Rosa Maria Ferrão

Adoro artes em todas as duas manifestações. Literatura, música, pintura, cinema, enfim, aquilo que o homem cria e deslumbra a si e aos outros.

Intolerância, intolerance, intolérance, intolleranzza, intoleranz...

Independentemente do idioma que se use, dá-se o nome de intolerância à atitude mental caracterizada pela falta de habilidade, ou vontade, de reconhecer e respeitar diferenças de crenças e opiniões, à falta de disposição para aceitar pontos-de-vista diferentes dos próprios.


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A preocupação com a exteriorização do pensamento já foi tratada na Declaração de Direitos do Homem de 1789, segundo a qual “ninguém pode ser perturbado por suas opiniões, mesmo religiosas, desde que a sua manifestação não inquiete a ordem pública estabelecida pela lei” Num sentido mais restrito, o que se convencionou chamar de intolerância religiosa é um conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a diferentes crenças e religiões.

O direito de criticar dogmas e encaminhamentos de uma religião é assegurado pela liberdade de opinião e expressão, todavia isso precisa ser feito de forma a não haver desrespeito ao que o grupo religioso a que é direcionada a crítica tenha como valores para si. Não se trata aqui de defender esta ou aquela crença, culto religioso ou filosofia mística. Se falsas, cairão por si mesmas como tem acontecido na história da humanidade. Se verdadeiras, deverão permanecer, portanto não precisam da defesa de ninguém. Está na lei. A Constituição brasileira de 1988 prescreve a liberdade de culto religioso e proteção às organizações religiosas. intoleranciafig02.jpg

Ora, da mesma forma, em nome da coerência, não se pode discriminar ateus, agnósticos, por sua descrença, ou não-religiosos, por sua falta de religião. É seu direito inalienável com certeza. No Brasil, apesar de parte dos brasileiros aceitarem/tolerarem as demais religiões, muitos, sobretudo religiosos mais conservadores, que se apropriaram da Verdade e de Deus, têm grande dificuldade em aceitar a posição de quem não segue qualquer religião ou não acredita em nenhum deus. Dessa forma, paradoxalmente, ateus e agnósticos também acabam sendo vítimas da intolerância religiosa.

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Porém o que é perceptível, nesse tipo específico de atitudes acima exemplificadas, como em vários outros que me têm chegado às mãos, não são críticas baseadas em motivos racionais (embora sempre se ache que sim), não são defesas de linhas de pensamento, baseadas em argumentos lógicos e pertinentes, dos quais se possa discordar, ou com os quais possa haver concordância, mas que tragam pelo menos uma lógica intrínseca. Não são também brincadeiras com humor inteligente, ironia afiada e perspicaz, já que nenhuma dessas coisas tem a ver com achincalhe, deboche, grosseria. Ou seja, o que se vê são reações tolas que, ao mesmo tempo, denotam estreiteza de visão e altas doses de preconceito e prepotência. E eu, admito, posso perfeitamente ser chamada de intolerante, não quanto à crença, ou à descrença, não quanto à diferença de opiniões, mas contra o desrespeito, venha ele de crentes, ou descrentes, religiosos ou ateus, fanáticos ou racionalistas.

Acredito mesmo que qualquer um de nós tenha em si uma pequena (ou grande) dose de intolerância em relação a esta ou aquela atitude, este ou aquele conceito político-filosófico-religioso, mas não se pode considerar aceitável, em uma sociedade que se diga democrática, não manter o respeito, não defender o direito de escolha do outro.

Discordar é democrático. Adotar para si caminhos e posturas que lhe satisfaçam a razão e o sentimento do mundo é democrático. Defender seus pontos de vista é democrático. Concordamos todos? No entanto, quero essa liberdade para mim, luto por meu direito de escolha e enunciação, mas agrido, persigo, ofendo, desrespeito, humilho, provoco, prendo, assassino todo aquele que pense diferente de mim? O que crê diferente de mim? O que age diferente de mim? Então o que sou eu? Um hipócrita prepotente que acredita ser o dono da verdade, qualquer verdade, e que só estão corretos aqueles que seguem meus preceitos e ideologias?

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Ateus esclarecidos não achincalham nem ofendem religiosos, embora denunciem o que consideram caráter retrógrado em suas ideias e práticas e se coloquem contra o que chamam de “mitos”. Tentam oferecer explicações científicas para fatos e fenômenos, excluindo crenças que não possam ser cientificamente comprovadas.

Seguidores de religiões que procuram ter uma postura racional, crítica e analítica em relação ao que ouvem e leem sobretudo buscam transformar os livros, suas mensagens, em lições vivas para a própria mudança. Não podem, portanto, condenar, agredir ou desrespeitar aqueles que não lhes seguem os preceitos que defendem e consideram “verdades”.

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Temos que procurar entender e, acima de tudo, respeitar uns aos outros, tirando-os da lista de “inimigos” e não nos entregando a uma revolta preconceituosa que alimenta o ódio, a ignorância no seu mais amplo aspecto, que independe do nível cultural de cada um. As Cruzadas, a Noite de São Bartolomeu, a Inquisição, a Catequização dos indígenas, o Holocausto, a prisão de Guantánamo, os massacres de palestinos por Israel e as Jihads modernas começaram assim.

Queremos paz, falamos de paz, ansiamos por um mundo de PAZ! Com absoluta certeza, não será no culto da intolerância que a encontraremos.


Rosa Maria Ferrão

Adoro artes em todas as duas manifestações. Literatura, música, pintura, cinema, enfim, aquilo que o homem cria e deslumbra a si e aos outros..
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