Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

de Chirico, da Metafísica

Giorgio de Chirico e a pintura metafísica convidam para um olhar mais demorado sobre a obra Piazza d'Itália, de 1913. Como essa obra indicava o nascimento desse novo estilo que se opunha ao futurismo.


chirico1.jpg

Giorgio de Chirico (1888 -1978) e Carlo Carrà (1881-1966) fundam a "pintura metafísica" como oposição ao futurismo (dos fundamentos políticos e ode ao futuro das máquinas belas). De Chirico estava esboçando, em 1915, o que somente em 1917 se concretizaria: a pintura metafísica. O artista queria revelar a linguagem dos símbolos, da fuga do presente, da temporalidade, a metafísica que encontra a alma em sua presença sem tempo, rosto ou ordem. Ele não queria transformar a sociedade, mas o nosso olhar para a realidade.

De Chirico não inventa uma nova técnica propriamente, ele utiliza a luz e sombra de modo tradicional, expõe estátuas gregas (como acesso à sua interioridade que lhe fez grego de berço, um estar-em-casa para ele), as formas geométricas, a arquitetura já vista, nada que force o olhar para uma nova forma de fazer, mas para um novo olhar, o estilo que coloca todos esses símbolos em uma realidade que parece se descolar do cotidiano nos convidando a penetrar de novo no já conhecido. Não é preciso conhecer o já compreendido, mas compreender o conhecimento que está ali sem nunca antes ter se apresentado. Por tais complexidades criadas por De Chirico é fácil perceber porque sua obra influenciou o surrealismo e o dadaísmo. A linguagem onírica que nos projeta para uma outra realidade e a transposição do objeto (artístico, nesse caso) para outra fronteira, sob outra luz serviram de alimento para os que vieram depois.

giorgio-de-chirico-5.jpg

A obra acima se intitula Piazza d'Itália, de 1913, portanto, foi produzida pouco antes da invenção consciente da pintura metafísica, mas já revela o que estava sendo tensionado por De Chirico. A simplicidade e os poucos objetos não são menos complexos ou interessantes se vermos como o pintor nos convida. As cores vivas realçam a composição, os tons de terra parecem nos entregar a um deserto de cores vivas mas solitárias; as pessoas, o trem ao fundo e as janelas são escuros, parecem feitos de sombra, um diminutivo de vida, como que apresentasse o instante fora do tempo, a eternidade do não-movimento; a estátua no centro, aos pés da torre não tem forma, mas rapidamente a vemos como uma figura grega, de mármore, nossa memória trabalha sozinha para não nos deixar sem identificação, o símbolo da eternidade muda das estátuas de mármore, o instante calado que se petrificou e paga o preço da falta de movimento para ganhar o eterno, no jogo do tempo a eternidade somente é alcançada com a ausência de som, gesto e fisionomia. As sombras parecem derretidas no chão, a diluição do objeto nos caprichos da luz, a luz mostra, revela, vivifica, enquanto a sombra esconde, insinua, desfaz a certeza da identidade, afinal nem sempre é necessário identificarmos algo para termos certeza de que é real, um sonho pode confundir a racionalidade sem perder em realidade. A realidade aqui é outra, a razão precisa se submeter ao complexo, ao não-dito, inventar símbolos que nos deixem a vontade com a falta de objetividade. Tudo é real, mas a realidade é a eternidade do silêncio das formas aleatórias. A torre no centro é um ponto de encontro, o acesso à construção do sentido, ela apenas indica que não há conexões entre os objetos, é o local que olhamos para confortar nosso olhar com a ideia de que é apenas uma paisagem sobre ela, a torre, nada mais. O restante é vazio, aleatório, contingente, um local de passagem, sem permanências. O tempo não espera ali, não está ali, é preciso olhar para o vazio da cena e tentar tocar o instante. Os símbolos são apenas brinquedos para a razão, uma busca constante de retorno ao conforto do razoável. Mas De Chirico não nos deixa confortáveis por muito tempo, queremos e precisamos sempre especular. O pintor queria nos dizer, em sua linguagem artística, para ultrapassarmos os limites do humano, desbravarmos o subconsciente e nos apresentarmos à modernidade com a certeza de termos uma saída para dentro de nós mesmos, a fronteira menos explorada pelo homem até hoje. A última viagem deve ser solitária, silenciosa e para dentro da alma, o mistério é maior se for impregnado de nós mesmos. A metafísica está diante de nós, em cada fuga da materialidade que ousamos entender.


Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious //Larissa Couto