Bernardo Leso

Quase ileso.

Efeito Tarantino

E se a complexidade do xadrez fugir do tabuleiro e invadir a complexidade cotidiana dos nossos afazeres? Mais ainda, o que acontece caso nossa vida invada o preto e branco do tabuleiro? Finalmente, quão estanque é o preto e branco do xadrez?


A chess game

O jogo de xadrez é uma aula sobre a falta de ingenuidade disfarçada de cordeiro. É a tese e a antítese, sem travessia, sem síntese. É um problema na vida da pessoa. Xadrez é o problema do problema: o que eu quero dizer é que a partir do momento em que você conhece o xadrez, você está em xeque, com grande possibilidade de ficar assim pra sempre.

Primeiro é a ânsia de movimentar. Peão, básico, pra frente e come na diagonal. Torre flutua nas coordenadas cartesianas, enquanto o bispo corta em movimentos diagonais. O cavalo cumpre a parte insana do enredo. Rainha, the masterpiece, faz o que quiser, enquanto o rei, a contradição: the fat oldman, brocha. Agora você sabe movimentar as peças, você sabe tudo sobre transações enxadrísticas: é o ninja dos lençóis, aliás, do tabuleiro.

Em seguida é a queda do rei. Você toma seu primeiro xeque do pastor. Você é precoce demais e perde rápido: enjoo. Não sabe se defender, não sabe atacar. Sabe movimentar as peças sem coordenação. Você não manda nas peças. Você se tornou refém do deslumbre de fazer parte do tabuleiro e descobriu que, de brinde, é refém das peças. Você perdeu a inocência: descobriu que xadrez não é só movimentar as peças. Sai de casa e vai pagar a conta de luz para esquecer.

Lição: dissimular é preciso. Preciso de precisão e preciso de necessidade. Dissimular é preciso ao quadrado. Afinal: xadrez é um incidente em Antares, em que está tudo à mostra, mas ninguém sabe o que o outrem esconde por baixo da epiderme. No tabuleiro não há nada a ser escondido, as intenções estão na mesma mesa abraçadas com as hipóteses, entretanto você não pode traçar uma linha reta e lançar um míssil em direção ao rei oponente. Lembre-se: há uma pessoa do outro lado a ser considerada.

Você incorpora a essência de realizar jogadas dúbias que tiram a certeza do adversário sobre os próximos movimentos. Você manda nas peças. São movimentos que propõem a dúvida. Que geram confiança e desconfiança: o adversário pensa que entende o que está acontecendo, tem uma confiança em algo. Entretanto o que acontece não é aquilo e foi você que o levou a acreditar nisso, sendo que é exatamente o oposto. Você se tornou confiável até sob a hipótese de estar promovendo o caos. Você se tornou heterodoxo, com uma carapaça ortodoxa. Sun Tzu teria orgulho de você, pequeno gafanhoto.

Enfin, entendeu a complexidade do jogo (ou acredita que entendeu). É o gênio do fel da questão. Sabe todas as formas de matar o rei. Porém, em um jogo qualquer, um jogo casual, uma oportunidade ao acaso: a epifania. É impossível executar sua majestade portando apenas um bispo e uma torre. Reincidência: é impossível dar xeque-mate somente com um bispo e uma torre. Você perdeu a inocência outra vez. Enfim: não tem controle sobre todos os cenários possíveis. Você agonizou diante da impossibilidade de ganhar o jogo diante da existência limitada do seu eército. redefinição de agonia: se não tiver o aporte necessário, é melhor se entregar.

Lição: a vida não é um jogo de xadrez. É o efeito Tarantino. Você pensa que está no controle, mas na verdade você é uma peça no jogo dos outros. A ilusão da dúvida te consumiu. Aos poucos, enquanto era promotor da angustia e indecisão, tornava-se dúvida. Não existe tal objetivo de capturar o rei, não há objetivo dessa magnitude. O xadrez te enquadrou na atmosfera preta e branca cruel dos objetivos. A vida não transa com você. Ela transa com o Tarantino usando seu corpo. Você não joga xadrez.

*Créditos a Jakub Kadlec pela imagem, "A chess game".


Bernardo Leso

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