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-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Despojos de guerra em Amesterdão

Em Amesterdão respira-se paz e liberdade mas há silêncios e despojos de uma guerra ainda próxima.


20112 120.JPG foto minha/Amesterdão, Março de 2012

"Vrede" significa paz em holandês. É paz e liberdade que se sente em Amesterdão nos dias de hoje, em particular em 2012. As 600.000 bicicletas de todas as cores e feitios que circulam por toda a cidade são talvez o símbolo maior desta liberdade. Apesar dos holandeses terem ,na sua maioria, um nível de vida desafogado, há um claro despojamento dos bens materiais. As cortinas abertas nas casas são talvez uma abertura a não ocultar nada. "Oorlog" quer dizer guerra e os despojos de guerra sentem-se ainda em Amesterdão, tal como em Malta, na cidade magnífica de La Valleta que foi bombardeada 100 vezes ,num único dia, na 2ª Guerra Mundial. Se em Malta estas marcas de guerra são visíveis no porto de La Valleta ou num abrigo subterrâneo que é agora um museu, em Amesterdão estes despojos de guerra são sentidos no bairro judeu, na casa-museu Anne Frank, no Museu dos Judeus e no Museu da Resistência e no silêncio dos holandeses em relação a este assunto. Talvez porque a 2ª Guerra Mundial tenha terminado há apenas 67 anos... Entrar na casa da querida Anne Frank(1) e da sua família e subir ao sótão ,onde viveram escondidos das SS, até serem levados para o campo de concentração,é impressionante,como se transpuséssemos uma ficção para uma duríssima realidade. No Museu Histórico dos Judeus em Amesterdão está lá a Guerra. Ainda. Está lá a História e a demanda pela terra prometida, Jerusalém. Estão lá os despojos de guerra, os objetos de muitos judeus que morreram nos campos de concentração. Estão lá os nomes; Cohen- exposição de fotografia coletiva de Daniel Cohen"My name is Cohen"(2) sobre de que modo um apelido influencia a forma como o Mundo nos vê. A mala de viagem do grande Leonard Cohen está no piso de cima, junto a todos os judeus holandeses. Há nomes portugueses também, pois os judeus sefarditas fundaram em Amesterdão, no século XVII, a Sinagoga portuguesa que conta agora ,apenas com 700 membros, em virtude do extermínio na 2ª Guerra Mundial. Os Campos Henriques , os "Paraira"e uma exposição de pintura de um casal de pintores judeus holandeses também executados num campo de concentração no piso da entrada. Mas é no Verzets Museum Amsterdam (Museu Holandês da Resistência) que chegamos à Guerra mesmo e à resistência e bravura destes holandeses, primeiro pelo olhar do fotógrafo amador Karel Bonnekamp(3)- retratando ,de modo clandestino, a Amesterdão ocupada pelos nazis, depois pela homenagem aos corajosos grevistas do fabrico do leite (em 1943- os agricultores holandeses recusaram-se a entregar leite como forma de protesto pela captura de 300.000 soldados do exército holandês)e a todos os resistentes- médicos, professores, operários das fábricas Philips, trabalhadores ferroviários, mineiros. O movimento de resistência "The Core" conseguiu esconder 25.000 judeus. Para além desta força holandesa, em Amesterdão e por toda a Holanda, é impressionante a resistência dentro dos campos de concentração. As prisioneiras holandesas, judias ou do movimento de resistência, bordaram mensagens nas suas roupas, nos lenços. Em alguns destes belíssimos pedaços de resistência há histórias dos campos de concentração, mensagens de esperança, amizade e amor. "Weerstand" é resistência em holandês; fugiram da Holanda na 2ª Guerra Mundial 3000 judeus, foram deportados 100.000 judeus para os campos de concentração. "Moed" é a palavra que devemos guardar sobre o povo holandês- pois em cima das muitas bicicletas de Amesterdão corre nas veias dos holandeses, muita coragem.

(1) Casa Museu Anne Frank (2) Museu Histórico dos Judeus/Sinagoga Portuguesa (3) Museu Holandês da Resistência- Exposições até Abril 2012


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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