Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

Ao Escritor

Um sincero texto em homenagem a todos os escritores, reconhecidos ou não. Um singelo manifesto ao ato de escrever que modifica o nosso lugar no mundo e nos torna artistas da palavra e do silêncio.


Ao escritor que datilografa, digita, desenha a letra, do lápis, da caneta, da lapiseira, do papel, do guardanapo, da tela ou das paredes, àquele que apenas escreve ou aos que escrevem por terapia ou compulsão, meus sinceros cumprimentos.

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Escrever pode vir de dentro ou de fora, ser parte de si ou resultado de um afeto do mundo onde as pessoas dividem suas histórias e criam suas vidas. Escritor inventa, descreve, poetiza detalhes, mata e faz nascer, apaixona, casa, reza, come, morre, feliz ou não. Uns contam, outros deixam por dizer. Há quem goste de passar o passado a limpo, faz de todos seus escritos uma biografia com muito de si, enquanto também há quem invente gente, rua, espaço e tempo, aqui e lá, um faz-de-conta que aconteceu e acontecerá. Têm os que brincam de imaginar, convidam para o desconhecido, trocam confidências de mundos secretos, outros querem escancarar a realidade, a brutalidade de existir, a melancolia de desejar, afogam no mar do estar-aí.

Ler é um gesto, uma escolha, um talento. Um gesto porque exige do corpo as mãos, a visão, o olfato. Estender a mão para pegar, abrir, folhear, ver as letras, formar palavras, decifrar enredos, cheirar as páginas e os personagens, bom ou ruim, cada folha tem um cheiro de mancha de café ou de novo-em-folha. Uma escolha de ter o que fazer, de comprometer-se com o autor, com suas intimidades, com seus amanhãs, com as continuações e arcar com a consequência de descobrir o final, maravilhar-se ou envergonhar-se. Um talento para se deixar envolver no ônibus lotado em meio ao trânsito caótico com “o perfume da moça de vestido lilás” da linha 19 da página 87 do livro, talento para concentrar-se, para emocionar-se, para amaldiçoar e para suspirar a cada página.

Escritor brinca de deus, de diabo, de santo, de cientista, de professor, de criança. Poeta, o escritor que guarda a meninice de olhar o mundo sempre pela primeira vez. Romancista, o escritor que persevera paciente em sua narrativa, se deixa arrebatar pelas novas ideias, conversa com os personagens, conduz futuros. Cronista, o escritor de ouvidos atentos, usa mais a audição que a imaginação, gosta de brincar com o presente, conversa mais do que escreve, têm leveza e astúcia. Contista, o escritor com fluidez e tiro-certo, suas primeiras linhas já cativam o leitor, observadores e ótimos articuladores. Escritor é muito mais que essas definições, que rótulos, tipos, sobrenomes ou qualquer coisa que os objetive, pois para ser escritor é preciso viver. Não há imaginação maior do que conhecer o mundo e as pessoas.

Escrever pode ser um ato de rebeldia, um compromisso com a (in)sanidade, uma vontade voraz, um refúgio, um início ou um fim, mas o que se sabe ao certo é que escrever é um gesto de humanidade, porque quanto mais alguém escreve, mais tem que escrever e o quê escrever, a maturidade enobrece a escrita, vivifica a gramática, torna o ofício mais prazeroso e mais confrontador. Escrever é um caminho sem fim, solitário e sempre imperfeito. Dor, inquietude e solidão envolvem o escritor em seu processo, a inspiração que não chega, a ideia que foge, o silêncio inalcançável.

Deixar-se terminar um escrito é um voto de confiança em si mesmo, é um filho que nasce e um pai que não queria parir, é entregar sua nudez intelectual a qualquer um. Às vezes felicidade, orgulho, satisfação, outras medo, insegurança, desprezo. O amor e o ódio habitam o coração do escritor que se lê anos depois. Mas que maravilha poder ver-se como sendo outro, não se reconhecer, não entender o que queria dizer, ter a prova material de que mudou e que o tempo não o transformou apenas visualmente, mas também internamente. A essência? Isso é uma questão de estilo, alguns trocam outros não, porque escrever não é mais sério do que existir.

Escrever é para quem transborda em palavras, racionaliza, busca relações, analisa, forma imagens mentais, desconstrói a engenharia da realidade. Escrever é democrático, basta seguir algumas regras. Escrever é autoritário, as regras bloqueiam a livre escrita. Escrever é ambíguo, pode ser isso ou aquilo. Mas a poesia nos liberta de toda a aflição de tentar definir. Escritor de alma grande ou pequena encontra suas palavras nas pontas da percepção, escrever é diferenciar-se na igualdade.


Larissa Couto

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