Rosa Maria Ferrão

Adoro artes em todas as duas manifestações. Literatura, música, pintura, cinema, enfim, aquilo que o homem cria e deslumbra a si e aos outros.

O PASSADO É UMA ROUPA QUE NÃO NOS SERVE MAIS?

É interessante observar os caminhos do homem social através do tempo. Cada nova geração que surge vem com o ímpeto da reformulação, da novidade, de acabar com os velhos conceitos e instaurar novos modos de pensar, agir, se expressar. Ao enfocar-se o momento presente como o auge do progresso, da evolução, prega-se o abandono das contribuições do passado. Até que ponto isso é possível?


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O desconforto em relação ao passado e a ânsia do novo têm, simultaneamente, provocado, sob inúmeros aspectos, a mudança e o progresso, sendo, sob esse aspecto, extremamente proveitosos e necessários. Há, em decorrência disso, uma tendência a considerar o passado como algo que se deve abandonar, pois, parodiando Belchior, “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. É necessário abandonar tudo; inovar, transformar, mudar. Cabem nesse momento as perguntas, que raramente são feitas pela juventude sonhadora: Fazer o quê? Com o quê? Para quê? Como criar, a partir do nada?

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Considerando esses questionamentos, observemos o século XX, contraditório e complexo, marco de profundas mudanças históricas, e será possível encontrar aí um terreno fértil para a implantação de novos conceitos. Claro que num pequeno texto é impossível dar conta de tal complexidade, assim escolhemos a Arte, especificamente a pintura do século XX, como um dos retratos disso. Resultado de um processo de ruptura acadêmica, os movimentos e tendências artísticas desse século foram inúmeros e expressaram a perplexidade do homem ante a realidade mutável. Surgiram então o Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, o Futurismo, o Abstracionismo, o Dadaísmo, o Surrealismo, a Op-art, a Pop-art. Inseridas em cada um dos movimentos estão ainda as peculiaridades de cada artista e ainda as diferentes tendências de cada um, fato que torna ainda mais complicada a análise desse processo.

Façamos uma resumidíssima apreciação desses movimentos artísticos, apenas para nos situarmos.

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Observando-se o quadro, ainda que superficialmente, é possível perceber que os diversos novos caminhos estão sempre, de alguma forma, atrelados ao passado—próximo, ou distante— seja para resgatá-lo, seja para se opor a ele. Se em dada época impera a angústia e o pessimismo que se refletem na obra de arte, tem-se a seguir a representação da pureza, da sensibilidade, como ideal estético a retratar. Porém, mais uma vez, a ânsia da novidade eleva à classe do belo, a velocidade e a violência até que se decida que “a beleza está morta”. Usou-se a lógica, a organização, a postura racional? Implante-se o espontaneísmo, dê-se ênfase ao inconsciente, ao sonho.

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Henri Focillon, em seu livro A Vida das Formas, escreveu :”A obra de arte é uma tentativa para alcançar aquilo que é único; afirma-se como um todo, um absoluto, mas pertence simultaneamente a um complexo sistema de seleções. É o resultado de uma atividade independente, traduz um devaneio superior e livre, mas é também um ponto onde convergem as linhas de força das civilizações”.

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Se considerarmos que a sensibilidade artística é adquirida no contato com obras de arte de diferentes correntes estéticas e formas de expressão artística de épocas que nos antecederam e que as apreciações que fazemos sobre estas obras não deixam de se refletir os variados momentos das sociedades, ou os padrões correntes nos grupos sociais em que estiveram inseridas seria possível criar a partir do nada?

Creio que não!

Recria-se, transforma-se, complica-se, simplifica-se, exacerba-se, minimiza-se. Empregam-se novos materiais, novas tecnologias. Sim, certamente! Mas no fundo de cada “criação”, estão presentes as sementes do passado para que o futuro possa frutificar, pois, como assinala Vygotsky, “a faculdade de combinar o antigo com o novo é que lança as bases da atividade criadora tipicamente humana”.

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Rosa Maria Ferrão

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