trinta e poucos

Sob o olhar de uma mulher de trinta e poucos anos

Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos

Urgência de nada - Para que, porque e como vivemos e morremos

Por instantes o meu tão admirado Saks me fez refletir sobre como vivemos, para que vivemos e como morremos. Que certezas imaginárias são essas, que tão bem constituídas nos convencem de sua concretude.


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Nesta semana me senti profundamente comovida e chocada ao saber que um homem extremamente interessado na condição da saúde humana perdera uma batalha contra o câncer. Um homem que, ao longo de mais de oito décadas de vida se dedicou essencialmente à saúde e o bem estar, a descobrir os meandros do cérebro humano, e que soube ter seu fim determinado por um câncer, com o qual inclusive convivia num balé respeitoso até este diagnóstico de metástases no fígado.

Cientista respeitado, homem erudito, professor de universidades renomadas em sua terra natal, os Estados Unidos aonde aliás os estudos para cura do câncer são bastante valorizados e avançados, Oliver Sacks escolheu dissertar em uma carta sua experiência de vida e proximidade íntima com a morte, como forma de estabelecer uma imagem paradigmática, tal qual um filósofo (que ironicamente ele, um cientista admirou pela mesma atitude).

O interessante é que ele não é em momento algum tétrico ou soturno. Discorre biograficamente sobre o que viveu e como percebeu até então a vida, e denota um desinteresse momentâneo por questões das quais ele agora tem certeza, não participará. E faz isso em um grau de pragmatismo e gentileza invejáveis, consigo e com o mundo.

Por instantes o meu tão admirado Sacks me fez refletir sobre como vivemos, para que vivemos e como morremos. Que certezas imaginárias são essas, que tão bem constituídas nos convencem de sua concretude. Talvez a morte seja assim tão temida pois ela representa a certeza de que estamos fazendo pouco, confiando quase nada, guardando muito e perdendo aquilo que sabemos ser absolutamente imperdível. Não entenda mal, estou longe de ser coroada a rainha do desapego, e menos ainda candidata a próximo Buda neste planeta. Mas não penso frequentemente na relação energia/resultado, como é tão recomendado se fazer. E sendo assim, vivo uma vida geralmente um pouco mal interpretada e nem sempre aceita por quem me ama, já que em geral, o lucro aparente para mim é muito pouco. Não falo de dinheiro. Falo de dedicar-se às suas questões de modo a ser profundo e esgotante sempre que se sente necessidade. Falo de uma urgência de tudo, como se ao contrário da crença geral, toda pegada minha fosse uma marca eterna. Muitas vezes não sou compreendida, e frequentemente criticada por levar as coisas a sério, por me dedicar de mais, por ser tão intensa.

Mas o fato é que me recuso a imaginar a vida como algo que deve acontecer amanhã ou uma bacia de água morna, quase fria para confortavelmente pousar os pés. Apesar da irritante ansiedade que por vezes me toma e do óbvio e tão conhecido risco de errar, da angústia da não resposta e da possível inobservância de meus esforços, a maior parte do tempo o que acontece é que não deixo para amanhã, quase nada eu diria. Se o carro é bom, o preço razoável, o dinheiro está disponível e a cor me interessa, não sei fazer aquele balé frequentando 94 concessionárias leiloando preços com os vendedores. Faço a boa e velha cotação em 4 ou 5 lugares, e aquele que estiver no escopo é o vencedor. O custo benefício é bom, a vista agradável, a alvenaria confiável, o projeto como queria, eu toco, e logo a casa está pronta, não importa quantos dias no hospital em função do stress isso me custe. Foi grosseiro comigo, me desrespeitou, subestimou minha inteligência, não tarda mais do que 15 minutos para ouvir um sonoro ponha-se no seu lugar. Foi gentil, é interessante, me disperta uma curiosidade ou me ajudou, terá o melhor que posso oferecer naquele momento. Não sei? Pergunto. Sinto? Falo. Erro? Me desculpo. E assim por diante, sem trocas, sem fingimento, sem economizar-me.

