trinta e poucos

Sob o olhar de uma mulher de trinta e poucos anos

Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos

The Sphere – A sobrevivente solitária

A arte como representação do momento histórico, marcando a presença do ser humano, suas relações no mundo e seu impacto. Como o olhar influencia na concepção artística original de uma peça, e como uma peça de design pode registrar-se na história dos seres humanos, sem nenhuma prévia intensão . A breve história de uma peça concebida para ser o símbolo da paz mundial, adorno de um dos maiores emblemas do propósito de todo um país e que após sofrer a interferência de uma das maiores tragédias de fundo geopolítico e religioso da história aguarda quase desapercebida um destino, estando em um dos maiores polos culturais do mundo. A capacidade quase jornalística e humana da arte de comunicar os momentos históricos e sociais a que pertence.


Em novembro deste ano estive pela segunda vez em Nova Iorque. Tenho um fascínio inexplicável por aquele lugar por diversas razões mas me encanta muito a vida cultural e artística que pulsa nas veias da cidade. Um dos famosos guias de turismo editados sobre a “big apple” sugere que vendo dois museus por dia, ainda não seria possível conhecer todos os disponíveis em um ano. Há temas para todos os gostos: museu do sexo, da polícia, da arte moderna, do legado judaico e tantos outros. Galerias parecem brotar em cada esquina pelo meio da mudança frenética do comércio local.

Porém, neste ano encontrei algo inesperado que me comoveu não somente por seu valor artístico, mas também por seu valor afetivo para a cidade, fora de um museu, presente em poucas indicações da cena cultural de Nova Iorque. Uma peça de design “sui generis” em um local um tanto quanto inusitado. E aí você diria: mas isso é até corriqueiro em Nova Iorque. O “Charging Bull” como símbolo do poderio financeiro, o Cristóvão Colombo em meio ao Columbus Circle, o mosaico “Imagine” no Central Park, e tantos outros de uma lista sem fim, estabelecidos na cidade com os mais diferentes propósitos. Sim é, mas neste caso a história é um pouco diferente. Embora houvesse um propósito artístico original, a cidade e seus acontecimentos alteraram de alguma forma o que de fato aconteceu.

Na ocasião do 11 de setembro, tragédia que marcaria o mundo para sempre e principalmente a cidade e seus habitantes, havia na praça do complexo do World Trade Center uma escultura concebida por Fritz Koenig, escultor alemão, como um símbolo da paz mundial. Ela ficou conhecida como “The Sphere” (A Esfera) e na data dos ataques, mesmo após o colapso das duas torres permaneceu quase imune, entre os escombros. Durante os trabalhos de limpeza e começo das obras do novo memorial, ela foi transferida com suas cicatrizes (foi apenas limpa porém não restaurada) ao Battery Park e colocada ao lado de uma chama eterna, simbolizando as vidas perdidas na tragédia. Longe de sua opulenta e original praça, e de suas irmãs arquitetonicamente simbólicas embora austeras (as torres gêmeas), ela não parece tão ostensiva assim.

A questão é que, chegando ao píer do Battery Park com um dos muitos passeios de barco que se pode fazer na região, só notei a esfera lá graças ao aviso do guia do passeio, que me comoveu ao dizer a origem daquela peça e comentar que, apesar do imenso valor histórico e afetivo, quem não para em frente a ela e lê a pequena placa metálica que diz do que se trata, fica muito provavelmente sem saber de suas origens. E, pensando bem, seria a origem o principal? Se o olhar é o que faz o registro definitivo da arte e sua existência, cabe mais o questionamento de “quem” é a “The Sphere”. Um sobrevivente, seria a resposta mais apropriada. O guia informou sobre a origem da peça e como ela veio parar no local com um embargo incomum na voz, que tenho certeza tomou conta da mente de muitos dos que estavam ali, trazendo talvez mais um elemento de influência para aqueles que como eu notavam a peça pela primeira vez.

Nunca havia conseguido com tanta clareza reconhecer a arte se perpetuando na história e através dela. A peça foi feita para ser um símbolo da paz mundial em uma época em que não se imaginaria que algo como o 11 de setembro viesse a acontecer. Por algum acaso do destino foi colocada no lugar certo, de modo a evoluir para o que deve ser a arte de verdade: tornou-se uma marca do ser humano e sua existência na terra, com todas as suas qualidades e mazelas, foi literalmente marcada e interpretada por sua influência. Ela assim passou a ser um símbolo de uma das maiores tragédias ligadas a um conflito geopolítico e religioso, que todos os dias mostra a sua face violenta, e pede sim, com urgência, por paz. Lembrei-me finalmente de que a arte não existe sem a história, e nada disso existe por si só, sem a interferência do meio ou do ser humano. O olhar de que tanto carece o ser humano, também é essencial à arte.

Hoje ela está solitária, ao lado da chama, muito pouco notada e visitada na minha opinião considerando o que e como representa. Observando a peça tive a mesma sensação que tive ao visitar o memorial. Há um silêncio pesado que a envolve, e não há como não sentir cada pedaço de metal e concreto que a atingiu. Não há como não sentir nela os gritos não só das vítimas e suas famílias, mas de toda uma sociedade que está aos poucos percebendo que o homem está degradado por sua arrogância e intolerância. Aquela peça cumpre a função tão especial de comunicar o ser humano em seu momento histórico e marcar sua temporalidade de uma forma ímpar, não só na intensão, mas em sua “participação” por assim dizer no momento histórico. É um discurso metálico, sucinto e verdadeiro sobre os acontecimentos.

Existe uma discussão no momento sobre aonde ela deveria permanecer, mas o que vejo é que aonde fisicamente ela estará, não importa tanto assim, embora a própria dúvida e discussão façam um ponto de vista sobre o assunto que ela representa. O que importa é que as pessoas a vejam como é, símbolo do que representaria e do que passou a representar, como o que realmente pretende a arte, comunicando algo do que jamais devemos nos esquecer. Na partida do barco pude observá-la novamente distante. O outono bastante frio havia embaçado um pouco as janelas do barco e assim, ela me pareceu ainda mais artística, mais representativa, talvez quase humana em sua sobrevivência solitária, sem destino certo ou um lugar “apropriado” no mundo. Como no caso dos seres humanos, imagino se o World Trade Center nunca houvesse ruído naquelas circunstâncias e ela ainda estivesse lá na Plaza Fountain, ela seria de alguma forma notada. Talvez fosse apenas uma peça decorativa no grande centro financeiro comercial da cidade. Talvez nunca ninguém soubesse quem foi o autor. Como um ser humano comum, teria passado em branco com sua história corriqueira. Mas o tempo e a história são na verdade os grandes autores da arte, assim como para os seres humanos a quem muitas vezes quem tem o papel de conferir beleza é a tragédia.

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Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos.
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