tribos lÍquidas

Multifacetado, líquido e movido a café.

Martha Terenzzo

Multifacetada, porque a vida é um universo de possibilidades em meio aos cafés e livros que carrego

TRANSPIRA, RESPIRA, INSPIRA, CRIA.

O que te inspira...? Há muito tempo pesquiso o tema Criatividade e essa busca continua. Nessa trilha decidi que tinha primeiro que perguntar a mim mesma: O QUE ME INSPIRA?...E com certa dose de ansiedade e angústia para escrever esse primeiro post para Obvious, destravei algumas possibilidades.


O que te inspira? Quantas vezes perguntamos isso para as pessoas que achamos muito criativas e geniais? Como será que vem esse click, esse átimo de ideia que se transforma em criação para alguém?

Segundo Borges, todas as historias narradas do mundo podem ser identificadas em quatro tipos:

- A historia de uma viagem - A historia de uma pesquisa - A historia de uma cidade sitiada - A historia do sacrifício de um deus.

Acho que a questão que trago aqui se encaixa na segunda alternativa. Muito tempo trabalhando com inovação, mas nunca me achei criativa.

Sabe aquela pessoa que precisa estudar muito, ler muito, prestar muita atenção em tudo e assim mesmo tem uma nota mediana? Pois é, fui assim à vida toda, esforço, transpiração e um trabalho grande para fazer as coisas como imaginava e desejava.

Enquanto alguns colegas tinham grandes sacadas e ideias geniais, eu me esforçava bastante para ter alguma ideia. E elas nunca eram as melhores e criativas. Assim durante a vida, e apesar de ter trabalhado sempre com Comunicação, a questão me acompanhou. Afinal da onde vêm as boas ideias para os geniais e criativos?

Dois livros interessantes ajudaram a entender algo:

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Um vídeo ilustrativo explica que as boas ideias não surgem de um momento único como uma lâmpada que brilha sobre nossas cabeças. As ideias demandam tempo, às vezes muitos anos e precisam ser incubadas. Com regularidade encontram outra ideia, e se transformam numa terceira ideia até se tornarem ideias fantásticas.

Veja o vídeo do lançamento do livro do Steve Johnson: http://www.ted.com/talks/lang/ptbr/steven_johnson_where_good_ideas_come_from.html

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Outro foi O Efeito Medici, do Frans Johansson, que explica a interseção das ideias dos mais variados campos de conhecimentos e culturas. A interdicisplinaridade é uma resposta e elucida sua hipótese a partir dos gênios criativos do Renascimento da Era Médici, em Firenze, Itália.

No decurso dessa trilha comprei livros, vi palestras, conversei com muitas pessoas. Cada um tinha uma resposta, um modelo ou aparentemente nenhum.

O fato é que não havia um método único. Mas esses grupos criativos existiram e continuam a existir, e eu ainda não sabia como identificar meus pontos de intersecção, de choque, relações factuais e de afinidades sólidas. Num tratado sobre o tema, Domenico Demasi em seu livro Criatividade lembrou-me:

"O importante é que cada homem saiba brincar com o tempo que brinca de modo criativo, sem se esquivar aos seus dons".

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Senti-me bem com tal sugestão. Alguma vocação deveria ter para criar. Iniciei a auto pesquisa. Detectei inicialmente que minhas ideias eram retas, iguais, germânicas, disciplinadas, repetitivas e longas. Até tediosas...

Eu precisava de muita informação, muita pesquisa e conhecimento para transformar algo. Transpiração excessiva para inspirar. Além disso, havia uma bebida frequente. Acompanhada de conversas das mais diversas. O café. Cérebro estimulado por cafeína e histórias de pessoas sempre inspirou.

Muitas das ideias e soluções que tive nasceram dessa química e foram ressignificadas para dar forma a outras ideias. Retrabalhadas.

