traga-me

Atóxicos para o cotidiano da alma.

Bianca Bruneto

Alguém com um pé em Minas e o outro no Sul, sendo cafés e chimarrão bem-vindos, a qualquer hora do dia. Escrevo como hobby e ainda sonho tornar isso uma profissão. Viciada em tatuagens, rock'n'roll e palavras.

Um conto quase de amor

"Talvez precise do frio e de uma boca enfumaçada pra transformar corações perdidos em verdadeiras pedras de gelo." Sim, talvez precise, talvez seja intrínseco... Um conto curto de Bianca Bruneto sobre histórias de quase amor.


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Talvez precise do frio e de uma boca enfumaçada pra transformar corações perdidos em verdadeiras pedras de gelo. O mundo era estranho pra aquele rapaz, as pessoas, os amigos e as paixões. Todos passageiros. Não conseguia manter ninguém próximo a ele por mais de dois meses. Não porque não conseguisse, mas porque não queria, era intrínseco, sempre faltaria alguma coisa.

Houve uma pessoa, uma vez, que ele manteve por perto por deixar sua vida menos vazia e que pôde conhecer algumas das muitas casas em que morou. Mas ela não era o bastante, foi só um caso discreto, um tanto indiscreto, de desencontros, falta de sexo e vertigens. Talvez alguma coisa unisse os dois, mas não era um sentimento e sim um estado. Um comodismo fascinante. Foram se abandonando aos poucos e, aos poucos, se tornaram desconhecidos.

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Até que ele a conheceu, em uma de suas desventuras por uma dessas cidades pelas quais passou. Aquela que o faria se sentir menos entediado e, acostumada a ter pessoas ao seu redor, não se movia nem comovia ninguém, mas tinham algo em comum: tendência a vícios. Ela o fazia sorrir e de algum modo mudou sua vida. Se encontravam em qualquer lugar, e faziam o que tinham vontade de fazer; buscavam lugares calmos e sentimentos variados. Vários, menos o amor.

Ele se conectou a ela de forma lúdica, ela o deixava viajar sozinho e voltar quando quisesse, o completou de uma forma que alguém jamais completaria.

O tempo passou, continuava o mesmo cara, mas se tornou ainda mais solitário, agridoce e com soluções rápidas pra sua dor. Ele e ela prontos pra qualquer coisa. Era só sentar, tragar toda a fumaça e pronto, já estavam preparados novamente, para ir onde quiserem. Dentro de um mundo só deles. As vezes o mundo era uma janela, quatro paredes e pingos de chuva, outras eram paisagens urbanas passando de dentro do carro. Mas isso não importava...

Talvez um dia, ele se aproxime de alguém, talvez as coisas possam mudar, mas há anos que não pensa em qualquer pessoa como mais uma noite, ou algumas. Quem sabe um dia... Hoje, ele só quer mais um trago antes de dormir.


Bianca Bruneto

Alguém com um pé em Minas e o outro no Sul, sendo cafés e chimarrão bem-vindos, a qualquer hora do dia. Escrevo como hobby e ainda sonho tornar isso uma profissão. Viciada em tatuagens, rock'n'roll e palavras..
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