tropic appetites

'in a silent way it's about that time'

Roberto Mortágua

Forças Alucinatórias de D.H. Lawrence

Não terá sido obra do acaso a escolha de um personagem feminino como representante central e caracterizador do seu pensamento mais profundo e contingente. Há, podemos afirmar, uma certa feminidade no carácter de Lawrence, que aliás parece estar bem implícito na totalidade da sua obra literária.


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A Serpente Emplumada - Da Etnografia ao Surrealismo/Da Desconstrução ao Binário

A partir da obra de D.H. Lawrence A Serpente Emplumada, uma exploração dos espaços e das fronteiras ambíguas que caracterizam as representações ocidentais do nativo do Novo Mundo americano (com ênfase no nativo Mexicano), no contexto plástico e altamente volátil do primeiro quarto do século XX. As interligações e manifestações etnográficas dos discursos artísticos da vanguarda surrealista francesa; a fuga voraz da velha, mecânica e desalmada Europa moderna, a das trincheiras e da profunda descrença no ideal vazio do progresso perdido em terras gaseificadas imersas em sangue; na procura do exótico selvagem e primitivo, tornado familiar na intenção desmedida de uma elite intelectual onde artista e etnógrafo se confundem, se interligam e se condicionam, na representação e apropriação colectiva de um novo mundo 'genuíno' e 'autêntico' em aparente processo de extinção. Lawrence como personagem axiomática do emaranhado complexo da representação do outro, num mundo antropológico onde a metodologia etnográfica é ainda embrião, vaga e dispersa na sua norma.

'O seu desejo seria invocar também os deuses desconhecidos para que lhe repusessem um pouco de encanto na sua vida e a salvassem da esterilidade desse mundo corrompido.'D.H. Lawrence, A Serpente Emplumada

I. Surrealismo e Etnografia

No decurso das próximas palavras explorar-se-à o percurso de D.H. Lawrence desde o momento em que abandona a sua velha Europa até ao momento, em 1926, em que edita a obra literária A Serpente Emplumada. É importante acentuar o seu caminho, as suas deslocações - quer físicas, quer intelectuais - e não só os momentos de partida e de chegada, quer isto dizer, a sua estadia no México e a publicação da obra referente, na medida em que é na viajem que encontramos os momentos fractais da sua construção e representação do Novo Mundo; é na viajem que se tornam evidentes os processos de desassimilação do discurso Europeu; que se torna evidente o desprezo e a revolta do progresso e industrialização ocidental; é na viagem que o Novo Mundo é imaginado e preconcebido como única e derradeira alternativa ao caótico e desumano Ocidente em queda pós ascensão. Esta sensação dolorosa, quase penosa, presente em muitas das cartas escritas por Lawrence a amigos espalhados um pouco por todo o mundo ocidental, é em grande medida partilhada não só por um enorme número de artistas da sua geração - das mais diversas áreas (do teatro às artes plásticas, da literatura ao cinema) - mas também por um grupo de intelectuais franceses, altamente vanguardista e constituinte da base central do movimento surrealista encabeçado por André Breton.

