Bernardo Leso

Quase ileso.

A mulher em Chico

O que chora dentro de uma mulher? Esqueça a superfície e mire no fundo, como faz para tirar dos aspectos reais do cotidiano, substância aderente à mágica de quem só enxerga o brilho nos olhos? É o que se encontra na música de Chico Buarque, ou que se esconde.


Não é uma questão de inspiração ou fonte de conteúdo. Cada mulher contém em si uma percepção única que foge das páginas das revistas ou jornais. Sim: pode ser fruto de revistas e jornais, mas chora algo muito maior do que o superficial das notícias periódicas. É periódico, cotidiano: é algo demorado, precioso, cuja validade não está no que se vê, mas no que sente.

Se cada mulher é um universo a ser explorado, qual seria o melhor método de exploração? Talvez deixar o romantismo de lado e observar aquilo que queima que demora a deglutir, que impele o choro e versa gotas de uma realidade que não queria ser. Uma realidade que, mesmo escrita, não quer ser. Quem já não se enganou nos versos de Chico, versando frases e explorando metáforas que descortinam algo tão evidente e tão imperceptível?

Dessa forma, a partir de uma valorização da mulher através dos olhos de um homem que sabe se colocar como promotor e promovido dentro do contexto exploratório feminino é que o autor consegue emendar pontos reveladores da vida cotidiana em uma trama de versos.

Pois, da quantidade de mulheres escritas por Chico Buarque, me ocorreu de falar justo dessa, a mãe do guri. Olha aí. Ressalva: é muito difícil escolher. Se tratando de mulheres, muito mais difícil: observe a quantidade de características diferentes em cada universo; tantos motivos que riem tantos motivos que choram: nunca os mesmos. É muito difícil. Tal dificuldade se transfere também para as mulheres Holandesas. Gente, a sem açúcar, o vi oleira, a que faz tudo sempre igual, as gregas, as noiva do caubói, ou mesmo as outras três. Muito difícil. Prefiro me abster da responsabilidade e ficar com a mãe. A mãe deve ser sempre a primeira opção. Nesse caso, também.

Das estrofes de “meu guri”, emerge a história de uma mulher marginalizada que vê no acaso do filho que nasce sem querer, a oportunidade de ir pra “lá”, de conseguir uma condição melhor de vida. Uma mulher perdida no constrangimento de empilhar todas as fichas na vida exterior de um filho rebentado é surpreendida por um caso de sucesso (“e ele chega”). Uma mulher confundida por um suor de trabalho que é de fuga da polícia; que mal supõe o responsável pela onda de assalto estar um horror. Uma mulher inocente, que confunde a morte do filho com um momento de um menino lindo de papo pro ar. Que enxerga nas manchetes do jornal um alvoroço extremo pra tão pouco caso. Isso é demais, seu moço. Afinal, ele disse que chegava lá. Não disse? É tão óbvio.

Essa não é uma mãe de uma propaganda de fraldas, certo? De fato, não é. É uma mãe. Mãe normal. É um Chico. É uma mulher que chora que sente que corta e sangra. As mulheres passam por Chico Buarque como se fossem uma brisa. Dá pra ver a arquitetura na composição das frases, mas dá pra notar que as mulheres não são frutos de pensamentos. São sentimentos. Finalmente, os versos sentem como sentem as mulheres.


Bernardo Leso

Quase ileso..
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