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marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# O despojamento musical

Forçado ou não está a haver um despojamento material; viver com menos nos tempos difíceis. Como dizia Agostinho da Silva : " "A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das propriedades que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, propriedade de gente, propriedade de si próprio."

Esse despojamento material forçado para muitos poderá implicar um despojamento sensorial, por exemplo?


Robert-Doisneau-002.jpg Foto Robert Doisneau ( todos os direitos reservados a Robert Doisneau)

Numa sociedade de consumo criou-se o hábito de comprar produtos úteis e inúteis. Os inúteis nunca são usados. Pode-se questionar o que é a utilidade e se essa utilidade tem de ser apenas material, uma coisa, um objeto ou também espiritual, sensorial, etc. Ora, com a crise económica que grassa na Europa e por todo o Mundo, as pessoas deixaram de comprar tanto e passaram a escolher os produtos inúteis, priorizando os úteis. Por exemplo, o indicador de confiança do mercado interno em Portugal, em Agosto, era de -16,6% ( dados do INE).

Forçado ou não está a haver um despojamento material; viver com menos nos tempos difíceis. Como dizia Agostinho da Silva : " "A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das propriedades que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, propriedade de gente, propriedade de si próprio." Esse despojamento material forçado para muitos poderá implicar um despojamento sensorial, por exemplo?

Vivermos sem música, em absoluto silêncio? Deixarmos de comprar discos, de ir a concertos, de escutarmos música nos I-todos? Como afirmou Susan Sontag (1)"A música é ao mesmo tempo a mais maravilhosa e mais viva de todas as artes- é a mais abstracta, a mais perfeita, a mais pura- e a mais sensual. Oiço com o meu corpo e é no meu corpo que se desperta o desejo em resposta ao entusiasmo e à emoção incorporado nesta música".Se a música é o pulsar da vida em nós, como poderemos deixar de viver com este prazer tão inútil e útil, ao mesmo tempo?

John Cage teria feito 100 anos no dia 5 de Setembro. Este compositor magnífico da improvisação, da desconstrução musical escreveu e compôs sobre o Silêncio, que não mais é do que uma forma de despojamento na música. Do Nada. "Não há tal coisa como um espaço vazio ou um tempo vazio. Há sempre algo para ver, algo para ouvir. Na verdade, por mais que possamos fazer um silêncio, nós não podemos" afirmou Cage.

Compôs estes 4 minutos e 33 segundos http://www.youtube.com/watch?v=zY7UK-6aaNA&feature=related

( BBC/ todos os direitos reservados a John Cage /BBC)

Afirmou em Beleza, Cage : "Qual é o propósito de escrever música? Um deles é, naturalmente, não lidar com fins mas tratando com sons. Ou a resposta deve assumir a forma de um paradoxo: a propósito proposital ou uma peça sem propósito. Este jogo, no entanto, é uma afirmação da vida(...)mas simplesmente uma forma de despertar para a própria vida que estamos vivendo, que é tão excelente uma vez que se fica a mente e os desejos de seu caminho e deixa-lo agir por conta própria. "

Ama-se a música como Cage amou; em silêncio, em ruído, desconstruída, improvisada, fluindo como a vida.

De facto, há sempre algo para ver e para ouvir , para fruir, com o corpo todo e para isso, mesmo que haja despojamento material, não nos pode ser retirado, esse prazer inútil e belo.

Ouçamos Jonh Cage http://www.youtube.com/watch?v=VdWS4g6Xv8k&feature=related

Music for Michel Duchamp (1947)

Poderá escutar aqui toda a música de John Cage http://johncage.org/2012/


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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