Bernardo Leso

Quase ileso.

A labirintite do fauno

O que é o texto senão uma resposta? A resposta acabou sendo um texto, Talvez alguém escreva o texto inicial. Não existe. Ou existe?


Digo não ao seu pedido de casamento. É um texto. Era pra ser apenas um texto. Não queria comprometer nem um inseto com o que eu escrevi, mas acabei mal prevendo meus exageros de linguagem. Sinto muito. Não tenho mais muito para dizer agora e acredito que nem valha a pena dizer algo. A não ser que consideremos outra hipótese: a do equilíbrio como equivalência da existência da dualidade e não na comunhão na unidade. Aí, talvez eu tenha ainda um pouco para contar.

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De fato, eu não sei como aconteceu. Eu estava totalmente ébrio, vacilante, embriagado, totalmente dominado pelos meus impulsos, não sabia muito bem como me proclamar até que tomei um café, expresso: saiu a tua iluminação dos meus dedos e eu te guiei como um chá de cipó para novos interesses, novas decisões. Te guiei? Não sei como isso aconteceu. Você começou a ler e encaixou o olhar no meu texto e desovou radiante como alguém que sai de um labirinto dizendo que nunca mais vai esquecer como se chega ao âmago (mas você acabou de sair!).

Eu fui teu labirinto. Usou-me. Eu te propus um labirinto feito com minhas palavras, feito de mim. Mas foi você quem criou o labirinto com suas impressões. Eu te dei palavras, você deu significado. Eu te dei olhos, você enxergou. Evidente que eu te coloquei em frente a um mundo ideal, com parábolas e contos sobre as florestas escuras a olhar as horas no relógio. Mas só assim para acreditares que a maioria das pessoas ao seu redor não irá te acompanhar no seu novo olhar e muito menos aceitar quando disseres que viu isso, ou aquilo. Meu texto servirá à tua estrutura óssea, seu álibi na sua busca, na sua iluminação.

Ah, não aceito seu pedido de casamento, mas podemos sentar e discutir mais sobre isso. Sim, o mundo é uma camada opressora que só conseguimos nos livrar à medida que nos questionamos sobre algumas verdades, alguns preceitos. Cuidado com Cronos, cuidado com Erasmo. Novos caminhos neuronais são possíveis! Mas isso depende de mim e de você. Sou seu anteparo, seu fiel escudeiro. Você será meu herói iluminado!

Chega de náusea, ansiedade e tontura. Soltei algumas borboletas no mundo, algumas vão fazer sua barriga mexer em paixão, seria anormal não aceitar isso. Algumas outras vão indicar algo como um novo caminho a seguir, pode ser que você siga. Você é o herói do processo, eu sou seu fiel escudeiro. Você vai seguir. Criamos este vinculo que não pode mais ser quebrado. Eu me liguei com algo em você que não pode mais ser desvinculado. Aliás, minto: eu liguei você com algo em você mesmo. Eu sou a sinapse, a nova sinapse; eu sou o mapa (não mais o labirinto) para a sua nova rede neural. Eu sou descartável. Não posso casar com você. Sou ar.

Não posso. Seria esmola. Seria pena. Você disse que eu fiz tanto por você. Eu fiz por mim. Isso tudo é café, é um ataque de um urso polar. Poderia ser música se eu soubesse rimar. Aquilo foi você quem escreveu, você sentiu? Não era eu quando eu dizia ‘eu’, era você. Sim, está vendo, você se apaixonou por um punhado de letras e impressões que não existiriam sem você. Você deu cor ao texto, você se apaixonou pelo texto que era você. Isso é luz.

Como eu fiz isso? Não sei, já disse que estava cansado e ébrio. Dominado pelos meus impulsos. Mas eu me conheço. Conheço minha dualidade. Sei do que sou feito quando tudo está escuro, sei do egoísmo, da culpa, da raiva e de todos os sentimentos bestiais humanos e não sinto culpa por senti-los em mim, pois sei equilibrar meu compasso com outras coisas. Não sou feito apenas de peças positivas. Eu sou o texto impublicável e o texto adorado. E você adora o impublicável. Eu sou seu labirinto e sou sua saída. Eu sou você me procurando. É por isso que eu sei exatamente como você está se sentindo agora. E eu não posso casar com você.

Imagem disponivel em www.flickr.com/photos/sophoco/12108555153/sizes/z/in/photostream.


Bernardo Leso

Quase ileso..
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