Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

Edward Hopper, artista da realidade solitária

Edward Hopper, artista americano, retratou com muita realidade a solidão dos Estados Unidos do início do século XX. A solidão, o vazio e a perda de sentido do novo homem urbano parece aprisionada no tempo pelo pincel de Hopper. Ele, um artista que não seguia as tendências europeias de sua época, conseguiu perseverar no realismo sem perder de vista sua visão de um novo mundo que não lhe parecia próspero nem amigável. As cenas parecem paisagens caladas da vida de cada um.


gas-edward-hopper.jpg

No período entre guerras, os Estados Unidos do início do século XX se transformava rapidamente com a industrialização. As cidades mudavam, a vida mudava, as pessoas aprendiam a viver de modo urbano. Hopper, artista americano, observou as cores e figuras das noites e dias solitários e vazios dos americanos desta época. Realista, ele se preocupava em retratar fielmente uma cena. E é isso que vemos em suas obras: uma cena. Sem diálogo, sem movimento, uma cena solitária e cheia de sentido.

77Room_in_New_York.jpg

O isolamento de cada indivíduo, preso em si mesmo, se reflete nas paredes sóbrias, sem vida, que apenas compõem o cenário rebatendo a luz, produzindo sombra. O ambiente é vazio, um foco de luz, uma pessoa sozinha - às vezes triste - e alguma sensação de pausa no tempo. Justo no momento mais vazio de acontecimento. Vazio, solidão, apenas estar ali, existir, deixar a vida parar por um instante para pensar no vazio da vida urbana. Não há romances, sorrisos, um antes ou depois. Viver é parar no tempo da solidão. Ser urbano é ser só. (Ou seria estar só?) Mas um estado-de-estar imortalizado para sempre. O que fica é a solidão de cada um, não há cor capaz de satisfazer a consciência de sermos seres para a solidão.

hopper.nighthawks.jpg

Não há ninguém. Mesmo que compartilhe da mesma mesa de bar, cada um vive sua vida, ninguém compartilha. Na vida industrial não há lugar para trocas. Nas cenas com mais de um indivíduo a solidão parece maior. O foco de luz que desvirtua o olhar do homem nas sombras nos lembra quantos homens nas sombras que esquecemos de notar. Apenas não notamos. Notamos apenas nosso sentimento de vazio, mas não conseguimos compreender o vazio dos outros. A solidão não pode ser compartilhada, nem sentida, apenas vivida em conjunto, assim mesmo, sem entender.

edward-hopper.jpg

Um prédio vazio, uma rua sem ninguém. Mas eu sei que há pessoas ali, que não estou sozinho na cidade. A sensação é estranha. O estranho me faz mal, me assombra, me perturba. O estranho é uma pessoa, um vizinho, um companheiro, eu mesmo. Estranhos constituem a vida urbana, ninguém conhece ninguém, ou apenas sinto que não há ninguém. Pelo menos ninguém que me compreenda, ou que me complete. Estou só. A vida é um monólogo sem espectador. Ou, como retrata Hopper, uma cena noir sem texto nem companheiro. Mas há um olhar. O convite é para ele prestar atenção, sentar, olhar e sentir junto. O máximo que se pode fazer em um momento como esse - de solidão- é sentir junto. Silêncio, tem alguém sentindo. Parece que Hopper sussurra o silêncio na surdez de nossos ouvidos. E entendemos, pois também somos urbanos de vida.

edward-hopper1930.jpg

Hopper foi consumido pelo expressionismo abstrato. Ele, que morreu quase esquecido pelo mundo da arte em 1967, retratou sem infidelidades a vida urbana dos EUA do início do século. Sem novas abordagens artísticas, abusou da profundidade realística para traduzir a angústia do homem contemporâneo. Tentou, sem muita glória, permanecer realista após Pollock e seus companheiros gotejarem suas tintas. Mas não conseguiu pintar a realidade que havia sido transformada em fúria - que em Hopper aparecia calada. O mundo mudou e as pessoas aprenderam a conviver com a solidão. A solidão virou consumo das massas, que virou arte - pop, com muita ironia.

edward-hopper-morning_sun.jpg

Após a arte romper muitos limites, ainda há um quê de não-sei-o-quê que ainda perturba o homem pós-urbanização. A solidão ainda silencia as almas mais alegres. O vazio que não se preenche permanentemente é encontrado em cada vitrine de liquidação. Hopper ainda nos faz olhar e calar. Suas cenas cinematográficas nos conduzem para o voyeur que habita em cada um de nós. Não somos reconhecidos, mas reconhecemos. Estamos ali, mesmo sem estar - no edifício vazio, fora do foco de luz, ou mesmo olhando para uma janela que mais esconde do que mostra. Somos indiscretos de nós mesmos diante de Hopper e sua realidade solitária.


Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário. .
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x13
Site Meter