tropic appetites

'in a silent way it's about that time'

Roberto Mortágua

Visões poéticas

Por cada pedaço de expressão alheia, uma visão poética minha. Esta é a minha verdade. Palavras imaginadas de Federico Garcia Lorca, Jean-Paul Sartre, Jorge Luis Borges, Sylvia Plath, Sophia de Mello Breyner Andresen, Julio Cortázar e Álvaro de Campos.

Lembro‐me, em criança, de perguntar a alguém se o pensamento tinha outra forma que não a imagem. Não saberei dizer quem terá sido o infeliz que teve de lidar com esta criança com pouco mais de 10 anos, curiosa demais para bom catequista. É uma questão que ainda hoje me acompanha e que muito provavelmente me acompanhará até aos confins deste mundo ou de um qualquer outro que se lhe siga. Não sei se advirá da minha incapacidade em pensar num abstracto que não acredito que exista a não ser no vácuo. Esse lugar que é tanto da vida como da morte, lugar sem tempo e sem espaço para almas, vácuo... que som inquietante, tão vivo na acentuação inicial para logo se desvanecer no prolongar silábico infinito da palavra. Nunca irei encontrar uma resposta que me satisfaça, disso tenho a certeza. Tal como tenho a certeza que se não continuar a questionar, nunca vou continuar a saber que continuo sem nada saber. Mas tenho para mim, nas minhas incursões em vários mundos artísticos, que algures na rede que dá origem e constrói o pensamento, há sempre uma imagem. Um hieróglifo cujo sincretismo só a nós pertence e que tudo nele contém. A tradução de um estímulo que talvez nunca venhamos a ser capazes de apreciar sem modulação, sem transcrição. O pensamento leva‐me portanto à imagem. Sempre à imagem. O som leva‐me à imagem. Os aromas levam‐me à imagem. A imaginação é imagem. A palavra pensada é imagem. A escuridão é imagem. A tal imagem que nem mil palavras conseguiriam explicar porque jamais possuirá uma essência absoluta estável. Cada um de nós, com a sua pedra de roseta única e intransmissível, construída pelos nossos passos em volta, por todos estes sons, aromas, sabores e desígnios, vê a sua verdade num espaço onde todas as verdades são infinitas.

Nesta busca, depois de muitos anos com a câmara fotográfica escondida do olhar, decidi pois tentar captar imagens que compreendessem alguma da minha verdade. Imagens nascidas das palavras e poesia de artistas que não se conformaram com o espectáculo passivo da vida e se lançaram nos meandros da expressão. Seja ela de que tipo ou forma for. Expressão pura, expressão ingénua, bela ou horrenda, política ou idealista, certa ou errada, preta ou branca.

Por cada pedaço de expressão alheia, uma visão poética minha. Esta é a minha verdade.

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lazarus

'El silencio, 

Oye, hijo mío, el silencio. 

Es un silencio ondulado, 

un silencio, 

donde resbalan valles 

y ecos y que inclina las frentes 

hacia el suelo.' 

Federico García Lorca

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self strangulation

'I exist. It is soft, so soft, so slow. And light: it seems as though it suspends in the air. It moves.' 

Jean-Paul Sartre, in Nausea

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time doesn't care about fences

'Time is the substance I am made of. Time is a river which sweeps me along, but I am the river; it is a tiger which destroys me, but I am the tiger; it is a fire which consumes me, but I am the fire.'

Jorge Luis Borges, Labyrinths: Selected Stories and Other Writings

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lizard on the beach

'Soy el que sabe que no es menos vano que el vano observador que en el espejo de silencio y cristal sigue el reflejo o el cuerpo (da lo mismo) del hermano.

Soy, tácitos amigos, el que sabe que no hay otra venganza que el olvido ni otro perdón. Un dios ha concedido al odio humano esta curiosa llave.

Soy el que pese a tan ilustres modos de errar, no ha descifrado el laberinto singular y plural, arduo y distinto,

del tiempo, que es uno y es de todos. Soy el que es nadie, el que no fue una espada en la guerra. Soy eco, olvido, nada.'

Jorge Luis Borges, Soy

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swallow sea

'I am silver and exact. I have no preconceptions. 

Whatever I see I swallow immediately

Just as it is, unmisted by love or dislike.

I am not cruel, only truthful.'

Sylvia Plath, excerpt from Mirror

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praia nua

'De todos os cantos do mundoAmo com um amor mais forte e mais profundoAquela praia extasiada e nua,Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.'

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar

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casa tomada

'Como me quedaba el reloj pulsera, vi que eran las once de la noche. Rodeé con mi brazo la cintura de Irene (yo creo que ella estaba llorando) y salimos a la calle. Antes de alejarnos tuve lástima, cerré bien la puerta de entrada y tiré la llave a la alcantarilla. No fuese que algún pobre diablo se le ocurriera robar y se metiera en la casa, a esa hora y con la casa tomada.'

Julio Cortázar, Casa Tomada

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_exist not

'Começo a conhecer-me. Não existo. Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade desse intervalo, porque também há vida ... Sou isso, enfim ... Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. É um universo barato.'

Álvaro de Campos, em Poemas

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