tudo acaba em canções

-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# A vida em tradução

Poderá a Vida ser traduzida por todos os meios e formas?

Teremos de escrever, fotografar, filmar, musicar a Vida, sempre?

Onde termina a tradução?

Miguel Torga escreveu a propósito da vida :"Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida — esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim — é para se viver, não é para se fazer dela literatura."


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Foto Marina Malheiro/ Marvão , Portugal ( 2011) @todos os direitos reservados a Marina Malheiro

Miguel Torga escreveu a propósito da vida :"Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida — esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim — é para se viver, não é para se fazer dela literatura."

Vida para se viver, vida para não ser escrita. No entanto, Torga como a maior parte dos escritores e poetas fizeram a sua tradução da vida, para ,de certa forma, a "lermos" de outras formas menos pragmáticas ,mais emotivas.

Sempre em desassossego todos os poetas desde sempre, traduzindo as suas tristezas, as suas alegrias.

Bernardo Soares, um dos heterónimos de Fernando Pessoa , escreveu a propósito da realidade : "Não há problema senão o da realidade, e esse é insolúvel e vivo. Que sei eu da diferença entre uma árvore e um sonho? Posso tocar na árvore; sei que tenho o sonho. Que é isto, na sua verdade?".

Na verdade, a realidade de cada um é de "uma intimidade profunda" e para muitos é indissociável do sonho. Para muitos "sonhar acordado" é uma realidade.

Os músicos tentaram também traduzir a Vida em música . Se John Cage quis inovar traduzindo o Silêncio na música, Steve Reich tentou misturar sonho/ vida / tempo no movimento de um comboio, p. ex.

Cantores tentaram reinterpretar a Vida em canções. Ora escute lá...

http://www.youtube.com/watch?v=rmf1AYgYj6I

Frank Sinatra, The Best is Yet to Come,( Cy Coleman) (1964)

http://www.youtube.com/watch?v=lU1fJmKMxso

Paolo Conte, Madeleine

Também a Fotografia traduz a realidade e se para Susan Sontag (1)" A necessidade de comprovar a realidade e de engrandecer a experiência através das fotografias é uma forma de consumismo estético a que todos nos entregamos (...) é , contudo, "... uma compulsão para fotografar, transformando a própria experiência numa forma de visão."

De facto, tudo é fotografável e fotografado, desvendado sem pudor , havendo excesso de imagem, excesso de tradução de Vida, para além do prazer estético.

Susan Sontag não viveu o suficiente para conhecer a criação de Mark Zuckerberg, o Facebook , que pretende ser uma tradução da Vida, da vida real, colocando os utilizadores em janelas virtuais, em mundos quase imaginários e irreais, pautados pela partilha de tudo, desde o trivial ao mais íntimo.

Ficamos todos como no poema de Caeiro : "Não basta abrir a janela Para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. Há só cada um de nós, como uma cave. Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. (...)".

Talvez a mais interessante forma de tradução da vida se chame Cinema.

Um filme poderá , de modo magnífico, retratar, por exemplo numa mesma cena, a esperança e o desconcerto do Mundo.

http://www.youtube.com/watch?v=mcczdbmzOrk

Magnólia, Paul Thomas Anderson (1999)

Felizmente nem tudo é traduzível em palavras, em fotografias, em fotogramas, em música. Haverá uma réstia para o que é nosso, no silêncio, sem palavras.

(1)Susan Sontag, Ensaios sobre Fotografia, Quetzal, 2012


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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