tudo acaba em canções

-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Caligrafia de sons

Como podemos desenhar imagens sonoras no nosso cérebro? Como escutar mesmo em silêncio?


418522_337023283016661_313656718686651_994912_578430015_n.jpg Foto in Clínica do Deficiente Musical (Via Facebook)

O neurologista e investigador António Damásio escreveu em O Livro da Consciência(1), sobre de que modo se fazem mapas e imagens no cérebro, em particular sobre o mapeamento do som : (...)tem início naquilo que no ouvido equivale à retina: a cóclea, situada no nosso ouvido interno, uma de cada lado.(...) No topo de uma célula ciliar um tufo de pêlo move-se segundo a energia sonora, provocando uma corrente eléctrica que é captada pelo axónio terminal de um neurónio (...) envia mensagens ao cérebro através de seis estações, distintas e separadas, que formam uma cadeia. (...)".

É assim que se processa a maravilha da escuta, do ouvir. Uma caligrafia de sons na nossa mente, com alma, com vida que deslizam por "edifício" em forma de caracol.

Cada "caligrafia" sonora desenhada no nosso cérebro é nossa, privada e não pode ser observável por outros.

Quer isto dizer que o puro acto de escutar é único e individual; podemos todos gostar de ouvir isto

Shostakovich, Waltz nº2

mas a nossa caligrafia de sons é diferente.

Afirma ainda Damásio (...) Os padrões mapeados constituem aquilo que nós, criaturas conscientes, apreendemos como sons, texturas, cheiros, sabores, dores e prazeres- ou seja, imagens."

Apreendemos

o silêncio também, a pausa na nossa cadeia de sons, uma pausa necessária, equilibrante.

O filme "O Artista", galardoado com 5 óscares, é um filme mudo, belíssimo e com acompanhamento musical. O que é magnífico e Damásio dá-nos a resposta é de como podemos ver um filme destes e nos emocionarmos, em silêncio: " (...) ao vermos um movimento específico dos lábios numa gravação vídeo sem som, por exemplo, - o padrão de actividade induzido nos córtices visuais primários vai activar a CDZ ( grupo de neurónios) apropriada e esta irá retroactivar nos córtices auditivos primários a representação do som que acompanhou originalmente o movimento dos lábios".

Daí que nos tenha trazido, em puro momento de Beleza , mesmo em silêncio, a nossa caligrafia de sons.

(1)Damásio, António, O Livro da Consciência, Temas e Debates, 1ª edição, Setembro de 2010


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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