tudo acaba em canções

-rascunhos poéticos, literários e musicais e outros na curva das horas

marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

Fernando Pessoa

# Dos pequenos nadas

A vida é feita de pedras e sonhos, de pequenos nadas.

Cada vez mais importantes os nadas nos tempos da Economia ; da crise, das pessoas que passam a ser números em orçamentos, em estatísticas nacionais e europeias.


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Foto Marina Malheiro / todos os direitos reservados

"Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado." Camus

À medida que o Tempo nos atravessa e nos traz um caminho com pedras e sonhos, deixamos de querer "significar" os momentos. Frui-los ao máximo, "sugar o tutano da vida", urge.

Tudo parece infinitamente pequeno e tão relativo.

Um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, fazia do fruir do momento, a sua filosofia de vida, tendo é claro, sempre o Fim.

No poema "Colhe o dia, porque és ele" está presente o Carpe Diem de Horácio; "Por que tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é tudo. "

Esta é a hora, o momento dos pequenos nadas, o momento em que a Primavera nos beija os sentidos, o Sol nos amacia os pensamentos.

Tão atual o texto "O Sensacionista" de Bernardo Soares(1), face à crise económica internacional e , em particular à crise que se vive em Portugal neste momento : "Pertenço a uma geração — ou antes a uma parte de geração — que perdeu todo o respeito pelo passado e toda a crença ou esperança no futuro. Vivemos por isso do presente com a gana e a fome de quem não tem outra casa. E, como é nas nossas sensações, e sobretudo nos nossos sonhos, sensações inúteis apenas, que encontramos um presente, que não lembra nem o passado nem o futuro, sorrimos à nossa vida interior e desinteressamo-nos, com uma sonolência altiva, da realidade quantitativa das coisas."

É assim que, pelo menos duas gerações ainda pulsantes vivem e se sentem neste momento. Um momento de vidas adiadas, suspensas na régua e esquadro, no quadrado pensamento político.

Um Tempo de pequenos nadas, provavelmente menos materialistas, mas ao mesmo tempo, mais difíceis, mais condicionados à Economia, à engrenagem política europeia.

Caminhamos com pedras no caminho e sonhos, à mesma, sem desistir.


marina malheiro

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo." Fernando Pessoa.
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