Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

A zombaria da imagem: Roy Lichtenstein

A Pop arte de Roy Lichtenstein na série "Pincelada" da década de 60.


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O artista Roy Lichtenstein ficou conhecido por sua arte pop nos Estados Unidos da década de 60. Ele se opôs ao Expressionismo Abstrato por achá-lo erudito demais, com muitos pressupostos para apreciar algo tão cheio de significado que foge de um. O expressionismo abstrato distanciou muitos possíveis apreciadores por ser uma arte que tem como pré-requisito conhecer o objetivo de seus artistas, ou pelo menos porque estavam realizando aquilo daquele modo. O expressionismo abstrato queria ser uma arte "plástica, misteriosa e sublime", nas palavras de Robert Motherwell, isso sob o custo de ser uma arte para poucos, sem apelo ao público. Este movimento rejeitou o mundo ordinário, dos objetos, das banalidades, das formas corriqueiras, exatamente o que interessava à Pop Arte.

Roy Lichtenstein assumiu a Pop Arte como meio de realizar sua arte. Com sua postura crítica diante da sociedade americana das guerras e do consumo, ele expôs a visão do mundo - banalizado e falso - proposto pelas histórias em quadrinhos e propagandas publicitárias utilizando a mesma linguagem visual que esses veículos. Fez das cores primárias e das impressões baratas sua via de acesso para explicitar o que estava desapercebido pelo público que consumia ideias em produtos e produções.

Lichtenstein fez muito mais que apenas mostrar como as banalidades visuais de uma revista em quadrinhos e suas onomatopeias cegavam os olhos da mente para a realidade que estava nem tão contornada ou fantástica. Roy, como artista conhecedor da história da arte que era, realizou muitas séries em que remetia a outros artistas ou escolas/movimentos da história. Ele foi um artista que optou pela ironia, como todos adeptos da arte Pop. A ironia estava na visão de mundo, na escolha em ser o mais realista possível em uma sociedade nem um pouco realista - se a realidade diz que uma pessoa é um símbolo, que assim seja; se a vida é cor-de-rosa, azul e verde, que assim se faça. A Pop arte não negou a realidade que estava sendo apresentada pelo público em geral, ela não queria ensinar algo ou inventar teorias, ela tentava desvelar as banalidades cotidianas que estavam de tal modo consumidas pela realidade que poderia muito bem assumir a forma de obra de arte. O kitsch estava na arte e a arte nunca mais conseguiu negar seu lado negro, afinal ela também poderia ser o banal - como uma revista em quadrinhos ou uma caixa de Brillo. O belo cedeu espaço para o gosto duvidoso das coisas prazerosas - como a escolha de uma criança pelo presente mais colorido.

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Com todas essas artimanhas da arte Pop unidas a ironia de Lichtenstein, se produziu a série "Pinceladas", dos anos 60. Ele, em algumas obras, mostrou o que o Expressionismo Abstrato era, ou o que parecia ser, ou mesmo o que poderia ter sido. O gesto livre tão indecifrável para Pollock, a necessidade de gravar a máxima desse movimento - que tinta é tinta, nada mais - ,a consciência de revelar que a forma precisa ser vista sem a miopia do tema, afinal, o que importa é acessar o inconsciente para produzir uma obra expressionista abstrata, ou uma metafísica da pintura. Todas essas preocupações e formulações são tratadas na série "Pinceladas" de modo simples com um estilo que reflete seu criador: zombaria, técnica e banalidade. (Pode-se ler banalidade como algo que é corriqueiro ao olhar, que não espanta, choca ou comove, é uma linguagem habitual das coisas vistas.)

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A técnica utilizada por Roy é importante de ser compreendida para entender sua contribuição à obra. Ele fazia uso da técnica ben-day, um pontilhismo muito comum nas impressões de histórias em quadrinhos de baixa qualidade que o artista enfatizava em sua pintura para mostrar sua importância na obra. Essa técnica tornou e ainda torna a visualidade das obras muito comuns ao nosso primeiro contato, já que somos familiarizados com essa forma e nos remete a um cenário de realidade que habitamos virtualmente, a ficção das histórias de heróis. Essas obras, portanto, não necessitam de teorias que as façam sentido, elas já possuem sentido por si só, ou melhor, por sua técnica.

A banalidade das histórias em quadrinho, das cores primárias, dos contornos bem marcados são veículos de apresentação de uma forma tão complexa e nua quanto a pincelada. Muito carregada de sentido, de inconsciente, de liberdade, de revelações, mas transformada/ironizada por Roy quando a mostra como algo simples, uma preguiça do artista, um zoom, um começo, enfeitado e enfatizado, mas sem o peso que um expressionista abstrato via/sentia. Ele apenas apontou, riu e fez uma piada, algo tão complexo se transformou em uma banalidade - como um problema que se torna piada no dia seguinte.

A zombaria. Mas, onde está a zombaria? Pode ser um elogio. Mas que zombaria não é um elogio? Um elogio que incomoda, mas ainda uma via da admiração. O que Lichtenstein fez na série "Pincelada" foi mecanizar o gesto livre. Algo que deveria tirar as noites de sono dos artistas expressionistas abstratos - pensando em sua capacidade de ser fiel a liberdade do gesto - foi traduzido pela técnica de Lichtenstein que colocava cada ponto onde deveria, pensando e projetando todas as gotas, tamanhos e larguras. Digamos que ele observou um vício de linguagem e não prestou atenção no resto da fala. Roy Lichtenstein brincou com o que era sério e cheio de significado realizando uma caricatura do gesto livre.

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Larissa Couto

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