tudo acaba em canções

-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Barro

Todos somos barro, escrita, desconstrução diária, em aprendizagem, lendo a Vida.


9junho 009.jpg No livro (1), recentemente publicado pela Relógio D'Água( Abril de 2012), o escritor Rui Nunes dá-nos, e o verbo "Dar" é aquele que se deve aplicar a todos os que nos transmitem a Beleza, a escrita toda, em Barro: "(...) um livro acarinha como o sossego de um atalho que nos leva ao encontro? à nossa face, passo a passo, redesenhada? Um livro é a voz que o lê? Onde se perde?"

Em todo o lado, pelas ruas, há livros, há escrita, há palavras- escritas nas paredes, nos bancos de jardim, escritas em nós, barro em nós.

Se barro é argila e insignificância da matéria humana, somos todos barro, somos todos escrita.

Todos os dias nos construimos, descontruímos, nos moldamos, somos pó, terra, água , e lemos a Vida : " Todas as manhãs são uma aprendizagem. De como a vida se lê do fim para o princípio. Da direita para a esquerda. Eu sei. A legenda ininterrupta. O moinho que leva da farinha ao grão. E do grão ao semeador. Aos dedos calejados, por onde tudo se escoa." (in BARRO, p21)

Tal como o texto desconstruído de Derrida (1967): "Desconstruir um texto não é procurar o seu sentido, mas seguir os trilhos em que a escrita ao mesmo tempo se estabelece e transgride os seus próprios termos, produzindo então um desvio [dérive] assemântico de différance. " (Ceia,in E-Dicionário de Termos Literários)nós somos desconstrução, barro moldável, escrita diária e músical.

Também a música é feita de silêncio, de pausa, de uma escrita de sonoridades. A música organiza no som e no tempo, é construção sonora, contudo, para muitos, a música pode ser desconstrução. O Jazz,por exemplo, na sua forma " free" , permite esta desconstrução do som, do pré-estabelecido, da liberdade musical e O ouvinte reinterpreta o " barro musical" e reconstrói a música para si. Toda a reinterpretação musical é única, tal como o texto " há dias em que a história , a nossa, se desprende de nós, e desaparece: um frio cria-se nesta ausência." ( Nunes, in Barro, p.22).

Há músicos que leram a Vida, foram Barro e nos deixaram muito, em Beleza. É o caso de Bernardo Sassetti. Ao músico e em sua memória, deixo aqui a música1 de Alice.

(1) Nunes, Rui, Barro, Relógio D'Água, Abril de 2012


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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