Não creio em coincidências, e por isto estou certa de que nessa convergência, estou também lendo o quase épico "Livre", que conta a saga de uma mulher que mergulha numa espécie de morte, saindo totalmente de sua zona de conforto para fazer uma trilha à pé, em meio ao nada, sem nenhum ou com muito pouco conhecimento de montanhismo. No texto autobiográfico Cheryl Strayed explica como sentiu a necessidade de ir morrendo aos poucos, se intensificando, se abandonando e se encontrando até efetivamente renascer e se perder do que achava tão certo e seguro. Me apareceu então esta nova imagem de luto, que deveríamos viver todos os dias encerrando ciclos, morrendo ressecados no que já não serve e renascer renovados numa "casca" melhor e mais brilhante, através do intensificar das experiências do dia a dia. Eu como intensa que sou posso afirmar que este sol em escorpião faz morrer todas as vezes que algo se encerra ou me frustra, assim como me faz renascer com a perspectiva da beleza e da novidade, ou solidificar no conforto daquilo que se estabelece.

Não protegida de nenhum tipo de frustração, muito menos mais ajustada ou feliz do que qualquer outro ser humano normal neste mundo, eu prefiro fazer. A ação é a minha regalia. E pesquisando (sim, porque nada me atrai mais do que ouvir e tabular) concluo que aquelas pessoas tão sensatas, admiradas por esperar o momento certo de agir, falar, ou até treinadas para receber mais do que dão ao mundo, aqueles que guardam as roupas que compram para uma ocasião especial ou aqueles que deixam de dizer o quanto amam em nome do “orgulho”, os que fazem cursos para se prepararem para cada evento da vida, não são um milímetro sequer mais felizes, tranquilos ou bem quistos do que eu. Porque a verdade é que viver é uma experiência, e me parece muito triste só ser capaz de visulizar isto quando a morte aponta no final do corredor. E além disso, experiência é algo único, momentâneo, que se privado, jamais será conhecido. Algo que pode machucar mas de certo edifica e dignifica.

Acho que o depoimento do Sacks é tão feliz e iluminado justamente por apontar que ele se sentiu satisfeito com o nível de energia que empregou na vida e o que conseguiu dela. Parece mesmo melancólico em tem que aceitar passivamente o diagnóstico mas incrivelmente caloroso ao relatar que não mais se interessará pelo futuro. Futuro este, que aliás, teimamos a dizer que a Deus pertence, mas esquecemos que deriva do presente e do passado, e que estes, reconhecidamente são responsabilidade (e não culpa!) nossa.

Deixo aqui da melhor forma que sei minha admiração ao brilhante neurocientista Oliver Sacks, cujo brilhantismo na minha opinião não veio simplesmente de um QI elevado, mas sim de uma mente entusiasta, energética, aplicada na vida de modo passional. Me fez refletir sobre o quanto realmente lamento aquilo que faço e concluir que certamente lamento muito menos do que àquilo que deixo de fazer. Desejo que ainda que sinta que deixe algo a fazer privado do tempo necessário, quando partir saiba que disse tudo o que desejou, fez tudo o que lhe realizou e amou o quanto pôde.

Como todo bom passional, precipitadamente, já disse que meus sentimentos e ações não me pertecem, mas são energia em movimento a ser direcionada a quem ou o quê de direito, devendo ser endereçadas sem demora, e sendo assim, um brinde à vida, tão breve que demanda de nós que a cada momento reflitamos sobre suas possibilidades, direções e acontecimentos, e no quanto podemos estar perdendo a cada vez que nos enovelamos em jogos. Jogos de espera, jogos de poder, jogos afetivos, jogos de sigilo, jogos de conveniência. E que mais estejamos presentes, ainda que para isso, assim com Cheryl tenhamos que carregar uma mochila gigantesca, incômoda, portando uma bússola que não temos a menos ideia de para que serve, mas inteiros, energéticos, participantes ativos e verdadeiros.

Por uma vida com o desafio de transparecer, agir e integrar. Por uma vida menos jogada e mais vivida.

“Eu te desejo não parar tão cedo, pois toda idade tem prazer e medo. E com os que erram feio e bastante, você consiga ser tolerante. Quando você ficar triste que seja por um dia, e não um ano inteiro. E que você descubra que rir e bom, mas que rir de tudo é desespero. Desejo, que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar.” – Frejat / Mauricio Barros / Mauro Sta. Cecília


Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos.
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