trinta e poucos

Sob o olhar de uma mulher de trinta e poucos anos

Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos

Respeito e tolerância - Um filme para pensar à respeito

E lá vamos nós, nos tornar um grupo de indivíduos invioláveis, frase paradoxal e ridícula que cabe sim em uma sociedade de aparências e status em que vivemos. Todos criamos nossos mundos invioláveis e selecionamos com cuidado quem ou o que é adequado ao nosso bel-prazer. Discutimos política e futebol como se recebêssemos altos salários e benefícios para isso, e passamos todos os dias de nossas vidas "julgando livros pela capa". Escalonamos e julgamos ou outro sem piedade, esquecendo rapidamente do que podemos estar causando agindo assim. "The normal heart" pode ser um passo em direção à compaixão.


Tenho pensado muito ultimamente nos assuntos título deste texto. Devo ser honesta para dizer que me ocorre em princípio o respeito. Tenho sentido que cada vez mais os seres humanos se distanciam deste conceito, e tenho sentido uma falta total e absoluta de entendimento do que esta palavra verdadeiramente significa.

Desde muito nova fui ensinada (pelas pessoas que me cercavam e sobretudo pela vida) a ter respeito. A saber que literalmente se estabelece um espaço entre as pessoas que propicia a convivência em grupo. Um espaço sólido porém invisível, quase uma força de gravidade entre eu e uma pessoa mais velha me impedindo de ser mau educada ainda que espumando de raiva, entre eu e meu colega de escola que pretende sentar na primeira cadeira tendo chego à sala antes que eu, entre eu e uma amiga que não quer mostrar a barriga mesmo sob meus protestos de esta protuberância não existir, entre eu e o carro ao lado mesmo que o motorista esteja invadindo minha pista, entre o meu gosto e o seu, a minha escolha e a sua, entre eu e tantas coisas que pretendi fazer e recuei por entender que o que é do outro não me diz respeito ou me pertence.

Sim, eu sei. Tudo isso é muito influenciado pelas convenções sociais e o que a família e os entes hierárquicos esperam de cada um de nós. Mas mais tarde, foi se tornando para mim uma escolha e, pra falar a verdade, quanto a esta parte das escolhas, tenho muitas dúvidas com relação às atitudes de certas pessoas, grupos ou entidades.

Imagina-se que com a democratização crescente das sociedades, com a liberdade individual em plena evolução, com o aumento dos índices educacionais e a crescente quantidade de informação acessível a todos, as pessoas devessem aprender com a diversidade e respeitar mais: uns aos outros, às regras de bom convívio, às atitudes e prerrogativas de cada ser ou instituição. Mas a verdade é que muitas vezes parece que o que vemos é exatamente o contrário, porque o que na realidade falta não é informação. Eu não sou mais criança, e já tendo ultrapassado 3 décadas de vida, fico muitas vezes indignada ao perceber que muita gente não acompanha a evolução, ou até regride à medida que toma contato com a vida lá fora porque não consegue mesmo é enxergar além da própria vontade, do próprio espaço, de si mesmo.

O sujeito conhece outro país, outra cultura, outra pessoa, e ao invés de absorver dela o que pode haver de bom e admirar as diferenças observando como se processam naquela sociedade ou ocasião, se põe a criticar e apegar-se àquilo que já conhece, ainda que saiba o quanto é ruim. A hipocrisia domina também as relações interpessoais. Todos cada vez se mascaram mais a propósito de manterem-se protegidos daquilo que supostamente lhes faz mal, apegam-se àquilo que julgam perfeito (normalmente sua própria imagem e semelhança, fora do escopo de qualquer julgamento à parte)e colocam-se a julgar aquilo que é diferente como inadequado, considerando a melhor defesa o ataque. E lá vamos nós, nos tornar um grupo de indivíduos invioláveis, frase paradoxal e ridícula que cabe sim em uma sociedade de aparências e status em que vivemos. Todos criamos nossos mundos invioláveis e selecionamos com cuidado quem ou o que é adequado ao nosso bel-prazer. Discutimos política e futebol como se recebêssemos altos salários e benefícios para isso, e passamos todos os dias de nossas vidas "julgando livros pela capa". Escalonamos e julgamos ou outro sem piedade, esquecendo rapidamente do que podemos estar causando agindo assim.

