tribos lÍquidas

Multifacetado, líquido e movido a café.

Martha Terenzzo

Multifacetada, porque a vida é um universo de possibilidades em meio aos cafés e livros que carrego

HISTÓRIAS SOBRE HUMANOS E SUAS DORES COMUNS

A dor na alma exposta, a verdade humana de todos nós e a depressão nos dias de hoje. Quem não teve ou não conhece alguém que ama que tem?


“Se você acorda sem sentir nenhuma dor é porque está morto” - Extraído do livro de Andrew Solomon sobre frase popular russa

Quer que eu fale uma verdade desses tempos líquidos e modernos? Não podemos ser fracos. Não podemos ter dor. Somos todos heróis. Ou devemos ser. Vergonha de ter a dor, de mostrar as fissuras que corroem nossa alma. A vida repleta de tristezas no mundo todo dói em mim. Eu heroína para muitos, muralha e fortaleza, tenho dores, muitas. A maior de todas, aquela que é chamada de bobagem, de pequena, frescura e tantos outros estereótipos. Psiquiatras chamarão de depressão. Religiosos podem denominar como falta de fé. Eu não chamo. Eu sinto a dor na alma. A melancolia sempre rondou minha alma, desde criança, e talvez para Freud eu não tenha tido o processo de luto completo, mas houve perda. Aprendemos pouco sobre perdas e quando elas vêm não sabemos como lidar. Esse ano na FLIP-Festa Literária Internacional de Paraty, assisti à palestra de Andrew Solomon, um depressivo incurável, que estudou sua própria dor e fez uma vastíssima e maravilhosa pesquisa sobre o tema. O livro, não é apenas um tratado sobre o estado da depressão. Ele não é médico, tampouco filósofo ou cientista. Ele é escritor, romancista e tem depressão. E assim decidiu estudar tudo a respeito e compilar, sintetizar e entender o processo histórico, social, biológico e químico. Solomon racionalizou seu processo para entender a si próprio. Ao ver aquele homem falando, tão frágil, tão exposto com tantas rachaduras na alma, me ocorreu, como temos medo de ser frágeis e humanos. Sua verdade humana e simplicidade cativaram todos que ali ouviam sua história. Quem teve ou tem alguém que ama com depressão sabe do que estou falando. O livro é denso, duro e dolorido. São 579 páginas de sofrimento e riqueza de informações importantes imprescindíveis para aqueles que querem enfrentar a doença.

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http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=80224

Fui criada numa casa simples, mas grande, cercada de árvores, passarinhos e natureza contemplativa. Os fatores que levaram a ter crises de depressão podem ser vários e em muitos momentos marcantes de minha biografia.

Talvez a primeira separação dos pais, talvez a volta dele alguns anos depois. Com certeza a perda daquele vilarejo e aquela casa onde cresci:

https://www.youtube.com/watch?v=r2TmHOgZQBI

Relacionamentos nem sempre bem sucedidos, empregos estressantes, casamento rompido, cirurgias físicas, perda de amigos. A minha caminhada encontrei, perdi, ganhei. Por último o trauma da perda de uma parte de minha coluna. Minha espinha dorsal se foi sem avisar, fora do contexto. Não mais portas e janelas sempre abertas para a sorte entrar, nem o pão e nem flores enfeitando os caminhos e destinos. Proclamei a virtude da justiça para acalentar minhas dores da alma e das dores de todos que amaram essa mãe. A justiça é o horizonte de todas as virtudes e a lei de sua coexistência. Para mim faz às vezes da felicidade, pois ao existir e ser aplicada pode viver na Terra, lembrando um pouco de Kant.

Minha mãe energizava de forma energética. Não esmorecia, fazia seu caminho e palavreava frases soltas. “... nada dessa vida se leva”. “... aqui se faz aqui se paga”. “... um dia após o outro”. Sua ultima frase comigo foi “para morrer basta estar viva você pode ser atropelado na esquina de sua casa e não voltar mais.”.

Foi assim que perdi Sofia, numa manhã cinza de sábado, as 7:15 hs de 18 de setembro, há quatro anos. Sofia, a filosofia e sabedoria de mãe, profetizou sua ida para outro lugar. Com essa perda vi de frente a dor maior da alma. As crises anteriores não eram nada. Sua falta, sua ausência e a falta da justiça dos homens e pelos homens, destruiu parte de mim. A depressão tratada a medicamentos, terapias e todo tipo de alternativas ainda me custam muito. E sempre que me recordo desse como somos humanos, a cena do filme As Horas, inunda minha mente com emoções sobre a perda e a fragilidade de todos nós mas como somos condenados a ser forte e heróis:

ashoras.png

https://www.youtube.com/watch?v=he8cR7skklA

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11061

A dor de alma nunca é esquecida, ela impregna ,dá novos contornos e é transformada e transformadora.

Dias cinza e nem por isso menos belos. A chuva quando cai lava os resíduos de graxa e gordura que entopem minhas veias. A dor da alma fortalece, torno-me uma pessoa melhor, enriqueço na jornada. E nesses momentos de dor de alma, caminho e sigo cantando: “Pra acalmar o coração Lá o mundo tem razão Terra de heróis, lares de mãe Paraiso se mudou para lá”.


Martha Terenzzo

Multifacetada, porque a vida é um universo de possibilidades em meio aos cafés e livros que carrego.
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