sertão. Ao leitor, aquele espaço parece ser não um local ou cenário, mas a própria palavra que o descreve, cuja forma se amalgama às matas de Minas que, ainda que penetráveis, permitem apenas aos seus moradores poder desvendar não seus porquês, mas suas formas de existência. Assim, antes de um primor estético, as palavras de Rosa são um primor em essência: o autor, de alguma forma, conseguiu habitar a palavra para conhecer seus porquês.

A forma como o autor consegue descriar o limite entre espaço real e palavra escrita gera fascínio naquele que lê e cria universalidade para suas histórias: basta que se pense nos alemães ou ingleses que entendem o que Rosa quer dizer com o sertão: o mundo é o interior de Minas, que é também o interior do homem. O autor semeia humanidades à humanidade quando fala de ontologia, quando fala de sagrado, quando fala de amor nas palavras de vaqueiros que provam que vida é questão de viver, antes de entender ou mensurar. O vaqueiro, aliás, é figura privilegiada por ser, acima de tudo, um homem: algo que tantos rótulos mascaram no cidadão-eleitor-consumidor que se tem que ser. Está aí a força das obras de Rosa: despir e desinventar o homem, sempremente.

Hoje sinto, e esta é a última bem-verdade destas palavras, que não podem ter tantas bem-verdades assim; hoje sinto, mesmo que soe estranho, que as palavras do autor de Corpo de Baile se assemelham perfeitamente às de um não-letrado, e é isto o que torna único: depois de estudar mais de uma dezena de idiomas, o autor chegou ao âmago da palavra e entendeu o processo de formação de um idioma, partindo apenas da realidade física e de suas múltiplas lógicas. Despida dos formalismos e das ornamentações, a palavra torna-se, finalmente, uma forma de plena comunicação nas mãos róseo-rosianas. Por isso tudo, e por muito além, é que digo com a segurança de um sertanejo ao contar suas reses: O amar a palavra, por si só, já justifica o gostar de Guimarães Rosa.

Agora, por fim, posso ver nitidamente que muito daquela experiência primeira com Sagarana teve algo de prelúdio. A estranheza que me causava aquele negro-livro antes de lido é a mesma que me engendrou depois, em diferentes teores. O corpo-estranho, que primeiro era o próprio tomo, tornou-se sua mensagem rara e sua irrepreensível reverberação. Hoje, repousado no mesmo lugar, porém multi e ainda semi lido, o livro me encara como se me desafiasse, como se me dissesse: Vitor, não te esqueça de que és humano e de que és vivo e de que és parte e

Decerto, eu não me esquecerei, e é essa a bem-verdade que será.


Vitor

Vitor sou eu. Eu nasci na Bahia.
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