O que me leva a um outro pensamento que não sai da minha cabeça, a tolerância, coisa esta que a vida pacientemente me ensinou, pelo exemplos que vi. Quem tolera é mais saudável em todos os aspectos (eu disse "tolera", não confunda com "aguenta", "ignora" ou "sofre"). A tolerância surge do conhecer, do informar-se e do desmistificar. E principalmente, respeitar. Ao saber ao certo, conhecer um determinado assunto, o sujeito passa a ser capaz de formar uma opinião pessoal a respeito de determinado assunto, e sendo assim, acredito que informar-se sempre é proveitoso. Também creio fundamental no processo da tolerância um outro sentimento um pouco esquecido: a empatia. Perceba que há um esforço, um estender de mãos, que deve ser absolutamente voluntário e treinado, sem o qual informação é apenas teor de enciclopédia.

Não sei porque somos levados a abandonar a empatia, e a sermos cada vez mais sectários e egoístas, e creio que sempre é proveitoso em algum nível colocar-se no lugar do outro. Só assim o meio termo chega com mais facilidade, menos raiva e menos culpa. Sabendo (ou pelo menos tentando saber) como o outro se sente, fica sempre mais fácil tolerar, entender e aceitar, mesmo quando o assunto parece distante de nossa realidade. Tenho visto pessoas absolutamente egoístas e incapazes de considerar o outro em suas vidas e isso me assusta em um grau que não sei explicar, já que sou conhecida por habitualmente "confiar nas pessoas" e muitas vezes pago preços muito altos por isso.

Talvez envolvida pelo final de ano, e todas as limpezas e decisões que pretendi e precisei de modo a garantir minha sobrevivência fazer, tenha atraído para mim um filme.

Numa tarde despretensiosa das férias, acabei em um canal da TV a cabo por encontrar meu querido e apaixonante Mark Rufallo, em uma interpretação genial da qual eu jamais havia ouvido falar, mesmo tendo ele como um ícone de boas atuações, que costumo caçar e assistir. Acompanhado de Julia Roberts e Matt Bomer ele desenvolve o papel de um escritor, ativista e líder da comunidade gay em Nova Iorque na época da grande epidemia da AIDS, em uma produção da HBO Filmes que merece palmas pelas mais diversas razões.

O tema é pesado, emblemático e as tramas e subtramas são para mexer com o mundo de qualquer um que não esteja disposto a abrir os olhos a certas questões. "The normal heart" é um projeto ousado que vem trazendo para a tela a biografia de alguém que foi contra tudo e contra todos, errando e acertando para não pagar o preço da omissão, e mostrando a verdade nua e crua que muitos insistem em não enxergar.

Eu não sou gay, não tenho nenhum parente que tenha padecido com a doença e muito menos vivi na Nova Iorque dos anos 80 aonde a doença era chama de "peste gay". Mas desafio você nas mesmas condições a assistir o filme, e ser empático. Se colocar (como um exercício) no lugar de cada uma daquelas pessoas e sentir o que cada um deve ter sentido. Não será um dia feliz, nem água com açúcar para você. A doença, o peso das relações, as diferenças, assustam o ser humano de qualquer tribo ou natureza. Mas apelo que você busque em você a tolerância e o respeito e este filme é uma excelente oportunidade. Até não assista o filme se achar de mais para você. Mas aprenda a por favor, ter um pouco de generosidade com a condição humana. Não com o gay, não com o doente, não com o velho, não com a criança, não com o sem teto, não com a mulher, não com o órfão ou a viúva. COM O SER HUMANO. Não se trata de defender uma causa em específico, muito menos de atirar pedras a qualquer teto de vidro. Se trata apenas de chamar a qualquer um que possa ler este texto e assistir ao filme à realidade, mas mais ainda, à tolerância e a compaixão.

Entenda de uma vez por todas que cada um dentro de si vive, sofre e constrói uma história que resulta em algo que não é igual à você. Não é ser bonzinho, muito menos se vangloriar disso. É simples, como são o respeito, a tolerância e a empatia. Três palavras que lideram à paz.

De toda forma, recomendo como obra de arte, e acho que vale realmente à pena, cultural e pessoalmente falando, colocar no seu histórico este filme.

normal-heart-trailer-mark-ruffalo.jpg


Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos.
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/cinema// @destaque, @obvious //Patricia Cardoso Costa