tropic appetites

'in a silent way it's about that time'

Roberto Mortágua

Teatro de Sons

Respostas há muitas, grandes perguntas nem tanto e respostas a grandes perguntas ainda menos. Quis saber como a soundscape é percepcionada, a forma como é ouvida, processada e transmitida. Que impacto tem na construção sonora que o indivíduo faz do mundo, como é que cria significado, referências sonoras particulares, em última instância, como confere identidade. De que forma se associa promiscuamente à ideia de paisagem visual e, tendo este aspecto em consideração, até que ponto essa promiscuidade eleva a expectativa da contemplação. Mais além ainda, em que ponto se encontra no presente e após 30 anos da sua primeira consideração teórica, quererá dizer o mesmo que outrora no multifacetado panorama actual?


Claude Lorrain A paisagem diz-se que nasce perante o olhar de um pintor italiano do século XVII, Claude Lorrain. Sabemos do fascínio lírico milenar de algumas populações orientais em relação à representação visual da natureza. No período da expansão helénica de Alexandre, o Grande já havia alguma consideração pelo pastoral, curiosamente semelhante em motivos à que constatamos muitos séculos mais tarde e recuperaram-se inclusive algumas pinturas a retratar isso mesmo. Tudo isto para dizer que, tal como Schafer referia sobre a compreensão do som, soundscape é só, creio, ainda uma forma rudimentar de falarmos e compreendermos o som. Olhando para o trabalho de Desmond Bell (Framing Nature: First Steps into the Wilderness for a Sociology of the Landscape) de forma lúcida e descomprometida, é cirúrgico que surjam elos de ligação entre as suas ideias e parte daquilo que foi a génese da soundscape. A ideia que associa à paisagem olhada segundo Walt Disney é deliciosa para compreender a forma ingenuamente infantil que atribuímos à paisagem. O quadro idílico onde se passeiam nobres cavaleiros e desesperadas donzelas, o quadro que apenas existe para receber tal euforia emocional humana, tão pura quanto o próprio mise en scene em que está inserida. Este olhar, que perdurou e ainda irá assombrar todos os novos olhares durante algum tempo, via a paisagem como um palco do teatro da vida. E tal como o palco é dado como factor constante na peça, também a paisagem ali estava, sagrada, em sucessivas mudanças de acto. É isto que o esboço inicial de Schafer diz acerca da soundscape e este é o motivo essencial de todos os juízes que o leram. Não obstante, recorde-se, na década de 70 do seculo XX, as palavras de Schafer foram um sucesso mundial e a mensagem diversificou-se condignamente. bambi

A soundscape de Schafer está alinhada com mensagens ideológicas e ecológicas sobre que sons são relevantes e que sons não o são. Contem instruções sobre como as pessoas devem ouvir...não é de todo um campo neutro de investigação (Kelman, 2010). Tal como as pessoas ficaram fascinadas com o mundo maravilhoso criado por Walt Disney, fascinadas ao ponto de o tornarem "real", também Schafer deslumbrou todos aqueles que fervorosamente aguardavam algo fresco num campo que lentamente começa a destoar o domínio do modelo visual de percepção.

Bell, refresca com a sua abordagem, esta ideia ingénua perante a paisagem e a soundscape por analogia. A paisagem surgiu como conceito num dado contexto histórico e arranjou forma de sobreviver até aos dias de hoje. O olhar da pintura contribuiu no desencadear de um processo de significação e hiper significação quiçá, das imagens representadas ao ponto de o indivíduo ser ver eventualmente mediado de maneira significativa na experiência de espaços naturais. O trabalhador, o agricultor, o pastor, a fazendeira, a vida humana nunca eram representados pictoricamente. Havia algo de artificial, de moldado naquelas imagens e o mesmo parece haver com a soundscape de Schafer. Ele dá-nos uma dicotomia, hi-fi \ lo-fi que logo à partida representa uma grande bipartição na forma de ouvir o som. Por hi-fi quer dizer o mesmo que um engenheiro de som quereria. Uma gravação hi-fi apresenta uma relação positiva para o sinal na relação sinal/ruído e uma gravação lo-fi, por oposição apresenta uma relação negativa para o sinal na mesma relação, isto é, um ambiente lo-fi será um ambiente em que o ruído é prevalente ao ponto de interferir com a clareza do sinal (de Caro, 2008). E esta ambivalência é clara nas próprias palavras de Schafer, por um lado, os centros urbanos, por outro, tudo o que não é um centro urbano (portanto tudo o que está associado à ideia de pastoral). Schafer divide o universo dos sons em dois e mais uma vez, fá-lo tão ingenuamente que acaba por reconhecer a imprecisão dos termos quando analisados em maior profundidade. E é desta forma de pensar que Desmond Bell nos previne. A soundscape tem capacidade para ser muito mais do que Schafer previu e tem obviamente muito mais para nos oferecer que uma trivial informação acerca da qualidade dos seus sons.

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Atrevo-me assim a considerar a soundscape como não muito distinta em termos analíticos da paisagem. Os sons que escutamos num qualquer ambiente, ou pelo menos os sons que nesse ambiente temos necessidade de destacar podem muito bem, segundo a concepção de Bell, ser sons "programados" socialmente e culturalmente para serem ouvidos (Schafer pode aqui ser enquadrado como uma tentativa possível esforçada de mediação da forma como ouvimos). Porque a experiência de um lugar ultrapassa claramente o campo visual. Os aromas merecem tanta atenção da nossa parte como a imagem, assim como o som é um elemento passível de ser destacado, não obstante todos este ataques perceptuais nos inundem ao ponto de passarem despercebidos. O problema reside essencialmente na forma como, de todos os elementos que velozmente inundam os nossos órgãos sensoriais, alguns merecem maior destaque. Para Bell, creio, esse destaque seria construído através de bases sociais e culturais historicamente determinadas. Recuperando um caso já referido a propósito das vocalizações de um gorila de dorso prateado, o que nos leva a reconhecer imediatamente esse som como pertencente à área geográfica da bacia hidrográfica da República do Congo é expectável que derive da massiva quantidade de informação que relaciona esse espaço a esse animal e por consequência a esse som. Não seria de estranhar que qualquer pessoa conseguisse escutar um gorila na parafernália de sons de uma qualquer malha urbana porque simplesmente tal construção sonora não está inserida na nossa concepção de malha urbana. O som pode assim ser considerado uma marca característica de uma área porque também em relação ao som parecemos estar sujeitos a predeterminações extraordinariamente enraizadas de ordem social, cultural e histórica que aparentemente nos impedem de considerar o que é para nós primordialmente não considerável. Ou seja, tal como sucede na paisagem, antes de estarmos num qualquer ambiente dado, temos a possibilidade de o experienciar com base no conhecimento que já temos dele e portanto, mais inseridos na "grande máquina" não poderíamos estar. Ao invés, num encontro surpresa, imprevisto onde nenhuma informação nos vale, estamos segundo esta linha de raciocínio, bem mais receptivos a escutar o som e alheios a qualquer tipo de prescrições.


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