Vi que tenho até hoje um velho hábito de recortar, guardar, armazenar tudo e toda informação que me interessa. Fragmentos de imagens, frases ou coisa que o valha para ler algum dia. Não bastasse a quantidade de livros, exagerada e quase compulsiva, existem as folhas arrancadas. De jornais, revistas internacionais e até aquelas de bairro. Mas sempre algo novo a conhecer.

Isso levou a mais uma parte da história. Os assuntos eram diversos, nada lineares e retos, nada disciplinados como eu achava. Eram curiosos e cheios de intersecção e choque. Interdisciplinares. Latinos e misturados. O que gerou uma crise de autoanálise pela imperfeição em que me vi nessa história.

Se tanta coisa me inspirava e eu não era linear, essa devia ser a razão de eu não me achar criativa e nem entender da onde vem às boas ideias para as pessoas. E para mim.

E foi assim que destravei esse texto e criei coragem para a confissão da história de vida e dessa pesquisa. Para criar algo preciso de repertórios dos mais diversos. Todos meus sensórios aguçados e acordados para o desfrute de criar. Nada é estranho e tudo pode ser apreciado, mesmo que não agrade e choque. De blogs, feeds, livros, recortes, conversas, música, filmes e histórias de vida, tudo inspira. Curiosamente existem musicas que me auxiliam mais:

http://www.youtube.com/watch?v=4F0ytNzHDj8 The Central Park Concert – 2004

Essa última serviu especialmente para entrar em um estado catártico e finalizar dois anos de mestrado sobre Consumo e Juventude.

Como uma antiga câmera fotográfica, vou registrando e depois redesenhando, pintando e transformando.

E que fique bem claro não sou música, nem poeta. Tampouco das artes plásticas. Minhas criações são banais, ainda que importantes. Dou aula, palestra, tenho duas empresas pequenas. São construções cotidianas para uma vida cotidiana.

E no resgate de Demasi, sobre vocação, descubro que sou uma exploradora de assuntos. Os assuntos inovadores e que virarão tendência, entram no meu radar periférico com antecedência, o que me dá uma vantagem criativa ao construir assuntos e novos temas.

Certa facilidade para antever o futuro próximo e nenhum estranhamento com assuntos que desafiam o homem e a tecnologia. Tenho um caso poligâmico com escritores falecidos de ficção cientifica como Isaac Asimov e Ray Bradbury. Alguns desses livros foram escritos nas décadas de 50 e 60, retratam contextos de época, mas com uma visão ou imaginação de um futuro distópico, mas possível. A ficção cientifica inspira possibilidades diversas e às vezes tão literalmente absurdas que geram ' 'abertura da mente' para o novo, o improvável e de facetas que não precisam ser verdadeiras ou factíveis no presente. Trata-se do futuro, de uma perspectiva diferente, sob um olhar diferente de algo que não precisa ser comprovado aqui e agora.

Meu brainware tem dois fatores para inspirar e criar: o ambiente em que vivi e convivo hoje-que sempre foi diverso e multifacetado e o cultural-nunca perdi o costume de questionar, de explorar novas técnicas, modelos, ideologias e novas linguagens. Há uma alimentação e fusão entre esses que sugere que quanto mais eu absorvo desses repertórios e contextos, mais eu me inspiro e consigo criar.

E para tanta transpiração ser mantida, aquecida, estimulada, e continuar engrenada e funcionar, boas doses de café puro, quente servido em xícaras pequenas e próprias (confesso que cafés em copinhos de plástico desestimulam). Uma pequena pausa, uma respiração profunda, e como uma ignição, num dos goles a mente se acende, busca os repertórios registrados de tantos e tantos anos, e mistura tudo para o momento. Mais um gole. Boca e língua aquecida, o café desce suavemente pela garganta. Vêm à inspiração.


Martha Terenzzo

Multifacetada, porque a vida é um universo de possibilidades em meio aos cafés e livros que carrego.
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