Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.

Seymour Glass, o peixe-banana

Seymour Glass, personagem de J. D. Salinger, em um dia de férias na praia para se restabelecer do trauma pós-guerra que sofreu ao participar da Segunda Guerra Mundial. Alguns peixes-banana e um final impactante, o conto é uma confissão que não foi ouvida, como o telefone que Muriel não se apressa para atender.


J. D. Salinger (1919 - 2010) participa da juventude dos seres humanos com sua obra-prima The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio, 1951), um livro tão adulto que só consegue ser compreendido por adolescentes e sua juventude transviada. Um livro longe da moral, bons costumes ou romances com que os jovens devem aprender a lidar na idade dos hormônios e ideias de rebeldia. Aliás, é a rebeldia do anti-herói que conquista os jovens e lhes revela uma literatura libertadora, J. D. Salinger escreve a jornada (tão curta quanto sua idade pode suportar) do jovem solitário que tenta fugir dos males da vida.

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J. D. Salinger é também um contista famoso. Seu livro Nine Stories (Nove Histórias, 1953) reúne nove histórias, dentre elas duas das mais famosas de Salinger: A Perfect Day for Bananafish (Um Dia Perfeito para o Peixe-Banana)e For Esmé – with Love and Squalor (Para Esmé com Amor e Sordidez). O conto “Um dia ideal...” é o primeiro do volume de narrativas curtas, e apresenta um personagem significativo na obra de Salinger, Seymour Glass. O personagem é citado nas obras Franny & Zooey (1961), Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour: uma apresentação (1963).

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Seymour Glass, no conto “Um dia ideal...”, sofre de trauma pós-guerra por ter participado da Segunda Guerra Mundial. Ele fora paciente do hospital psiquiátrico do exército, de onde não deveria ter saído, sugere sua sogra no primeiro diálogo que é apresentado no conto. A sogra telefona para a filha, Muriel Glass, esposa de Seymour, que está de férias com o marido em um hotel na praia tentando ajudá-lo em sua recuperação. A mãe da moça se mostra muito aflita com a situação, a filha sozinha com o marido mentalmente perturbado e agressivo - conforme indica sua preocupação com a saúde física da moça.

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A apresentação que Salinger faz da moça Muriel no início da narrativa é curiosa: uma moça que não se afoba quando o telefone está tocando. Essa nuance de seu caráter se faz esclarecedora ao final do conto, principalmente sua falta de preocupação, talvez por estar de férias depois de tanto tempo, como sublinha, ou mesmo por ser assim, uma mulher que termina de pintar as unhas antes de atender ao telefone.

O segundo diálogo da narrativa se dá no encontro de Seymour com a garotinha Sybil Carpenter na praia. Sybil brinca com o trocadilho do nome de Seymour, see more glass, cuja pronúncia é idêntica à do nome do personagem principal, Seymour Glass. Esse diálogo, que conduz o leitor para o encontro com Seymour, o homem perturbado caracterizado pela sogra, se mostra um homem gentil que brinca no mar com a garotinha que brinca com seu nome - viu mais vidro. Ele dialoga com a criança, não é rude, ao contrário, é lúdico, entretém a mocinha de maiô amarelo - que Seymour confunde com a cor azul, fica clara aqui a sua confusão mental, mas longe de ser o maníaco da conversa entre mãe e filha. Ele inventa uma história sobre um tipo de peixe para a menina, o peixe-banana que dá nome ao conto. Seymour diz que são peixes que comem bananas, comem tanto que parecem porcos, e por causa da sua gula ficam tão gordos que não conseguem mais sair do buraco onde entraram, e acabam morrendo. Seymour Glass brinca com a menina que procura por um peixe-banana, um peixe com algumas bananas na boca. A menina vai embora, volta para o hotel, Seymour faz a mesma coisa.

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Essa história dos peixes-banana dentro narrativa é considerada uma mise em abyme, uma história dentro de outra, mas ela revela mais que o título do conto, ela conduz o leitor para o final impactante. Seymour se revela um peixe-banana, a história com que entreteve a menina e o leitor fora uma dica, um aviso singelo. O peixe que vai para o buraco poderia ser entendido como a guerra para onde fora levado, onde agiam como porcos, nutrindo-se de algo que foge à sua natureza - a morte - de onde não conseguem sair a não ser pela via mais trágica: a morte. A mesma morte que lhes nutria é sua salvação do buraco.

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O conto não é um suspense, mesmo que ao final o leitor se sinta traído por não ter sido preparado para o desfecho que lhe aguardava. A narrativa não se revela em um tom crescente, mesmo contendo dois diálogos. Ao final, os diálogos se fundem na construção do personagem que é gentil e agressivo, afinal, um soldado que sofre um trauma com a guerra não pode ser considerado um psicopata, pois ele compreendeu a ferocidade do ser humano sem entregar-se a ela, mas tendo que aprender a lidar com a situação à sua maneira. Ao final, o que se compartilha com o personagem é sua confissão, a impossibilidade de viver com a marca da guerra – compreendida pela tatuagem que em algum momento do conto é descrita como uma alucinação do personagem e que ele não deseja mostrar, aprisionando-a em seu roupão mesmo estando na areia da praia. No final tudo faz sentido, como no instante em que se chega na causa da morte dos peixes-banana até seu nome (peixe-banana) faz sentido, como o nome de Seymour Glass, see more glass, glass pode tanto ser traduzida por vidro como pela palavra espelho em português, ver mais espelho, ver com/através do espelho, ver-se sempre como estando diante de um espelho, o que pode ser mais perturbador do que viver encarando-se, pois a única coisa que se pode passar uma vida sem conhecer é a própria face, a própria identidade, seu (re)conhecimento, essa ignorância é a alternativa da natureza para salvar da loucura de contemplar a si sem poder ter a si - o eterno conflito de narciso de que o único fim é a morte. Como os peixes-banana, entregues a sua condição não-natural de comer bananas, Seymour é prisioneiro de seu trocadilho vil, um homem condenado com um único fim possível.


Larissa Couto

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