Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

Hirst, o Tubarão e a Arte segundo Arthur C. Danto

Hirst impressiona o público ao apresentar um tubarão em uma caixa de formol mas, o que é impressionante? Seus dentes afiados prestes a abocanhar o visitante desavisado, um morto tão vivo que chega a paralisar. Mas, porque esse tubarão é obra de arte e os outros - vivos e mortos - não? Hirst e o filósofo americano Danto - com sua teoria sobre a ontologia da arte - podem esclarecer essa questão filosófico-artística.


tubarão.jpg De acordo com o filósofo Arthur C. Danto, na obra A transfiguração do lugar-comum, uma obra de arte não está presa em sua aparência visual. Isso soa pertinente conforme sua formulação da teoria da arte pós-histórica, que diz que vivemos (desde a década de 1960) em uma era onde o pluralismo na arte é aceito e não há hierarquias nas artes em geral.A aceitação, pelo mundo da arte, de obras que entram em conflito com um objeto banal (como já visto com a “Brillo Box” de Warhol ou “A Fonte” de Duchamp) visualmente idêntico a uma obra de arte pode inspirar a questionar por que um é banal e outro obra de arte. Esse é o caso do tubarão no formol de Hirst, mais conhecido como a obra de arte intitulada “A impossibilidade física da morte na mente de alguém que está vivo” (1991).

O tubarão impressionou e impressiona muitos espectadores que entram em contato com ele, ou melhor, com esta obra de arte. Essa obra se constitui materialmente por um tubarão-tigre conservado por imersão em formaldeído dentro de um cubo de vidro que dá à peça a dimensão de 4,3 metros. O tubarão foi "congelado" no centro do cubo (que funciona como uma espécie de vitrine tridimensional) em uma posição que, embora não faça ninguém duvidar do fato óbvio de que ele está morto, provoca certa estranheza, já que causa a impressão de ter sido, digamos assim, apanhado em movimento.

Como pertencente à arte pós-histórica, como nos diria Danto, esta obra está partilhando da glória de ser uma obra de arte juntamente com outras grandes manifestações artísticas da história da arte. Em convenção com Danto, ter a ventura de estar no momento histórico certo, isto é, quando o mundo da arte estava aberto a receber obras de tal tipo, momento em que o artista é um homem de ideias e sentidos e não um gênio da técnica (ou no caso um pescador de animais marinhos de grande porte) e o mais interessante, a transfiguração já estava bem sedimentada como a pedra angular deste novo panorama histórico da arte pós Duchamp, Warhol e companhia. Com isso, o tubarão que nadava serenamente em busca de alimento não era uma obra de arte, mas quando entrou, mesmo após seu falecimento, em um retângulo de formol e sofreu a transfiguração de Hirst, que lhe conferiu sentido, não o deixando preso à aparência retiniana e lhe nomeou de “A impossibilidade física da morte na mente de alguém que está vivo”, aqui morre o tubarão e nasce a estrela, ou melhor, a obra de arte.

tubarao_hirst_01.jpg

A obra de arte exposta na galeria será alvo de interpretações, questionamentos, críticas e tudo mais graças a transfiguração que lhe ocorreu de ontem, um tubarão entre tantos, para hoje, uma obra de arte assegurada em sentido por Hirst. Isso porque para Danto e qualquer um que se disponha a pensar um pouco sobre ela, poderá observar que ele - o tubarão - é diferente ontologicamente do tubarão-Hirst. A ontologia que diferencia os dois tubarões pode ser descrita como a diferença que observamos ao tratarmos o animal e a obra de arte, os dois são intrinsecamente diferentes, mesmo sem saber que o tubarão-Hirst seja uma obra de arte, já o percebemos de outro modo. Sendo tudo assegurado pela visão do filósofo americano, que articula sua teoria como uma estética do sentido que tem por base a transfiguração. Hirst convida o olhar do espectador para ver a morte como vida. Será ilusão encarar a morte como algo morto, sem vida, sem movimento? Onde está o limite entre morrer e continuar o movimento?

A transfiguração teve seu ápice na arte pós-histórica, onde a reflexão e a filosofia da arte são objetos da própria arte, como podemos ver em Hirst e seus animais no formol, que é preciso um conjunto de fatores que asseverem a possibilidade de algo ser artístico, o diálogo com o mundo da arte e a propulsão de questionamentos mais do que um breve toque de Midas, seja do espectador ou do crítico. A obra de arte necessita de teorias, que o olhar se acostume a ver além do imediato, exige sensibilidade para emoldurar o objeto como obra de arte, exige do espectador disposição para olhar e ver, ou seria sentir?

Portanto, a pergunta suscitada em decorrência desta obra tão polêmica de Hirst, “‘O objeto da arte não é igual ao seu similar não tido como arte?’ se pode dizer que é a subjetividade do observador que confere esta diferenciação entre, por exemplo, um tubarão nadando e um tubarão exposto? E o tubarão exposto sempre foi obra de arte?”, conduz a uma elucidação acerca da teoria de Danto sobre a transfiguração. O tubarão hirstiniano não sempre-foi obra de arte, ele precisou passar pela fronteira da transfiguração - que fez do tubarão obra de arte, já que ele nada mais é do que um meio onde seu fim é ser tubarão (aparência). Quem dita o tom artístico é o artista que lhe atribuiu um sentido (e também um título). E, ainda, aos expectadores que entrarão pelas veias latejantes injetando interpretações, assim lhe deixando respirar por mais alguns instantes como obra de arte, como está sendo feito agora. E sobre a subjetividade do observador pode-se concluir que, por ser a diferenciação entre o banal e o objeto artístico ontológica, não dependente da aceitação ou reconhecimento do observador, mesmo que uma pessoa diga que “A impossibilidade física da morte na mente de alguém que está vivo” não é obra de arte ela continuará sendo, pelo fato de pertencer ao mundo da arte conforme explicitado anteriormente. Não se faz de um objeto uma obra de arte sem que o público esteja apto a reconhecer a transfiguração do objeto naquele momento.


Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário. .
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/// //Larissa Couto