tudo acaba em canções

-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Silêncio cantante

Onde fica o compasso das emoções? O espaço do silêncio nas nossas vidas apressadas e com sons de movimento, sem pausas?


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Foto(Lisboa, 2011) @marinamalheiro ( todos os direitos reservados)

O poeta António Ramos Rosa escreveu, de forma sublime, sobre o Silêncio : "Escuto na palavra a festa do silêncio. Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. (...)

In "A Festa do Silêncio", Volante Verde

Há atualmente uma necessidade excessiva de tudo dizer, de tudo traduzir em palavras, de pensar sobre tudo e nada. E o espaço do Silêncio? Onde fica o compasso das emoções? Daquelas cortantes e dolorosas? Das magníficas e felizes? Por que não guardá-las? no olhar , na cumplicidade das horas com os outros?

Os músicos Simon and Garfunkel escreveram a bela canção "Sound of silence" ,nos anos sessenta, pensando sobre o espaço do silêncio nas emoções, nem sempre traduzíveis em palavras, em sons agudos ou graves, em melodias.

O compositor John Cage disse em tempos que a música era fala, como se alguém expressasse os seus sentimentos e as suas ideias: "Não preciso de som para falar comigo". Ora escutem o grande John Cage " gosto dos sons como eles são":

Também a coreógrafa e bailarina Pina Bauch abordou o Silêncio, como, por exemplo, aqui

Tão cantante o silêncio, mesmo em vozes mudas ... sempre conversando nos espaços dessa música interior, que é a música das emoções.

Mesmo na cena mais dolorosa do filme " O piano" (1993) em que o marido corta os dedos da mão da mulher(pianista) por esta o ter traído, o Silêncio está lá todo no olhar da mulher. Nem precisaríamos de Nyman para traduzir tamanha dor.

No entanto, como afirma Ramos Rosa, no poema que abre este artigo : " Nada é inacessível no silêncio ou no poema. É aqui a abóbada transparente, o vento principia. No centro do dia há uma fonte de água clara. Se digo árvore a árvore em mim respira. Vivo na delícia nua da inocência aberta. "

O Silêncio é belo pois é cantante em nós e naqueles com os quais compartilhamos alegrias, tristezas, dores, amores, ternuras.


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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