Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

A Poesia e a Fenomenologia de Merleau-Ponty

A fenomenologia de Merleau-Ponty explorou novos horizontes sobre a expressão artística. Ponty visava a reflexão sobre um mundo antes do conceito, da ideia, um exercício de conciliação com a percepção e a sensibilidade. Nesse panorama a poesia têm destaque, pois traduz em arte o que a fenomenologia de Ponty desejava: uma mudança no modo de encarar o mundo e sua linguagem, um deslumbramento e uma redescoberta do que a linguagem pode expressar enquanto poesia.


"0 mundo percebido não é apenas o conjunto de coisas naturais, é tambem os quadros, as músicas, os livros, tudo o que os alemães chamam de um "mundo cultural". Ao mergulhar no mundo percebido, longe de termos estreitado nosso horizonte e de nos termos limitado ao pedregulho ou a água, encontramos os meios de contemplar as obras de arte da palavra e da cultura em sua autonomia e em sua riqueza originais." (MERLEAU-PONTY. Conversas 1948. 2004,p.65-66)

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Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo fenomenólogo francês, contribuiu com a estética (ramo da filosofia ligado a reflexão sobre as artes) com muitos escritos, com ênfase em seu conceito de expressão, que observado com as lentes da fenomenologia - filosofia que pretende o exercício de observar o mundo antes do conceito e da ideia, como um exercício de deslumbramento diante do mundo - auxiliam na reflexão sobre o exercício artístico. Merleau-Ponty era instigado pelas artes plásticas, o que o levou a escrever um ensaio sobre Cézanne (A Dúvida de Cézanne), já que admirava o pintor por fazer da pintura não um meio de vida, mas a sua vida. Cézanne com sua arte embrenhava-se na filosofia e fazia da pintura seu método de investigação do ser, o que cativou Merleau-Ponty.

Cézanne, Joueurs-cartes cezanne-joueurs-cartes.jpg

Merleau-Ponty observa a arte através da sua fenomenologia da percepção, isso quer dizer, devemos reaprender a entrar em contato com o mundo, precisamos fazer as pazes com a percepção, com o olhar, com a sensibilidade, com o mundo antes das racionalizações que fizemos dele. O mundo fenomenológico é muito mais propício à arte do que à filosofia, por isso a facilidade por compreender seu interesse estético. E, como bom investigador da linguagem - não poderia escapar da nuance contemporânea da filosofia - ele buscou na poesia, via análise fenomenológica, um caminho possível para o reencontro com o mundo permeado de palavras e suas objetificações, interessado na subversão que a poesia alcança utilizando a palavra, símbolo de racionalidade, contra (ou através) as significações. A poesia inventa mundos por permitir inventar novas significações às palavras, uma abertura a redescoberta do deslumbramento do mundo, algo que a filosofia fenomenológica intenta.

“Diferentemente do pintor, o escritor não parte do zero, como se tivesse de construir suas significações desde o início. Se, antes do quadro, os amarelos e os vermelhos, os pincéis e o traçado não querem dizer nada, além de um dado para o qual o pintor deve encontrar uma orientação plástica, antes do texto começado, o escritor já dispõe de significações conceituais realizadas, às quais pode retomar de forma resumida, em escritas diferenciadas, mesmo em outra língua. Ele se instala por entre signos já elaborados, num mundo já falante, ao qual, paulatinamente, vai dando outra forma, novo tratamento, de modo a integrá-los a um novo esforço expressivo. Por conseguinte, o empreendimento expressivo da obra poético-literária não se limita às articulações verbais que o escritor efetivamente realiza no presente da obra, mas abrange todas as outras articulações que, de maneira indireta, as articulações presentes requisitam, transformam, ou resumem. Ou seja, o empreendimento expressivo da obra poético-literária conta com um mundo já falado, desde o qual as novidades significativas são introduzidas e reconhecidas. Ele conta com a língua, com um “passado” de significações linguageiras correlacionadas, a partir do qual as novas significações podem aparecer.” (MÜLLER, Marcos José. Merleau-Ponty: acerca da expressão. EdiPucrs, 2001, p. 251)

"Já que a percepção nunca está acabada, já que as nossas perspectivas nos dão para exprimir e pensar um mundo que as engloba, as ultrapassa e anuncia-se por signos fulgurantes como uma palavra ou um arabesco, par que a expressão do mundo seria sujeita a prosa dos sentidos ou do conceito? É preciso que ela seja poesia, isto é, que desperte e reconvoque por inteiro o nosso puro poder de expressar, para além das coisas já ditas ou já vistas." (MERLEAU-PONTY. Signos. 1991, p. 53)

Merleau-Ponty viu em Mallarmé um poeta que conseguia alcançar em versos o que ele esperava da poesia. A ampliação da palavra, deixar a escritura falar por si, a tentativa de recolocar a palavra no mundo - depois de passar por uma vivência (um deslumbramento que consegue tencionar com esse mundo pré-conceitualizado) do sujeito - é o que Mallarmé parece conseguir, de acordo com Ponty. Desse modo, um exemplo ou, como permitiria a fenomenologia, uma vivência do que a poesia faz com o mundo e com a linguagem, um manifesto artístico-fenomenológico.

Portrait of Stéphane Mallarmé(Manet) Portrait_of_Stéphane_Mallarmé_(Manet).jpg

"Falar poeticamente do mundo é quase calar-se, se consideramos a palavra no sentido da palavra cotidiana, e sabemos que Mallarmé não escreveu muito. Porém, no pouco que nos deixou, encontramos pelo menos a consciência mais clara da poesia como inteiramente transportada pela linguagem, sem referência direta ao próprio mundo, nem a verdade prosaica, nem a razão, e, consequentemente, como uma criação da palavra que não poderia ser completamente traduzida para ideias; e porque a poesia, como dirão mais tarde Henri Bremond eValery, não é em principio significação de ideias ou significante que Mallarmé e, posteriormente,Valery se recusavam a aprovar ou a desaprovar qualquer comentário prosaico de seus poemas: tanto no poema como na coisa percebida, não podemos separar o conteúdo da forma, aquilo que é apresentado da maneira como se apresenta ao olhar." (MERLEAU-PONTY. Conversas 1948. 2004,p.64-65)

(...)"é preciso reconhecer o que há em comum entre Mallarmé e Rimbaud: ambos queriam “libertar a linguagem do controle das ‘evidências’ e confiar na linguagem para inventar e conquistar novas relações de sentido”. Assim, tanto para aquele que fala ou escreve, a linguagem não é um instrumento de comunicação que se contenta apenas em exprimir intenções dadas alhures. A linguagem não está pura e simplesmente a serviço das significações inertes e que não nos ensinam nada. A linguagem “é o próprio ato de significar”. Donde só podermos compreendê-la se nos instalarmos nela e se a exercermos." (Cardim, L. N., Cadernos de Ética e Filosofia Política 17, 2/2010, p.49)

Eventail De Mme. Mallarmé

Avec comme pour langage Rien qu’ un battement aux cieux

Le futur vers se dégage Du logis très precieux

Aile tout bas la courriére Cet eventail si c´est lui Le même par qui derrière Toi quelque miroir a lui

Limpide (où va redescendre Pourchassée en chaque grain Un peu d’invisible cendre Seule à me rendre chagrin)

Toujours tel il apparaisse Entre tes mains sans paresse.

(Mallarmé)


Larissa Couto

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