tudo acaba em canções

-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Da inutilidade

Somos todos operários em construção? Na engrenagem económica passámos todos a ser inúteis?


by-robert-doisneau-d7q0w5qj-89602-400-578.jpg Foto Robert Doisneau ( todos os direitos reservados a Robert Doisneau)

Se procurarmos a definição de inutilidade num simples dicionário encontraremos "qualidade do que é inútil", " sem préstimo". Se dantes atribuíamos esta qualidade às coisas, cada vez mais atribuímos às pessoas esta "inutilidade". A bem da Economia há cada vez mais pessoas sem préstimo, inúteis para a máquina do trabalho, ou porque são muito velhas para trabalhar, ou porque são muito qualificadas. As pessoas, os trabalhadores, passaram a ser números na engrenagem económica, números a dispensar em virtude de déficits estatais, em virtude do poder da macroeconomia.

Fernando Pessoa, o maior poeta contemporâneo português, teve uma arte inútil, a arte poética. Para sobreviver trabalhou como escriturário e tradutor, talvez para dar utilidade à vida. Muito do que escreveu ainda está por publicar; cartas, poemas, escritos vários. Pessoa escreveu também sobre Gestão e Economia na "Revista de Comércio e Contabilidade". Em Abril de 1926 escrevia sobre as "Três categorias de homens": "Os homens dividem-se, na vida prática, em três categorias- os que nasceram para mandar, os que nasceram para obedecer , e os que não nasceram nem para uma coisa nem para outra(...). Considera que os últimos mandam apenas pelos cargos que ocupam, não porque nasceram para isso.

Noutro pequeno texto "Três tipos de energia", Pessoa considera que o trabalhador "Corre numa calha indefinidamente e com grande utilidade social"(...) Já o organizador " (...) faz só calhas e moldes".

António Gedeão escreveu o poema, e não são inúteis as palavras, "Calçada de Carriche" , sobre Luísa, uma mãe, mulher, trabalhadora que "Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada. Sobe, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe sobe a calçada (...)

desce a calçada, desce a calçada, chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa (...)".

Vinicius de Moraes no seu poema "Operário em construção" emociona quando lemos "(...)Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa - Garrafa, prato, facão - Era ele quem os fazia Ele, um humilde operário, Um operário em construção. Olhou em torno: gamela Banco, enxerga, caldeirão Vidro, parede, janela Casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão.(...)

Miguel Torga, o poeta da força, da liberdade, do Homem, considerou que " A vida afectiva é a única que vale a pena. A outra apenas serve para organizar na consciência o processo da inutilidade de tudo."

De facto, os afectos, o amor, a amizade são grandiosos, no entanto, temos de ser úteis, operários em construção diária, para além da macroeconomia, para além da contagem numérica, das estatísticas. Temos de ser considerados pessoas na engrenagem social.


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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