Todos eles unos por uma personalidade sem igual no século XX e digno pai da mais experimental, inventiva e rica geração de intelectuais franceses, Marcel Mauss. E muito embora o mundo da etnografia e o mundo do surrealismo possam parecer antíteses inconcebíveis no seu desenrolar histórico, académico e artístico respectivamente, vários elementos indicam que na sua génese, estas duas formas de exploração e representação de realidades não estariam assim tão distantes uma da outra. A força matriz invisível que conduz o etnógrafo ao Novo Mundo é partilhada pelo seio vanguardista francês dos anos 20, e vice versa. Ainda que o objecto procurado por uns e por outros se tenha manifestado de formas e práticas distintas no desenrolar do século, a grande questão pilar que os leva ao êxodo é comum: a queda da ideologia do progresso; a desumanização do Homem perante a máquina; a frustração e o descredito de um ideal derramado em trincheiras, tingido a vermelho púrpura e inconcebível ao mais hábil discurso de heroísmo. A realidade tornou-se surreal no pós guerra e tanto etnógrafos como artistas partem, desalmados, numa incessante busca de 'verdade' e significado. Numa busca de opções e alternativas claramente não encontradas no Orientalismo já decorrente do romantismo do século XIX, - "which departed from a more-or-less confident cultural order in search of a temporary frisson, a circumscribed experience of the bizarre" (Clifford, 1988, pg. 120) - muito menos na África 'negra'. Lawrence, não estando só neste caminho profético, parte para a América em busca de mais do que um preenchimento do vazio ideológico deixado pela guerra, como deixa bem patente numa carta que escreveu ao seu editor em Nova Iorque, Thomas Seltzer, em 1922 "What I want in America is a sense of the future... I believe in America one can catch up some kind of emotional impetus from the aboriginal Indians and from the aboriginal air and land, that will carry one over this crisis... into a new epoch." (Ruderman, 2010, pg. 40). É verdade que podemos traçar um paralelo plástico entre um surrealista francês, como Bataille, um etnógrafo Americano, como Ruth Benedict, e um escritor britânico, como D.H. Lawrence, no acordar sombrio dos anos 20 do século XX. Mas há, ainda assim, algo em Lawrence que o destaca dos demais contemporâneos, em especial, dos mais próximos do universo artístico fluído e instável das vanguardas. Esse destaque passa pela noção que Lawrence sugeriu ter do universo metodológico do trabalho antropológico. Ao contrário de surrealistas como Bataille ou Picasso - antes da sua empreitada cubista - que manifestamente e convenientemente se apropriaram do Novo Mundo para a regeneração das ruínas do seu velho mundo, colectivo e individual, Lawrence foi mais longe e deu um passo que suplanta a necessidade frívola e vampírica do ocidental de estômago vazio, esfomeado insaciável. Lawrence, rejeitando sempre o cunho de etnógrafo - em parte pela restrição científica que a etnografia constitui e não pelas práticas que a modelam - deu-se à liberdade de usar uma metodologia que, longe de estar trancada a sete chaves numa universidade de arquitectura vitoriana, lhe pareceu pertinente e capaz de uma mais completa compreensão e apreensão do Novo Mundo que almejava abraçar. Lawrence não pisou o novo continente cego de vista, nem de história. Lawrence não era um etnógrafo, era um retratista de palavras, um inventor, um escritor. E isso, obviamente, não o impedia de dar uso à metodologia antropológica vigente à época, com o simples senão de não lhe interessar a prisão conceptual e inventiva de uma ciência legitimada para fins concretos, políticos, sociais, económicos, etc. Alegoricamente, Lawrence não colocou as algemas, mas cometeu o crime na mesma.

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'Mais do que qualquer coisa assustava-a a sensação repulsiva da terra. Visitara muitas cidades do mundo, mas o México possuía uma espécie de fealdade oculta, algo de depravado que, em compensação, fazia Nápoles parecer a própria Inocência. Kate tinha medo, medo de se ver tocada pelo que quer que fosse naquela cidade e de ficar contaminada pela sua depravação.'D.H. Lawrence, A Serpente Emplumada

II. Overturning Phase

Contextualizado o universo metódico singular de D.H. Lawrence na construção da sua arte literária, partimos para uma reflexão mais profunda, imersa e embrenhada da sua obra em análise, A Serpente Emplumada. Uma reflexão sobre como, através da ficção e das personagens imaginadas, Lawrence foi capaz de antever e utilizar, mas também de se aprisionar, em processos desconstrutivos, em sistemas de oposição binária e em jogos de inversão de género e de reorganização mitológica, na formulação de um romance em muitos aspectos paradoxal, mas que lido e atentado à margem dos hoje muito comuns desvios presentistas, se revela obra crassa, manifestante subtil de algumas redes de pensamento precursoras dos adventos intelectuais pós coloniais. Na figura de Kate Leslie, personagem que podemos considerar central e personificadora dos aspectos mais conspícuos da posição intelectual de Lawrence, encontramos o foco de ambiguidade no qual o autor deposita as suas crenças. É na figura de Kate que constatamos as impressões ocidentais do México; é na figura de Kate que vestimos e despimos o imaginário do exótico Novo Mundo; é na figura de Kate que o próprio Lawrence, invertido em sexualidade, flutua entre humores e desamores, entre fascínios e aberrações, entre a esperança e a descrença. A partir de Kate e da sua construção ocidental (irlandesa católica), Lawrence encarna a serpente emplumada que na sua ficção constitui a representação divina de um novo mundo prestes a convergir na ruína deixada pelo branco monoteísta ocidental.

