Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

O Beijo Cubista

Uma quadro tão enigmático quanto "O Beijo", pintado por Picasso em 1969, merece um olhar mais demorado sobre sua personalidade cubista.


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Beijar apaixonadamente, com amor, ternura e afeto, o beijo é um movimento que demonstra mais do que várias palavras ditas com perfeição. Beijar para revelar um sentimento, produzir intimidade, causar paixão. Contato físico sem razão, a postura de entrega para um outro que deve responder para ser um beijo. Emoção e contato, simples corpo no ato da explicação de uma declaração. Beijar é ser amado - pelo menos naquele instante.

O beijo geométrico, racionalizado, paralisado e a imobilidade no gesto de beijar é o desafio que Picasso converteu em obra de arte com seu "O Beijo" de 1969. Obra cubista, azul, de personagens com olhos abertos e uma falta de sensualidade que até "Os amantes" de Magritte não deixram escapar.

Um beijo melancólico, perturbador em sua suavidade. O olhar dela para ele, os olhos dele distantes e perdidos. Aquilo não está acontecendo, não é amor, há outro sentimento diante do sentimento. A melancolia do azul, já trabalhado por Picasso de modo triste e solitário, agora em harmonia com o cubismo - que enfrenta a realidade com sua geometria que revela a arte primeiro e a realidade depois, é preciso aprender a ver o cubismo - a mensagem é simples: isto não é real. Não é um beijo, não são amantes, não há paixão.

O azul, cor primitiva, sem mesclas, cor do céu e dos mares, da tristeza e da vastidão. O carinho que pode esperar, o beijo sem força, sem sangue, sem carne, a palidez do desejo que adormeceu nos olhos arregalados do homem que olha para além do momento, da mulher que espera uma cooperação do ato mais puro de intimidade sem ao menos entregar sua visão ao escuro das pálpebras. Picasso entendia de mulheres, de vivacidade, de sentimento, também soube sobre sofrimento, viu a guerra e a solidão, inventou o cubismo - depois de tanto criar - fez dele algo maduro, com princípios, inovador. Ele sabia que a realidade não é arte, que a vida não é para ser imobilizada. O cubismo foi sua epifania, ele traduziu a intuição de que uma obra de arte deve ser compreendida de modo diferente que a realidade, ela é algo a parte, com outros atributos, e, por isso, exige outra apreciação. Aprender a ver a arte como arte, e a vida como vida. A arte permanece enquanto a vida segue seus mistérios. É simples, portanto, só um gênio poderia perceber e compreender. Ele nos fez enxergar o que nunca havíamos experimentado: uma cena que saiu da realidade para ganhar outras formas. Nem tão abstrato, apenas sem perspectiva - onde o plano é revelado. As cores são fechadas, não é preciso fidelidade.

O beijo cubista de Picasso traduz a experiência da geometria na emoção. Tudo é pensado, é preciso estar disposto a ver de modo diferente, estar ciente do que acontece. A vida que está sem vivacidade, sem amor, sem sentimentos, sem fruição. Beijar como um gesto, não um ato.


Larissa Couto

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