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-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Asas nos pés

Por que correm as pessoas? O que é a corrida nas nossas vidas? Por que corre Murakami? E Lidell?


eric-liddell-gbr-treina-a-largada-ele-foi-campeao-dos-400-m-1316460984086_615x300.jpg Eric Liddell in olimpiadas.uol.com.br

A 100 dias da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, nos quais irão participar cerca de 80 atletas portugueses, é importante escrever sobre uma das modalidades desportivas, a corrida, cuja prova mais grandiosa é a maratona e para outros "fundistas" é a corrida da milha. Longe vão os tempos em que um atleta português chamado Francisco Lázaro, maratonista, morreu de desidratação nos Jogos Olímpicos de 1912 (Suécia). Distantes mas saudosos são os tempos de Eric Lidell(1), o atleta e missionário escocês, cuja vida " de asas nos pés" foi retratada no belíssimo "Chariots of fire" (1982). Lidell venceu a prova dos 400 metros, obtendo a medalha de ouro com o tempo de 47,6 segundos nos Jogos Olímpicos de 1924. Depois das competições como atleta, Lidell foi missionário e acabou por morrer em 1945 num campo de concentração das forças japonesas , juntamente com cidadãos britânicos. Lidell representa todos os corredores que partilham os seus momentos de glória, com desportivismo, algo que atualmente deu lugar ao protagonismo e à desunião entre os atletas. Se Lidell é homenageado neste filme, Murakami homenageia todos os atletas e todos os futuros escritores no livro Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo (2). Poderemos perguntar "corres porquê"? No meu caso, a corrida começou em 2009 como uma necessidade natural e espiritual como se fosse uma meditação " Nunca se torne um especialista na corrida; (...) sinta a paz de espírito"(3) . Seguiram-se depois as provas, sempre em prol dos outros, sem classificação. Pouco importam as classificações. A corrida é um prazer, sim, e paradoxalmente, um momento solitário e acompanhado pelo Mundo, pois ao correr observamos a vida, os outros, e faz-se uma meditação ativa inconsciente. Correr no silêncio " Continuo, pura e simplesmente, a correr nesse confortável vazio que me é tão familiar, no interior do meu nostálgico silêncio" (2). Começou Murakami a correr aos 33 anos, primeiro curtas distâncias e depois médias e longas. Comprou um cronómetro e desenhou planos de treino. A escrita veio com a corrida, pelas ruas, olhando para as gentes. E, ao mesmo tempo, para o escritor, a escrita é uma prova de fundo, a milha. Os escritores; (...) "pensamos com todo o corpo, envoltos por uma vestimenta que dá pelo nome de "história" ou "narrativa". E esta operação exige ao romancista a sua reserva de energia física, muitas vezes obrigando-o até ao limite máximo." Talvez ,se Camilo Castelo Branco vivesse no nosso século, seria um corredor de fundo, já que escreveu o brilhante Amor de Perdição em apenas um mês. Agradecer à corrida, talvez seja por isso que milhares de pessoas correm todos os dias, nas ruas, nas pistas, em todo o Mundo, indiferentes ao tempo, livres no seu prazer. Notícias como a do Jornal "The Guardian" contando a história bonita do maratonista Simon Whetcroft, que cegou aos 18 anos, e decorou os caminhos das suas corridas. Corre em silêncio, sozinho. A corrida é , pois, a esperança em nós, o não desistir nas corridas de obstáculos que surgem à nossa frente e é lentamente, a escrita do nosso caminho, de asas nos pés, soltos e livres como Hermes, filho de Zeus. Esta é a música que acompanha todas as minhas corridas. (1) http://www.ericliddell.org/ (Todos os direitos reservados a Bruce Springsteen) (2)Murakami, Haruki, Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, Casa das Letras, 1ª edição, Novembro de 2009 (3) Osho, Meditações, 2009


marina malheiro

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