'A política e toda essa religião social com que Montes se preocupa equivale a lavar a casca de um ovo para lhe dar um aspecto limpo. A mim, porém, só interessa lavar o interior ... Ah, Cipriano! O México é tal um ovo que o Tempo choca desde séculos neste ninho do mundo e que parece ser goro. Parece, mas não é. O que precisa é de calor que ajude a formação da ave. Montes quer limpar o ninho e lavar o ovo ... Que aconteceria se tirassem um ovo de baixo duma águia para o lavar? Arrefeceria de vez. Pois quanto mais se empenharem em arrancar este ovo da pobreza e da ignorância mais depressa ele morrerá. Pobre Montes! Todas as suas ideias são americanas ou europeias. E a velha pomba da europa jamais poderá chocar com êxito o ovo escuro da América. Os Estado Unidos não morrem porque não estão vivos. É um ninho de ovos de loiça e por isso se conservam limpos. Mas aqui, Cipriano, aqui é necessário incubá-los antes da limpeza do ninho.'(Lawrence, 1926, pg. 186)

O excerto acima citado de A Serpente Emplumada (conversa entre Don Ramón e Don Cipriano), manifesta a natureza do culto que Don Ramón pretende instigar no âmago cognitivo dos seus conterrâneos nativos mexicanos. Ainda que europeizados, quer Don Ramón, quer Don Cipriano, representam na ficção de Lawrence a pequena fação da elite mexicana constituída por nativos americanos, instruídos ou educados a dada instância das suas vidas no ocidente, mas regressados plenos na sua revolta e vontade instigadora de mudança. Estas duas personagens encarnam o espelho negativo de Lawrence, isto é, o nativo que partiu rumo ao ocidente. Os processos por que passam na travessia de mundos e ideologias, na travessia de fronteiras e de crenças, são em muitos aspectos paralelos opostos aos que o ocidental Lawrence atravessa na sua fuga ao desalmado e estéril progresso industrial moderno. Quer um, quer outros, partem numa busca preconcebida e consciente de formas alternativas e de redefinição, enunciando neste aspecto James Clifford e a ideia de tornar familiar o estranho e estranho o familiar. Redefinição essa criada precisamente pelo choque, pelo confronto e pelo conflito assente no contacto com o exótico, que em si é factor determinante na percepção identitária de cada um. A reinvenção da sua ancestral religião, encetada por Ramón e Cipriano, é a primeira de várias reversões que Lawrence desenvolve ao longo do romance. Um outro aspecto da desconstrução pioneira e criativa de Lawrence em A Serpente Emplumada, ainda no contexto da crença e do divino, prende-se com a homologação inversa da célebre práctica dos autos-da-fé. Na sua obra, Lawrence atribui a Don Ramón e a Don Cipriano o poder outrora atribuído aos conquistadores cristãos, de remover e queimar os símbolos e as imagens sagradas nativas, substituídos na consequência pelos ícones cristãos.

'Não se lhe encontrava harmonia, não se lhe reconhecia emoção. Apenas música, apenas um grito na noite, perfeito e longínquo. Mas ia direito à alma, à alma eterna e antiga, aí onde só pode a família humana encontrar-se em imediato contacto. Kate logo o sentiu, e de forma fatídica. Seria inútil resistir, inútil fazer qualquer esforço. O som ia até ao âmago do ser, em que não existe esperança nem dor, mas só a paixão, que semelha uma ave no seu caminho, de asas dobradas, e a fé uma árvore de sombra.' (Lawrence, 1926, pg. 125)

