Bernardo Leso

Quase ileso.

Sem ti, mentalismo

Artistas são seres capazes de captar sensações e transformá-las em expressões que comovem. Comovem? Mas como? Mas como vêm? Afinal, o que está por trás de composições que varam os anos? Onde se esconde a genialidade artística?


Harrison_and_Clapton.jpg

Eis a dúvida. Uma dúvida que consome a paciência. Corroi o pensar e intriga, cada vez mais, à medida que se percebe que herois morrem de overdose e se canta músicas de pessoas mortas. Pessoas cantam, todos os dias, músicas feitas por pessoas que já se foram. E isso é triste: nunca se saberá, de fato, o que levou eles a comporem as músicas que mexem com essas pessoas. Veja bem, existe a interpretação pessoal sobre as músicas. O que está muito bem. A gente conhece alguns fatos ocorridos. Mas a vida pede mais. What do you do when you get lonely, hein Patie? When your old man, George, let you down? Quais os segredos de liquidificador entre Cazuza e Frejat. O que esses caras sentiam realmente quando escreveram isso? É necessário entender o segredo das composições: são mentiras sinceras, são representações fiéis dos sentimentos? Seria ótimo entender o mistério, senão… gata me liga, mais tarde tem balada.

Não é absurdo partir do princípio que toda composição é uma reação. Uma reação. Um reflexo, um embaraço de atitudes que respondem a um estimulo. Não é absurdo. É uma ideia não parece ser absurda. Porém, as composições que restam, que duram: seriam elas um reflexo dos estímulos, das situações ou abstrações desses reflexos formuladas de forma a deixar as pessoas em uma nebulosa de dúvidas e suposições? Seriam reflexos dos reflexos? Labirintos sem saídas ou com múltiplas saídas? Porque elas restam?

Conforme se divaga sobre uma música, tem-se uma interpretação sobre ela, impõe-se a própria percepção de tal modo que, talvez, a ideia que o autor quis passar não seja encontrada. Então, resta tentar entender se o autor queria, de fato, propor a dúvida, ou as pessoas é que se atrapalham e começam a imaginar coisas sobre a composição, enquanto o autor não estava nem se ligando durante o encadeamento de palavras.

Aqui entra uma outra ideia. Essa sim: talvez absurda. As pessoas gostam daquilo que podem entender, mas, acima de tudo, gostam muito mais daquilo que lhes é incompreensível. Aquilo que não entende parece ser mais atrativo e durável. Já que estimula a reagir de formas jamais antes imaginadas. É o gênio que causa essa espécie de estimulo. Por exemplo, como é que você imagina aquela que vem e que passa? Como é o seu doce balanço? Qual a paisagem que aquela melodia desperta?

Então é isso, a genialidade do lance mora no fato de que, durante a composição, o artista vai se abrindo para outras pessoas, as quais, ao entrar em contato com a obra, poderão tomar o seu ponto de vista e se tornarem o próprio artista, conforme elas aceitam o ponto de vista. O artista se abandona enquanto compõe. Faz de si objeto de observação e logo, objeto pertencente aos observadores. Os observadores se tornam o objeto observado. Ou seja, a composição. Porém, tomar o ponto de vista de um artista pode ser uma tarefa fácil ou difícil. Vai depender de como o artista se expõe dentro da sua composição. E quanto mais difícil de se colocar no ponto de vista do artista, quanto mais possibilidades existem, mais isso da tesão pela arte em questão.

As pessoas gostam de músicas populares efêmeras. Mas de um modo mais simples, mais ligeiro. É muito fácil se colocar no lugar do motorista do Camaro amarelo e entender o que ele quer dizer (quase nada). E não tem muito mistério. Elas não propõem uma reflexão tão profunda. É assim que são entendidas essas musicas populares com data de vencimento.

O problema é que nunca se saberá, de fato, se o compositor quis abrir diversas portas de interpretação ou ele nem tinha pensado sobre isso. A partir da hipótese de que o que ele criou seja fruto de uma dada situação, então se pode imaginar que, independentemente da forma como ele se expresse sua mensagem, seu ponto de vista estará lá. Mas e se o processo não for fruto da situação? Então tem alguém de brincadeira no comando do universo. Será que Ludwig van Beethoven pensou nas consequências das suas sinfonias? Não querendo polemizar com dogmas da música, mas, se imaginássemos a nona sinfonia como um quadro, será que esse quadro faria sucesso assim como a musica? Veja bem, é uma expressão da mesma situação, porém apresentada de outra forma.

Finalmente, onde nasce a composição?

O que será que George Harrison disse pro Clapton, quando ouviu Layla? “Nossa, que som é esse?! Qual a inspiração pra essa letra?” E o Eric gagueja. Sobe um sentimento de culpa? De traição? Uma das músicas mais respeitadas do rock tem origem na mulher do amigo. Sera que o Clapton pensou nessa culpa ou “fuck this shit”, deixa pro pessoal pensar nisso depois: “George, camarada, essa musica é pra uma menina que eu conheci ontem no show”. Pode-se imaginar que a música era pra Patie Boyd, mas quem garante?


Bernardo Leso

Quase ileso..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// //Bernardo Leso