trinta e poucos

Sob o olhar de uma mulher de trinta e poucos anos

Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos

Livre

Sobre liberdade, enfrentar demônios pessoais, mudança de paradigmas sobre ser e estar, tenho a indicar minha última leitura: "Livre" de Cheryl Strayed.


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Você já se perguntou se é livre?

Eu sempre achei que era. Mas recentemente me descobri refém de mim mesma. Fracassando em muitas coisas ao longo destes trinta e poucos anos, passei a me ressentir do que eu chamava de injustiça. Passei uma vida pensando no que era melhor, mais adequado, equalizando o que era bom. Achei que o caminho de plantar sempre o certo me garantiria o certo em retorno. Só serviu pra constatar que criações de todas as espécies (galinhas, vacas, cavalos, cachorros, gatos) são lucrativas, menos a de expectativas.

Escrever é uma tarefa difícil, à medida que expõe o que a gente sente sobre coisas, pessoas ou situações, e é claro, como vivemos no planeta Terra, no meio de um monte de humanos, estamos sujeitos ao julgamento alheio. Esta autora que aqui vos fala, foi por anos uma pessoa extremamente preocupada com o julgamento alheio, a ponto de estar o tempo todo preocupada com o que e como fazer, os impactos e resultados que poderia causar e o mais adequado a se fazer. Eu não percebia a armadilha, mas fazia isso sim, em busca de aprovação dos outros. Quem vai desaprovar alguém o tempo todo preocupado em agradar? Era o que eu ingenuamente sentia. Mas assim, obviamente, não era verdadeiramente livre, ao contrário, era escrava deste sentimento, como ao longo da vida, fui de tantos outros.

Passei muito tempo sendo padronizada por mim mesma, fazendo aquilo que eu imaginava que seria socialmente aprovado e querido pelas pessoas, porque não suportava deixar uma má impressão em quem quer que fosse. Causar mal estar em outras pessoas me tirava o sono, estragar uma imagem que era conveniente eu acreditasse que carregava me dava calafrios, e por isso sempre me esforcei para ser amável, coerente, empática e afetiva. Me alegrava de pensar no que de bom eu era capaz de trazer à vida de alguém, até crescer e perceber o inevitável.

O mundo é o que é, e não o que eu sonho ou desejo que ele seja. As pessoas são o que são, e não o que eu sonho, espero ou desejo que elas sejam ou venham a ser. E pra falar a verdade, não importa o que você possa fazer ou o que possa se tornar eventualmente para se adequar e se sentir aprovado e bem quisto nesse mundo ou em meio a estas pessoas e estes acontecimentos. Acredite, passei uma vida tentando, tentando ser um grau de “perfeição” que ser humano nenhum é capaz. Boa filha, boa amiga, boa namorada, boa esposa, boa funcionária, boa escritora.

Ainda este ano me senti profundamente desgostosa por não ver meus “escritos” decolarem nem entre os amigos chegados. Não ter um texto lido, me tornou sozinha. E um texto escrito nada mais é do que uma parte de quem o escreve. E não que eu esperasse que milhões fossem ler. Mas encarar o fato de que meu esforço pode não ser suficiente nunca e que talvez nada do que as pessoas tem como parâmetro de boa conduta possa te colocar no radar do mundo, seja suficientemente bom, me mostrou algumas coisas.

Me mostrou que talvez me importar tanto fosse só uma defesa, um jeito de não me expor, de não saber que o julgamento pode não ser o que eu espero e nem sempre muito confortável. Me mostrou que atenção conseguida com tanto esforço pode não ser verdadeira, e sim apenas um reflexo da culpa do outro, que vendo seu esforço sente a balança da equidade pender contra si, e por isso acaba correspondendo.

E não porque seja você o sujeito objeto do sentimento.

Simplesmente porque muitas vezes a vida será bagunçada, atravessada, totalmente fora daquele script que você tão cuidadosamente desenhou juntamente com seus projetos de castelo de areia. Simplesmente porque muita gente não se importa, está em outra, não está interessada no seu bem estar ou seus sentimentos, pelo simples fato de estarem por demais concentradas em seus próprios mundos e umbigos.

Porcos comem lavagem e chafurdam, vivem no campo. Ostras produzem pérolas e precisam de água salgada para viver. Não espere achar ostras na lama nem tão pouco porcos com colares de pérolas.

Independente de você, o mundo anda, as coisas acontecem, a vida se move e, passar o seu tempo tentando abraçar e consertar tudo isso é absurdo, hercúleo e sem o menor sentido. A beleza está justamente na irregularidade, depois de muito lutar contra tudo isso, acabei concluindo. Simplesmente porque nada disso anda em trilhos, garantindo que saindo da estação Vila Madalena em 4 paradas você vai chegar ao Paraíso. (Ou seriam 3?)

Simplesmente porque ser livre, ser você, fazer o que quer tem um preço. O preço da incerteza, o preço da confiança em si e no outro, o preço da decepção, o preço de saber que as pessoas nem sempre são boas e perfeitas, o preço de saber que a vida é injusta e é o que você tem para hoje. O preço de finalmente abandonar aquela ideia de que tudo dá certo no final. Dá certo no máximo no final desta meia hora, sendo bem otimista, porque afinal de contas e vida é o caminho, e não há jeito de prever nada ou aplicar fórmulas. E depois de tudo isso, de tantos pagamentos, a recompensa de não se preocupar em se recompor, porque durante todo este tempo você foi verdadeiro, foi você, e derrotado ou vitorioso, você ainda assim é você. Coisa esta que hoje em dia, convenhamos, não é muito comum. Hoje em dia a maioria das pessoas gasta toda sua energia sustentando uma imagem, em geral cujo preço, é infernal de se pagar.

Talvez você esteja sozinho nessa. Nessa vida, nessa convicção, nesse texto, ou nessa opinião. Mas deixo pra você a pergunta: o que você queria mesmo?

Sobre liberdade, enfrentar demônios pessoais, mudança de paradigmas sobre ser e estar, tenho a indicar minha última leitura.

“Livre” – Cheryl Strayed

Trata-se de autobiografia de uma mulher que mesmo jovem imaginou que tinha perdido tudo, e decide recomeçar numa jornada solitária, caminhando a pé pela Pacific Crest Trail, mesmo sem ter nenhuma experiência neste tipo de viagem.

Boa sorte na sua viagem com o livro, pois tenho certeza que se optar por ler e fazer uma reflexão sobre sua própria liberdade, nunca mais será a mesma pessoa.

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Patricia Cardoso Costa

Patricia Cardoso Costa, autora e curiosa, tentando descobrir o que significa ter trinta e poucos anos.
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