Rosa Maria Ferrão

Adoro artes em todas as duas manifestações. Literatura, música, pintura, cinema, enfim, aquilo que o homem cria e deslumbra a si e aos outros.

Nem tudo que brilha é joia

Já reparou como a grande maioria de nós se deixa ofuscar pelo brilho das joias? Pois é, entretanto o seu valor não é agregado ao objeto, isto é, uma joia, ou melhor, os materiais de que é feita não têm valor por si sós. Nós lhes atribuímos o valor que achamos que têm.


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Pero Vaz de Caminha, na sua carta ao rei de Portugal, declara que quando o europeu pisou o rico solo do Brasil encontrou a melhor disposição dos nativos para entregar-lhes ouro e pedrarias, sem que soubessem bem o porquê do interesse, pois aquilo nada lhes dizia.

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Também assim é com nossas vidas: atribuímos determinado valor a dezenas de coisas e depois passamos a agir como se elas tivessem intrinsecamente esse valor.

joias03.jpg A importância dada ao poder, por exemplo. Cometem-se os maiores desatinos para alcançar uma posição de destaque social. Trapacear, mentir, roubar, trair, tudo é válido para se alcançar essa joia do orgulho e da presunção. Alcançado o objetivo, o indivíduo se sente um verdadeiro sol. Os outros passam a ser vistos como simples planetas que orbitam ao seu redor, dependentes de sua luz e calor, para sobreviverem.

Esta situação os satisfaz, durante algum tempo. Ocorre, porém, que os outros também anseiam por seu próprio brilho e, assim, esse astro-rei vive sob constante ameaça. Lutando, dia após dia, para manter o que conseguiu, esgota-se, física, psicológica e moralmente. Cada um é visto como um usurpador em potencial de sua posição, dessa forma, desconfiança e falsidade instalam-se em suas relações, inibindo o afeto verdadeiro.

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Há os que valorizam soberanamente o dinheiro, móvel único de suas vidas, cujo objetivo maior é a riqueza. Para tanto, corrompem-se, prostituem-se, atropelam a lei e a ética e, mesmo quando isso não ocorre, destroem a saúde em detrimento da própria harmonia. Para o usurário, no entanto, esse objetivo nunca é alcançado. Quanto mais dinheiro consegue, mais precisa ter. Qualquer prejuízo, por pequeno que seja, é um duro golpe a provocar no avarento crescente desequilíbrio e ansiedade. Um círculo vicioso se instala e o indivíduo acaba preso em sua própria armadilha.

Fortuna atrai parasitas como o mel às moscas, conforme é de conhecimento geral. Os poucos amigos sinceros e desinteressados, tendo que conviver com esse tipo de gente, acabam por afastar-se. Assim, cercado por bajuladores interesseiros, caçadoras de dinheiro e escroques de todo tipo, o milionário padece, mesmo sem se dar conta, de profunda solidão.

joias05.jpg joias06.jpg Outra porta muito atraente é a que se abre à glória, ao destaque. O sucesso brilha em letreiros de néon, as revistas estampam, nas manchetes, nomes em letras garrafais. Embriagado, o idólatra da fama sente-se poderoso, invencível, quase um deus. No entanto, como em essência não passa de uma criatura humana, inúmeras vezes tem parco domínio sobre os caminhos que é levado a percorrer.

Glória e sucesso, embora retumbantes, são, cada vez mais, passageiros. Os nomes de hoje são rapidamente substituídos, em prol da novidade. Andy Warhol já previra isso. Assim, o que parecia eterno mostra-se mutável como a visão da lua em céu nebuloso. Ao se perceber esquecido, o indivíduo entrega-se, muitas vezes, à depressão, à apatia, a diferentes desequilíbrios de ordem psicológica.

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Nem tudo o que brilha é joia! Poder, dinheiro e fama são, inquestionavelmente, estradas de brilho intenso, atrativas, envolventes. É preciso cuidado e muitíssimo equilíbrio ao percorrê-las, sem tolas ilusões e com a convicção de que, acima de todas elas, paira eternamente o ser primordial que reside em nós. joias08.jpg


Rosa Maria Ferrão

Adoro artes em todas as duas manifestações. Literatura, música, pintura, cinema, enfim, aquilo que o homem cria e deslumbra a si e aos outros..
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