Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

Duchamp que estás na arte, nos dada A Fonte

A antiarte dos ready-mades de Marcel Duchamp. Como os objetos banais podem ser retirados de sua função utilitária e mudar a arte para sempre.


Duchamp (1887-1968) era um artista dadaísta, pertencia ao movimento que pensava que a arte deveria ser antiartística, inquietante e instigar um novo contato com o mundo da arte – menos santuário e mais ilógico, descartável até. O dadaísmo promovia a incoerência, pois atacava a crença de que a sociedade poderia solucionar tudo com o uso da lógica. O dadaísmo de Duchamp foi uma revolução dentro do próprio cenário revolucionário dada, porque ele colocou em questão a arte e o artista com seus ready-mades – objetos funcionais fabricados industrialmente exibidos com alguma ou nenhuma intervenção. O mais famoso dos ready-mades é o mictório intitulado A Fonte.

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(...) “o artista plástico francês Marcel Duchamp colocou um objeto escolhido ao acaso (um porta-garrafas) sobre um pedestal e o expôs. Jean Bazaine escreveu a propósito: “Esse porta-garrafas, arrancado ao seu destino útil, posto de lado, foi investido da dignidade solitária do destroço abandonado. Servindo a nada, disponível, pronto para tudo, vive. Vive à margem da existência a sua própria vida inquietante e absurda – o inquietante objeto, o primeiro passo para a arte.” (JAFFÉ. A pintura moderna como um símbolo. In: JUNG.O Homem e seus Símbolos . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 340)

Os ready-mades questionavam o que poderia ser considerado arte – arte, a partir de agora, seria o que o artista assim desejasse - além de confrontar o valor do material na sociedade que presenciava a Primeira Guerra Mundial. Os objetos que participam da ideia de propriedade, muitos com o qual é traçada alguma relação de afeto. Os objetos que são adquiridos, frutos de investimentos, outros que passam desapercebidos mas que são necessários, de qualquer modo não se imagina a vida sem objetos – afinal evoluiu-se com a marca do objeto fabricado, desde a era primitiva da pedra lascada e polida até hoje com o advento da tecnologia, nanotecnologia e afins.

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"Como você sabe, eu gosto de ver o lado intelectual das coisas, mas não gosto da palavra “intelecto”. Para mim, intelecto é uma palavra seca demais, inexpressiva demais. Gosto da palavra “crença”. Geralmente quando as pessoas dizem “eu sei”, elas não sabem, elas acreditam. Bem, quanto a mim, acredito que a arte é a única atividade do homem em que ele se mostra de fato um ser capaz de ultrapassar sua condição animal. A arte é uma forma de fugir para regiões não governadas pelo espaço e pelo tempo. Viver é acreditar, essa é a minha crença." (TOMKINS, C. Ducahmp - uma biografia, São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 437)

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Um objeto retirado de sua função não é mais um utensílio, torna-se um objeto enquanto relação com um indivíduo. Deixa de ser utensílio, cumprir com a função de ser somente útil, para elevar-se à abstração de ser privado de sua função para vir a ser um objeto de contemplação, forma pura. No caso das obras de Duchamp, como A Fonte, além de ser abstraído de sua função e deixar de ser um utensílio, ele é entregue à contemplação artística – um escândalo para uma sociedade que idolatrava os objetos de suas coleções e as máquinas tecnológicas que estavam proporcionando a guerra mas não atentava para os objetos banais. O artista dadaísta brincou com a arte e com o público, afirmou artisticamente que tudo poderia ser arte e que apreciar um mictório ou uma roda de bicicleta era possível. (Vale lembrar que A Fonte não foi aceita para exposição pelos críticos em sua época.)

A produção em massa já encontrava espaço na arte desde Duchamp, anos antes de Warhol expor suas caixas de Brillo. A arte havia iniciado sua libertação da técnica e do rigor que limitava e controlava quem era ou não artista, e, assim, também apontou para o trabalho dos críticos de arte e questionou sua função diante da arte e do público – agora era hora de uma nova arte e uma nova crítica, a interpretação e o questionamento havia abarcado a arte. O que Duchamp deixava claro é que suas obras não eram obras nem arte, mas mesmo assim instigavam o questionamento.

Depois de tudo, Duchamp abandonou a arte para se dedicar ao xadrez.

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Alguns sites interessantes sobre Marcel Duchamp: http://www.understandingduchamp.com/ http://www.marcelduchamp.net/index.php


Larissa Couto

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