tudo acaba em canções

-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Os cadeados do Amor

Como guardar o Amor num cadeado pendurado numa ponte, deitando fora a chave?
Como deitar fora a cautela, a segurança, o medo em prol do risco que é amar?


ll-_07_700.jpg in aparede.com Stendhal escreveu em L'Amour (1822) sobre a matemática do Amor, feita de cristalizações, de beleza, de prazeres, de pudor, de ciúme, de olhares. Neste "tratado do Amor" diz o escritor : " O que garante a duração do amor é a segunda cristalização, durante a qual se sente a cada instante que se trata de ser amado ou de morrer. Depois desta convicção de todos os minutos, convertida já em hábito após vários meses de amor, como seria possível poder suportar a ideia de deixar de amar?"(1)

A nossa sociedade deixou de amar. Há encontros- relâmpago, encontros virtuais, casos de uma noite, amigos coloridos, amigos a três ou a quatro, tudo numa tendência take-away, rápida, eficaz, prazeirosa. A descartabilidade impera, trazendo menos mágoa, menos dor, menos risco. Compreende-se e respeita-se.

Onde está o Amor? Ter-se-á perdido a capacidade de amar, de sofrer em conjunto para ultrapassar ventos e marés, de estar "lá" nos momentos importantes porque dá muito trabalho? Talvez a resposta seja o número crescente de divórcios que, em virtude da crise, estagnou, como águas paradas, algumas sem solução imediata. Já se analisou a "química do Amor", já se analisou ao quadrado, demais, o Amor. Não será o Amor uma experiência para viver em pleno, saltando em "queda livre", sem medo?

Já não há muitas "quedas-livre", tudo é calculado e ,se não é, a excessiva intelectualização desta "cristalização", tudo destrói.

Felizmente continuam a existir românticos que penduram cadeados nas pontes, como é o caso da ponte D.Luís no Porto. Aí estão colocados vários cadeados fechados, tendo sido a chave deitada fora, como se aquele fosse um compromisso para toda a vida, uma aliança entre os amantes. Em Paris, em Florença e em Colónia há muitos cadeados colocados nas pontes. Nesta última cidade (haverá lá muitos românticos ou será moda?) estão pendurados 40.000 cadeados.

IMG_2036.jpg

Foto in donttouchmymoleskine.com

Stendhal teria razão ao afirmar "Como as paixões amorosas são mais intensas, podemos deixar de lado as ideias negras e falar das ridículas"?

Sejamos ridículos, então, não apenas no dia de S.Valentim mas todos os dias, sem medo, de asas nos pés, livres para o Amor, e também de pés na terra.

(1) Do Amor, Stendhal, Clássicos Relógio D'Água, 2009


marina malheiro

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