O imaginário e as prácticas discursivas através das quais o conquistador/colonizador ocidental construiu o mundo conquistado/colonizado, aludiram em grande medida à alegorização do corpo terrestre 'conquistado' como sendo um corpo feminino. Um discurso imerso em delicadezas sem fim e fragilidades puritanas que hoje aterrorizariam a menos ávida feminista, alegorizava os novos mundos como belas mulheres, nuas e delicadas. Virgens de beleza exótica, imprópria a qualquer bom católico, dotadas de inimagináveis poderes de persuasão e sedução, que terminavam não obstante num romance exótico tipo, com o colonizador Europeu a ceder perante a diabolização sexual da exótica indígena. Em A Serpente Emplumada o mesmo não encontramos. Não fosse um cliché literário da época, Lawrence acabaria de qualquer maneira por lhe fugir, ou mais acentuadamente, em o negar. Isto porque, ao longo da sua obra, há uma manifesta compreensão e abordagem à questão do feminino na era moderna e sua respectiva emancipação, longe do mundo ocidental dos homens. Não terá sido obra do acaso a escolha de um personagem feminino como representante central e caracterizador do seu pensamento mais profundo e contingente. Há, podemos afirmar, uma certa feminidade no carácter de Lawrence, que aliás parece estar bem implícito na totalidade da sua obra literária, de alguma forma explicito nalguns dos elementos basilares do carácter de Kate. Numa ficção sem herói, é em Kate que recai a mais pesada e fracturante conversão.

No desenrolar de A Serpente Emplumada, Kate atravessa os estágios próprios de uma reeducação, em primeira instância degenerativa (a fase do confronto com o México, em que tudo é horrorífico, desprezível e susceptível a negras e obscuras formulações), e em segunda instância regenerativa (a fase em que se apropria de uma nova rede de conhecimentos, se torna a representação viva de uma deusa Azteca na reconstrução ritual de Don Ramón, e se casa com Don Cipriano). Ao contrário da representação histórica e mitológica de La Malinche, que é a personificação da nativa Azteca que se rende aos encantos do conquistador espanhol Hernán Cortés (líder da expedição militar responsável pela queda do Império Azteca) e que acaba traindo o seu povo, num golpe de marionete encetado por Cortés (que a descartou mãe, findo o interesse), Kate represente na obra de Lawrence o inverso polar do colonialismo.

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'As mulheres de Navajo, quando tecem as mantas, deixam na ponta um buraquinho para a alma sair; não tecem a sua alma juntamente com a manta. Sempre me pareceu que a Inglaterra tecia a almas nas suas fábricas, e em tudo o que fazia, sem deixar buraco para a alma sair... Por isso toda a sua alma está agora nas mercadorias e em mais nenhuma parte.'D.H. Lawrence, A Serpente Emplumada

III. Desconstrução

Em A Serpente Emplumada, D.H. Lawrence enceta um pioneiro esforço de desconstrução do establishment colonial, simultaneamente que embarca numa maré reconstrutiva ilusoriamente inovadora. Através da polarização de elementos coloniais em elementos de advento nativo-americano, desenvolve um romance capaz de genuinamente nos afectar, quer pelo jogo alternativo que manipula através do uso de vocabulário, gramática e discurso diferenciador, quer pela aparência regeneradora da sua ficção. Apesar de tudo, e glorificando o esforço e a intenção de uma obra editada em 1926, Lawrence não consegue fugir ao paradigma ocidental, eurocêntrico. Metaforicamente, se alguém desconstruísse e reduzisse a Pirâmide de Gizé aos blocos que à milénios a construíram e se desses blocos se construísse uma nova estrutura, por menos piramidal que fosse, seria sempre uma estrutura feita a partir dos mesmos blocos que constituíram a Pirâmide de Gizé. Mas se por outro lado, alguém introduzisse nessa reconstrução um, ou mais, novos elementos (como o ferro, o alumínio, o plástico, etc.), aí sim, estaríamos perante um novo objecto na sua plenitude. Com toda uma nova embarcação de significados, livres do terreno sinuoso e paradigmático da reconstrução em si mesma, feita a partir dos destroços do que já esteve 'em pé'. A obra de Lawrence é uma extraordinária ficção, mas para que pudesse existir uma nova rede de significados e um abandono completo do peso histórico do sistema desconstruído, seria necessária uma voz independente desse mesmo sistema, nesta caso, uma voz nativa mexicana a falar por si própria. A regenerar o seu próprio mundo. A Serpente Emplumada é um objecto literário pioneiro e revelador, mas nunca foi nem nunca será capaz de escapar a si mesma, como prática eurocêntrica de um discurso eurocêntrico.


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